Logo R7.com
RecordPlus
Patricia Lages

O mito da mulher perfeita e o custo invisível da eterna insatisfação

Nunca se falou tanto sobre liberdade e empoderamento feminino, mas nunca houve tanta pressão pela perfeição

Patricia Lages|Patricia LagesOpens in new window

  • Google News

Vivemos em uma época em que liberdade, autonomia e empoderamento feminino estão entre os assuntos mais comentados. Por outro lado, nunca houve tanta pressão para que mulheres correspondam a um ideal impossível de ser alcançado: a perfeição.


Um sem-fim de cuidados voltados a uma beleza impecável – do alto da cabeça à planta dos pés – se soma às cobranças por sucesso profissional, equilíbrio emocional, vida financeira exemplar e, claro, demonstrações constantes de felicidade. Tudo isso forma um conjunto de exigências silenciosas, por mais que se diga o contrário.

Esse ideal inatingível não nasce da realidade, mas da comparação. Ele é fabricado diariamente por um sistema que se alimenta da insatisfação e que encontra nas redes sociais um terreno fértil para prosperar. Quando a comparação se torna o principal critério de valor, nenhuma conquista parece suficiente, nenhum corpo é adequado e ninguém alcança o nível esperado, até porque essa régua nunca para de subir.


Ao longo de mais de 15 anos atuando como educadora financeira, observei um padrão recorrente: decisões econômicas equivocadas raramente nascem da ignorância, mas de emoções mal administradas. Gastos excessivos, endividamento e frustração financeira estão frequentemente ligados à tentativa de sustentar uma imagem irreal, atender expectativas externas – muitas vezes de pessoas sem qualquer relevância – ou preencher vazios emocionais.

Foi justamente dessa constatação que surgiu Economia Emocional (Ed. United Press), meu sexto livro. Nele, parto de uma reflexão simples, porém incômoda: a mulher perfeita não existe, mas o custo de tentar alcançar esse alvo impossível é real – e muito alto. Ele se manifesta na saúde emocional, nos relacionamentos, na espiritualidade e, inevitavelmente, nas finanças.


A conta da insatisfação eterna não fecha

Dados recentes ajudam a ilustrar o quanto essa equação é desequilibrada. Uma pesquisa realizada pelo Todas Group em parceria com a Nexus, ouviu mulheres em cargos de liderança para identificar do que precisaram abrir mão para crescer profissionalmente.

Segundo o levantamento, 71% afirmaram ter sacrificado o autocuidado; 52% admitiram negligenciar a saúde mental; 50% reduziram drasticamente o tempo com a família; 33% renunciaram à vida social e ao lazer; 24% adiaram ou desistiram da maternidade; 14% abriram mão de relacionamentos afetivos e outros 14% têm colocado a estabilidade financeira em risco. Os números confirmam que a conta de viver como se não trabalhasse fora e trabalhar fora como se não tivesse vida própria simplesmente não fecha.


Entender como esse sistema se instala e cria uma espécie de rodas dos ratos é simples: mulheres insatisfeitas consomem muito mais. Já aquelas que estão bem consigo mesmas não lotam shopping centers, salões de beleza nem clínicas de estética.

Um ciclo vicioso que se retroalimenta

A insatisfação constante é o motor desse ciclo de consumo que opera em alta velocidade. Para que ele continue girando, os padrões precisam mudar o tempo todo. Assim, quando muitas mulheres já gastaram o que tinham – e o que não tinham – para tentar se adequar, os padrões se alteram e a sensação de inadequação permanece.

Isso não significa rejeitar os avanços da estética, abandonar o autocuidado ou abrir mão de qualquer ambição. O problema começa quando a vida passa a ser tratada como vitrine, e não como propósito. Nesse contexto, as redes sociais desempenham um papel central. Elas não são o problema em si, mas é inegável que o número de mulheres que se esquecem de que o que se publica ali não passa de recortes cuidadosamente selecionados de uma vida que, na maioria das vezes, não corresponde à realidade.

Romper com esse ciclo exige maturidade emocional e escolhas conscientes. É preciso lembrar que a prosperidade verdadeira não nasce da aparência, mas da coerência entre valores, decisões e possibilidades reais. Enquanto a busca for por aprovação externa, o preço será sempre alto demais.

A mulher perfeita é um mito moderno. E mitos, por mais sedutores que sejam, nunca constroem vidas equilibradas.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.