“Morto Não Fala”: do IML Leste de SP para as telas de cinema do mundo

Com elenco de peso, filme de terror nacional estreia hoje em mais de 70 salas do Brasil após ser exibido em diversos países 

Stênio (Daniel de Oliveira) conversa com cadáver no IML, em 'Morto Não Fala'

Stênio (Daniel de Oliveira) conversa com cadáver no IML, em 'Morto Não Fala'

Divulgação

É comum ouvirmos falar que o cinema brasileiro não tem tradição em terror. Que, depois dos cultuados filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, terem ficado mundialmente conhecidos na década de 60, quase nada de relevante nesse gênero foi produzido por aqui. Nos últimos anos, porém, produções nacionais como “As Boas Maneiras”, de Marco Dutra e Juliana Rojas, e “O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral, têm tentado mudar esse cenário. E, nesta quinta-feira (10), chega a mais de 70 salas do país um filme visto como a aposta definitiva para popularizar de vez o cinema de terror no Brasil: “Morto Não Fala”, de Dennison Ramalho.

O longa tem um elenco de peso, que traz Daniel de Oliveira, Fabíula Nascimento, Bianca Comparato e Marco Ricca, além de revelar o talento dos atores mirins Annalara Prates e Cauã Martins. Também conta com efeitos especiais que não ficam devendo a produções do gênero realizadas no exterior. E, para o autor deste texto que você está lendo agora, o filme tem ainda um significado mais do que especial, já que foi inspirado em um conto homônimo que escrevi em 2004, época em que era repórter de cidades no jornal paulistano “Agora São Paulo”, cobrindo principalmente casos policiais.

Fabíula Nascimento em cena do longa

Fabíula Nascimento em cena do longa

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Posso dizer que este filme começou a ser arquitetado já naquele ano, quando, num fórum de internet sobre cinema de terror, li uma entrevista de Dennison Ramalho. Em 2003, ele havia lançado o premiado e sanguinolento curta-metragem “Amor Só de Mãe”, chamando muita atenção dos fãs do gênero. Naquela entrevista que li na internet, Ramalho dizia que a maior dificuldade de se fazer filmes de terror no Brasil era a falta de histórias e argumentos originais para serem adaptados. Na hora, pesquisei e descobri o e-mail dele e mandei o link do meu blog “Casa do Horror”, no qual eu publicava pequenos contos ficcionais de terror.

A inspiração para esses contos, além dos filmes de horror que eu via desde moleque, vinha muito das experiências que eu vivia nas ruas da metrópole como repórter policial. A ideia para escrever “Morto Não Fala”, aliás, surgiu enquanto eu estava em frente ao IML Leste, no bairro de Arthur Alvim, aguardando a chegada de parentes de alguma vítima de crime violento para entrevistá-los e fazer uma reportagem. Lembro bem de estar naquele lugar sinistro e imaginar um funcionário do IML que pudesse falar com os mortos. O que eles lhe contariam? O que revelariam sobre os crimes que haviam tirado suas vidas?

Num dia atípico de calmaria na redação do “Agora”, onde eu costumava apurar e escrever, em média, de cinco a sete reportagens por dia, comecei a redigir o conto. Escrevi em uma tarde. No dia seguinte, finalizei, revisei e publiquei o texto. E, quando Ramalho recebeu o link do blog e leu minhas historinhas despretensiosas, foi justamente “Morto Não Fala” a que mais chamou sua atenção. Assim que terminou a leitura, ele respondeu meu e-mail, elogiando os contos e me chamando para conversar. Marcamos uma cerveja em um bar na Santa Cecília. Ali, ele já me disse que queria adaptar “Morto Não Fala”. Na época, a intenção era transformar o conto em um curta-metragem. E o filme começou a nascer. Ramalho passaria então a desenvolver o projeto.

Bianca Comparato vive Lara

Bianca Comparato vive Lara

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Pouco tempo depois, porém, publiquei outro conto, “Um Bom Policial”, do qual o cineasta gostou ainda mais. E o foco mudou. “Um Bom Policial” seria a história que viraria curta-metragem, e, em 2010, foi lançado o “Ninjas”, inspirado neste conto. Se o curta anterior de Ramalho, “Amor Só de Mãe”, já havia feito sucesso, “Ninjas” jogou de vez o diretor nos holofotes da produção de terror mundial, levando diversos prêmios, nacionais e internacionais. Após uma exibição do filme para convidados, no cinema de um shopping de São Paulo, Ramalho já me falou: “O próximo vai ser ‘Morto Não Fala’, hein!”.

De lá para cá, quase dez anos se passaram _afinal, fazer cinema no Brasil é algo complicado e demorado. Nesse intervalo, Ramalho fez curso de cinema na Universidade de Columbia, nos EUA, foi diretor-assistente de “A Encarnação do Demônio” (2008), de José Mojica Marins, que marcou a volta do cineasta após um longo período de afastamento, e começou a trabalhar como roteirista na TV Globo, escrevendo episódios das séries de TV “Supermax” e “Carcereiros”. Já eu continuei seguindo minha carreira no jornalismo.

Até que, por volta de 2012 ou 2013 _já não lembro direito_, para minha alegria, Ramalho me deu a notícia de que a Globo tinha a intenção de transformar seu projeto “Morto Não Fala”, que vinha sendo elaborado em parceria com a produtora Casa de Cinema de Porto Alegre, em uma série de TV. E que já estava começando a escrever os episódios junto com a roteirista Cláudia Jouvin.
Mais tempo se passou. Mudanças de plano ocorreram, e a Globo decidiu suspender a série e transformar “Morto Não Fala” em um longa-metragem da Globo Filmes. O longa foi rodado em 2016. Apesar de a história se passar em São Paulo, foi filmado na periferia de Porto Alegre. Após rodar mais de 40 festivais de cinema pelo mundo, também conquistar prêmios, entrar no catálogo de serviços de streaming dos EUA e da Austrália e de ser exibido em salas de países como Rússia e México, o filme finalmente chega aos cinemas de seu país de origem _última praça na qual é exibido, mais uma vez demonstrando como é difícil fazer cinema por aqui.

Um dos cadáveres dissecados no filme 'Morto Não Fala', de Dennison Ramalho

Um dos cadáveres dissecados no filme 'Morto Não Fala', de Dennison Ramalho

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Enfim, o público brasileiro poderá então conhecer a história de Stênio (Daniel de Oliveira), um auxiliar de médico legista que lava e costura cadáveres no IML de Arthur Alvim e possui o dom de falar com os defuntos _na maioria, pessoas negras e pobres, abatidas pela polícia ou em conflitos de gangues do tráfico. Será apresentado à mulher dele, Odete (Fabíula Nascimento), que trai o marido com o dono de padaria Jaime (Marco Ricca), pai de Lara (Bianca Comparato). E se assustará com a trama macabra que nasce dos segredos contados a Stênio pelos corpos castigados com quem conversa em seu trabalho ingrato. Prepare seu estômago e encare esse pesadelo.