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Champanhe: como um vinho imperfeito virou o maior símbolo de celebração do mundo

A história real das borbulhas passa por erros, monges, reis e muito mais do que Dom Pérignon

Na Minha Taça |Cynthia MalacarneOpens in new window

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O champanhe virou bebida de celebrações Reprodução/Instagram @domperignonofficial

Poucas bebidas carregam um significado tão imediato quanto o champagne. Basta ouvir o som da rolha sendo retirada para que o gesto ganhe um sentido coletivo: algo importante está sendo celebrado.

Mas por trás dessa associação quase automática entre champanhe e comemoração existe uma história longa, cheia de nuances, equívocos técnicos, avanços científicos e, sobretudo, muitos mitos que se consolidaram ao longo do tempo.


Para entender como o champanhe se tornou o vinho das celebrações, é preciso voltar vários séculos no tempo, e começar desfazendo algumas ideias equivocadas.

Antes de champanhe, já existiam bolhas

Embora hoje seja quase impossível dissociar vinho espumante da região de Champagne, as primeiras borbulhas documentadas da história do vinho não surgiram ali. O registro mais antigo de um vinho naturalmente efervescente data de 1531, na região de Limoux, no sul da França. Monges beneditinos da Abadia de Saint-Hilaire produziram o que hoje conhecemos como Blanquette de Limoux, um vinho que passava por uma fermentação interrompida pelo frio e retomada posteriormente, gerando gás dentro da garrafa.


Ou seja, quando Champagne ainda buscava fazer vinhos tranquilos e estáveis, as bolhas já existiam em outras partes da França, ainda que de forma rudimentar e pouco controlada.

Champagne não queria efervescência

Durante séculos, os produtores da região de Champagne não desejavam fazer vinhos espumantes. O clima frio interrompia a fermentação no inverno e, com a chegada da primavera, o processo recomeçava dentro das garrafas. O resultado eram vinhos turvos, pressão excessiva e explosões frequentes nas adegas.


As bolhas eram vistas como um defeito. O objetivo era eliminá-las, não celebrá-las.

É nesse contexto que surge a figura mais famosa da história do champanhe.


Champanhe Dom Pérignon NIELS ANDREAS/ESTADÃO CONTEÚDO - 29.11.2005

Dom Pérignon: o grande mito — e o grande mérito

Dom Pérignon jamais “inventou” o champanhe, apesar do que a lenda popular sugere. Monge beneditino da Abadia de Hautvillers, na própria região de Champagne, ele viveu no século XVII e dedicou sua vida a melhorar a qualidade dos vinhos locais.

Seu grande legado não está na efervescência, mas na organização e no refinamento da vinificação. Dom Pérignon foi um dos primeiros a entender o valor do assemblage, a mistura de vinhos de diferentes parcelas e safras para buscar equilíbrio e constância. Também aprimorou práticas de prensagem, seleção de uvas e controle de qualidade.

Ironia histórica: seu trabalho tinha como objetivo reduzir a instabilidade dos vinhos, e não provocar a efervescência. A célebre frase “estou bebendo estrelas” não possui base documental e só aparece muito tempo depois, já no campo do marketing e da mitologia.

Ciência inglesa, vidro resistente e o nascimento do champanhe moderno

A transformação das bolhas em virtude só foi possível graças a avanços que vieram de fora da França. No século XVII, estudiosos ingleses, como Christopher Merret, documentaram a adição deliberada de açúcar ao vinho para provocar uma segunda fermentação. Paralelamente, a Inglaterra desenvolveu garrafas de vidro mais resistentes, capazes de suportar pressão interna, além do uso mais difundido da rolha de cortiça.

Esses elementos foram decisivos para que, gradualmente, os produtores de Champagne passassem a controlar a efervescência, transformando um acidente climático em estilo.

Reims, Champagne e o nascimento do símbolo da celebração

A consolidação do champanhe como vinho de prestígio está intimamente ligada à cidade de Reims, localizada no coração da região de Champagne. Desde a Idade Média, Reims foi o local tradicional de coroação dos reis da França. Nessas cerimônias e nos banquetes que as acompanhavam, o vinho da região ganhou visibilidade, prestígio e associação direta com momentos solenes e grandiosos.

Com o tempo, esse vínculo simbólico se fortaleceu. No século XVIII, surgiram as primeiras casas dedicadas exclusivamente à produção de vinhos espumantes na região. No século XIX, essas casas passaram a investir ativamente na imagem do champanhe como bebida ligada à vitória, à celebração e ao sucesso.

A partir daí, o ritual estava criado.

O champanhe se tornou o vinho das celebrações Alf Ribeiro/Estadão Conteúdo - 25.03.2010

Por que champanhe virou o vinho do brinde?

Além da construção histórica e social, o champanhe possui características sensoriais que ajudam a explicar seu papel simbólico. As borbulhas criam frescor, movimento e leveza; a acidez mantém o vinho vibrante; o teor alcoólico moderado permite que ele seja consumido ao longo de celebrações longas.

Mas talvez o fator mais importante seja cultural: o champanhe passou a marcar o tempo. Ele sinaliza encerramentos e começos, vitórias e novos ciclos. É um vinho que não pede silêncio, mas compartilhamento.

Na virada do ano, quando o calendário se renova e os desejos ganham forma, o espumante segue cumprindo seu papel simbólico com naturalidade. Não apenas como bebida, mas como gesto: o de marcar um fim e anunciar um começo. Que em 2026 as taças se levantem com intenção, consciência e alegria, celebrando não só o que passou, mas tudo o que ainda está por vir.

Feliz Ano Novo!

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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