Fisiculturismo virou febre no Brasil — mas dá para competir sem colocar a saúde em risco?
Especialista explica por que genética ajuda, mas não é tudo, e quais cuidados são indispensáveis para quem sonha em subir ao palco
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Nos últimos anos, o fisiculturismo deixou de ser um esporte de nicho e virou uma verdadeira febre no Brasil. Impulsionado por atletas em alta, campeonatos cada vez mais comentados e uma avalanche de conteúdos nas redes sociais — com vídeos de treino, dieta, transformação corporal, “bulking”, “cutting” e rotina de preparação — o assunto passou a ocupar espaço fixo na internet e, consequentemente, despertou uma curiosidade coletiva: será que qualquer pessoa consegue competir?
Para o nutrólogo Vitor Fernandes Lucas, especialista em hipertrofia e emagrecimento e também atleta de fisiculturismo na categoria Men’s Physique, o primeiro passo é entender que o esporte vai muito além do tamanho do músculo: “O fisiculturismo é sobre simetria e proporção. O público em geral acredita que o esporte se resume a ter mais massa muscular, mas não é necessariamente isso”.
O médico explica que, o que define um físico competitivo não é apenas “crescer”, mas construir um corpo harmônico e equilibrado, dentro das exigências específicas de cada categoria. E, na prática, a diferença entre quem treina como hobby e quem decide subir ao palco aparece principalmente na disciplina — não só na academia, mas fora dela.
“A alimentação deixa de ser tão flexível, o sono precisa ser controlado e o treino passa a ser rotineiro, tornando-se uma das prioridades do dia — como tomar banho”, diz. Para Vitor, a preparação transforma o corpo em um projeto de longo prazo. “O corpo vira um projeto, como se fosse uma escultura ou a montagem de um carro do zero.”
Com a popularização do fisiculturismo, uma das maiores dúvidas do público também cresceu: a genética é determinante? O médico reconhece que ela influencia, mas faz questão de quebrar um mito comum: “Qualquer pessoa que treine o suficiente e siga as orientações consegue competir.”
Para ele, o desafio costuma estar em manter constância por meses, principalmente nos detalhes que muitos negligenciam:“O mais difícil, muitas vezes, é treinar os músculos que não gosta. Além disso, é necessário manter uma dieta constante, seja para criar massa muscular ou perder gordura, dependendo da fase.”E reforça: “A genética ajuda, mas não é o único fator. Existem muitos campeões que não possuem genética favorável para o desenvolvimento de massa muscular.”
Já para quem está cogitando competir pela primeira vez, o doutor recomenda que a decisão seja acompanhada de planejamento e estratégia — e não tomada no impulso, como acontece com frequência depois que a pessoa começa a consumir conteúdos sobre o esporte.
O primeiro passo, segundo ele, é uma avaliação realista do físico, seguida pela escolha da categoria e o treinamento específico para o palco, incluindo poses, que fazem parte do julgamento. “Receber uma avaliação do físico, escolher a categoria, treinar as poses específicas e montar um planejamento direcionado para a competição escolhida’, aconselha Vitor.
E quanto tempo leva para ficar pronto? A resposta depende do nível de condicionamento e da dedicação do praticante, mas o especialista aponta uma média realista: “No geral, em cerca de dois anos, já é possível competir.”
O que você precisa para virar fisiculturista
- Avaliação do físico (pra entender pontos fortes e fracos)
- Escolha da categoria (Men’s Physique, Bikini, Classic, etc.)
- Treino com foco em simetria e proporção
- Dieta constante (bulking ou cutting, dependendo da fase)
- Treino de poses (parte essencial da competição)
- Sono e rotina controlados (recuperação é prioridade)
- Exames em dia (rim, fígado, colesterol, hormônios e coração)
- Acompanhamento médico (para performance e controle de riscos)
- Atenção aos sinais do corpo (insônia, overtraining, sintomas gastrointestinais)
Com o aumento do interesse pelo esporte, também cresce uma preocupação importante: dá para competir sem colocar a saúde em risco? Para o médico, sim — desde que exista acompanhamento e monitoramento adequado durante toda a preparação: “Com certeza. Desde que sejam sempre avaliados os marcadores de risco e haja acompanhamento adequado.”
Entre os exames essenciais, ele cita hemograma, perfil lipídico, função renal e função hepática. Por isso, e por muitos outros motivos, o acompanhamento médico é fundamental, inclusive no aspecto de controle de danos.
Esse cuidado se torna ainda mais necessário porque o fisiculturismo envolve mudanças intensas no organismo, especialmente em fases de perda acelerada de gordura e ajustes de dieta e treino. E quando o corpo começa a ultrapassar o limite, os sinais aparecem — e ignorá-los pode colocar tudo a perder.
“São vários, entre eles: overtraining, distúrbios hidroeletrolíticos, alterações gastrointestinais importantes e insônia.” O alerta do médico é claro: “Ignorar esses sintomas leva o atleta a perder tudo o que construiu durante a preparação.”
No meio desse cenário, também é comum que iniciantes acreditem que a suplementação seja obrigatória para competir. “A suplementação não é necessariamente indispensável. Se conseguirmos extrair tudo da dieta — como eletrólitos, macronutrientes e carboidratos bem manipulados — ela pode se tornar desnecessária", desmistifica o nutrólogo.
Ainda assim, ele pontua que alguns compostos são usados com frequência porque não conseguimos obter doses precisas apenas com alimentação. “Por isso, muitas vezes, faz-se uso de suplementos como creatina, citrulina, cafeína, entre outros.”

E, inevitavelmente, surge a pergunta mais delicada: o uso de anabolizantes é obrigatório no fisiculturismo? O médico diz que não — mas lembra que o cenário profissional é diferente do que o público imagina. “Não necessariamente. Hoje, o maior palco do fisiculturismo, que é o Mr. Olympia, não possui controle antidoping.” Na prática, isso influencia diretamente o alto rendimento. “A maioria dos atletas utiliza essas substâncias, o que torna ainda mais necessário o acompanhamento médico, visando o controle de danos.”
Ele reforça que, além de hemograma completo, função hepática e renal e perfil lipídico, o acompanhamento durante a preparação deve incluir avaliação hormonal (testosterona, estradiol, TSH, T4 e cortisol), controle metabólico (glicemia, insulina e HbA1c) e avaliação cardiovascular — principalmente para quem entra em fases mais agressivas.
No fim, apesar de toda a exigência, Vitor faz questão de lembrar que o fisiculturismo não é um esporte “para poucos”. Ele se tornou mais inclusivo e hoje possui categorias adaptadas, como a Wheelchair, voltada a atletas com mobilidade reduzida e usuários de cadeira de rodas.
“O fisiculturismo é para todos, pois busca simetria e harmonia corporal, alinhadas a treino, dieta e hábitos saudáveis.” E conclui: “Talvez competir seja apenas para quem está disposto, mas o fisiculturismo em si é para todos.”
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