Brasil ganha espaço na Wine Paris e amplia presença no mercado europeu
Diversidade regional, estratégia de mercado e presença ampliada marcam a participação brasileira na principal feira europeia do setor

A Wine Paris consolidou-se definitivamente como uma das principais feiras de vinhos do mundo. Realizada em fevereiro de 2026, no Paris Expo Porte de Versailles, a edição deste ano confirmou um movimento que já vinha se desenhando: Paris tornou-se um dos grandes centros globais de negócios do setor.

Criada a partir da união entre Vinisud e Vinexpo Paris, a feira cresceu de forma acelerada nos últimos anos. Em 2026, o avanço foi ainda mais visível. O pavilhão internacional praticamente dobrou de tamanho em relação à edição anterior, ampliando significativamente a presença de produtores fora da França. O fluxo de compradores estrangeiros, especialmente da Ásia, Estados Unidos, Africa, Europa e América Latina, foi intenso e altamente qualificado.
Se antes a Wine Paris era vista como alternativa à tradicional ProWein, hoje ela disputa protagonismo direto. Muitos importadores priorizaram Paris este ano, citando facilidade logística, custos mais acessíveis e organização eficiente. A feira amadureceu, e o mercado respondeu.
Brasil: mais vinícolas, mais regiões, mais maturidade
O Brasil participou mais uma vez com o apoio do Wines of Brazil, projeto setorial do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
Em relação ao ano passado, o número de vinícolas brasileiras aumentou de forma significativa. Mais do que quantidade, houve ampliação geográfica. Além das tradicionais produtoras do Sul, estavam presentes vinícolas de São Paulo, Minas Gerais e do Vale do São Francisco.
Essa diversidade regional é estratégica. Ela demonstra que o vinho brasileiro não é um projeto isolado, mas uma construção nacional, com múltiplos terroirs e propostas distintas.
O trabalho da Wines of Brazil tem papel central nesse processo. O estande coletivo fortalece a imagem do país, transmite organização e cria massa crítica diante do comprador internacional. Em mercados competitivos, a percepção de estrutura é tão importante quanto a qualidade do produto.
Após a feira, a promoção continuou na Embaixada do Brasil em Paris, que recebeu convidados franceses e brasileiros para uma degustação especial dos rótulos apresentados. Um gesto diplomático e estratégico: vinho é cultura, é comércio e é posicionamento internacional.
Foi durante essa recepção que conversei com os produtores.

Vinícola Aurora: retorno estratégico à Europa
A Vinícola Aurora participou pela primeira vez da Wine Paris. Segundo Giorgia Forest, export manager, a feira superou as expectativas.
Nos últimos seis anos, a Aurora concentrou esforços no mercado asiático, especialmente na China, onde identificou forte potencial desde 2018. A exportação da empresa existe desde 1970, mas sempre com foco direcionado a mercados específicos.
Agora, o olhar se volta novamente à Europa. A qualidade dos visitantes foi destacada como ponto-chave, desde importadores até estudantes de enologia e sommeliers, que funcionam como verdadeiros “embaixadores da marca”. Muitos ainda se surpreendem ao descobrir que o Brasil produz vinho, mas esse discurso começa a diminuir. A recorrência de visitantes interessados mostra evolução na percepção do país.

Vinícola Bárbara Eliodora: Minas Gerais no radar europeu
A Vinícola Bárbara Eliodora, representada por Henrique Bernardes, levou à França o terroir do Sul de Minas Gerais.
Fundada em 2015, a vinícola boutique trabalha com a técnica da dupla poda e colheita de inverno, com foco na Syrah. São atualmente 18 hectares, oito variedades e produção anual de 50 mil garrafas.
Em Paris, foram apresentados três rótulos, incluindo um Syrah mais leve, pensado para consumo mais fresco, além do clássico da casa e do Gran Reserva. A proposta é clara: mostrar que há terroirs brasileiros menos conhecidos, mas tecnicamente sólidos e com identidade própria. O enoturismo também integra a estratégia da marca.

Vinícola Salton: expectativa alta, e superada
A Vinícola Salton estreou na Wine Paris trazendo experiência acumulada em feiras internacionais como Düsseldorf, Estados Unidos, Ásia e África.
Cesar Baldasso, gerente de exportação, destacou que a expectativa já era elevada, baseada no relato positivo de outras empresas brasileiras na edição anterior e, ainda assim, foi superada.
A ferramenta “matchmaker” da feira funcionou de forma eficiente, garantindo reuniões previamente agendadas e presença confirmada dos compradores. Mesmo com um estande mais modesto, o fluxo foi intenso e qualificado.
Um dado interessante: antes de decidir participar, a Salton consultou seus importadores para entender se priorizariam Paris ou Düsseldorf. A maioria optou por Paris, citando praticidade e custo-benefício.
Vinícola Casa Almeida Barreto: olhar estratégico e projeto internacional
A Vinícola Casa Almeida Barreto, de Espírito Santo do Pinhal (SP), participou da Wine Paris com foco em avaliar o potencial de exportação e entender o posicionamento do vinho brasileiro no cenário global.
Gabriel Barreto, enólogo e proprietário, destacou que a feira foi importante para compreender tendências, identificar quem está se destacando no mercado e ampliar a visibilidade da marca. Segundo ele, a organização superou as expectativas, houve boa procura no estande e a plataforma digital facilitou o agendamento de reuniões com importadores.
Gabriel elogiou o trabalho do Wines of Brazil na promoção internacional e observou que, embora o número de vinícolas brasileiras tenha crescido em relação ao ano anterior, o país ainda pode ampliar sua representatividade nas próximas edições, reunindo mais produtores das diversas regiões vitivinícolas.
Para a vinícola, o mercado externo já integra o planejamento de curto prazo. Exportar, afirma, é também um estímulo à inovação, à melhoria contínua e à resiliência diante de desafios econômicos e políticos.

Vinícola Miolo: escala, portfólio e consolidação internacional
A Vinícola Miolo, que já havia participado da edição anterior, percebeu uma evolução clara do evento em 2026.
Segundo Lucio Motta, gerente de exportação, o crescimento do pavilhão internacional foi significativo, praticamente dobrando de tamanho. A presença de compradores globais também aumentou, inclusive de mercados que não haviam comparecido no ano anterior.
Para a Miolo, a Wine Paris cumpre dois papéis estratégicos: consolidar relacionamento com clientes já estabelecidos e prospectar novos mercados. Atualmente presente em 25 países, a empresa possui uma das linhas mais completas do Brasil, com vinhos que vão desde categorias de entrada até alta gama.
Essa amplitude de portfólio é um diferencial competitivo. Permite adaptar a oferta a diferentes estruturas tributárias, margens de importação e posicionamentos de mercado. Além disso, a Miolo possui capacidade produtiva robusta, o que transmite segurança a importadores que buscam consistência de fornecimento.

Casa Valduga: presença contínua e foco na Europa
A Casa Valduga retornou à Wine Paris com visão de longo prazo. Não se trata de participação pontual, mas de posicionamento estratégico.
Luisa Valduga, gerente de exportação, observou que o aumento do pavilhão internacional trouxe mais importadores focados em fechar negócios concretos. A plataforma digital da feira facilitou conexões direcionadas e reuniões mais eficientes.
Com apenas três anos de exportação estruturada, a Casa Valduga já conquistou entrada nos Estados Unidos e consolidou parceiros na Ásia. Agora, a estratégia mira Europa e Benelux, mercados reconhecidamente mais complexos, mas de alto valor agregado.
Segundo Luisa, o suporte do Wines of Brazil fortalece a imagem coletiva do país. Um estande com múltiplas vinícolas transmite solidez e cria narrativa nacional consistente, algo essencial para penetrar em mercados tradicionais.
A meta é clara: ampliar presença europeia com constância e planejamento.

Vinicola Rio Valley – Vale do São Francisco: frescor o ano inteiro
O Grupo Verano Brasil, com a marca Garzieira, apresentou ao público europeu a singularidade do Vale do São Francisco, região onde é possível colher uvas durante todo o ano.
A irrigação e o uso intensivo de tecnologia permitem regularidade produtiva. O resultado são vinhos marcados por frescor e leveza.
Entre os destaques estiveram os frisantes de Moscatel com 7% de álcool, versões em lata e produtos 0% álcool, alinhados às tendências contemporâneas de consumo. O branco elaborado com Chardonnay e Chenin Blanc também chamou atenção pela leveza e equilíbrio.
A participação brasileira na Wine Paris 2026 revelou um momento de transição.
Se em anos anteriores o desafio era apresentar o Brasil como país produtor, agora o movimento é outro: consolidar imagem, ampliar presença e transformar curiosidade em relacionamento comercial.
O crescimento do número de vinícolas, a ampliação geográfica das regiões representadas e a postura estratégica das empresas indicam um setor mais estruturado e consciente do seu posicionamento internacional.
O Brasil ainda enfrenta barreiras naturais de percepção em mercados tradicionais. Mas a consistência das participações, o apoio institucional e a qualidade técnica dos rótulos apresentados em Paris mostram que o país já não ocupa apenas o espaço da novidade.
A Wine Paris 2026 sinaliza que o vinho brasileiro começa a se inserir de forma mais orgânica nas dinâmicas do comércio global, não como exceção, mas como parte do jogo.
E, no mercado internacional, permanência é sempre mais importante do que impacto pontual.
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