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Cadeiras ocupadas: quando o câncer chega antes dos 35

Nos nossos próximos encontros pretendo puxar sua cadeira, mas calma! Não quero que você caia. O objetivo é que você se levante antes de precisar encostar no chão. 

Papo de Paciente|Do R7

Estou sentada em uma cadeira de dor, dura, imóvel e insistente. Ao meu lado na sala de espera, outras pessoas também ocupam suas próprias cadeiras, que apesar de parecidas com a minha, são únicas e irreproduzíveis. Compartilhar essas cadeiras pode deixá-las mais quentes e amaciadas, mas não existe outro jeito: não é possível trocar ou devolver a cadeira. Cada um tem a sua.

A minha é a de uma mulher de 32 anos, que só tinha enxergado a realidade do câncer com os olhos de jornalista. Sentar no lugar do paciente é uma faca que atravessa o coração: ele não para de bater, mas chora copiosamente. A mim restam duas alternativas: permitir que a hemorragia interna me fuzile aos poucos até enterrar meu brio, ou estancar o sangue.

Não estou sozinha, mas ao mesmo tempo estou. Muitas pessoas fazem tratamentos contra o câncer, mas a vista que enxergo, apenas meus olhos foram moldados para ver. Aos outros cabem suas próprias vistas: cada história tem seu começo, recomeço e fim. Fomos apresentados à mesma cor, mas em cada cor moram centenas de nuances. Temos nossa própria cadeira: na minha ninguém mais pode sentar.

Vejo que minha cadeira tem uma certa costura diferente: ao meu redor há mais filhos acompanhando mães, do que mães acompanhando filhos. Meu processo parece antinatural: minha mãe é quem coloca o crachá de visitante. Lembro-me da primeira vez em que vi uma mulher com seus trinta anos na sala de espera do oncologista e sem cabelo. Trocamos um sorriso tímido e distante: é como se, no meio da multidão, tivéssemos nos reconhecido. Não falamos uma só palavra – o abraço mental já disse tantas coisas.

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Elas existem, e não são poucas!

Depois de ver, mesmo de longe, a primeira paciente de câncer com a mesma idade, conheci muitas outras: elas não estavam no hospital aonde me trato, mas gritavam nas redes sociais, à procura de um lugar para pertencer. Dei a mão para algumas, e muitas outras me emprestaram o ombro inteiro. Se no hospital eu destoava, a sala de espera do mundo online estava sempre cheia de nós. Apesar de sermos minoria, temos ocupado cada vez mais cadeiras. O rosto do câncer, que antes era mais velho, tem ficado com trinta, vinte anos de idade.

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A realidade não é sentida apenas por nós, pacientes. Raphael Brandão, oncologista clínico do Hospital Moriah, diz que recebe cada vez mais adultos com menos de 35 anos no seu consultório. “Desde antes da pandemia eu tenho percebido esse aumento. É algo que se comenta bastante entre nós, oncologistas”, diz. Ele acrescenta que muitos pacientes chegam assustados, pegos de surpresa pelo diagnóstico.

Eu já fui um deles. Cumprimentar uma doença grave de forma tão imprevista estilhaça o vidro da zona de conforto em pedaços minúsculos. A cada novo andar reconstruído, novas lições sobre a necessidade de olhar mais para si. E eu não estou me referindo ao espelho. Nos próximos encontros vamos esmiuçar a nova idade do câncer, consultar pesquisas e principalmente, refletir sobre nossos hábitos e a maneira como tratamos nossa própria vida. Até mais!

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