O homem humilhado
Até onde sei|Pedro Américo

Testa arriada e ombro de parábola descendente, é evidente o extrato da população a que pertence o indivíduo que caminha incerto, o olhar murcho, a vergonha latente.
Como ele, há outros iguais rondando a mesma vizinhança, talvez embarcados no mesmo ônibus, quem sabe sentados no mesmíssimo bar, a quatro mesas de distância, apenas, e mal se sabem eles, nem desconfiam da má sorte de que compartilham.
Têm rombos idênticos na alma.
Cada um por um motivo diverso, não importa a causa, e sim o efeito, disse algum físico num livro qualquer que li no ginásio. Tomaram tiros de calibres distintos, mas ocupam o mesmo lugar na sociedade. Podem dar as mãos e sair correndo. Podem chorar um no ombro do outro, porque as lágrimas são iguais.
O mesmo choro. O choro do homem humilhado.
Inconfundível este tipo de cidadão.
E não que faça propaganda da própria dor, pelo contrário, o homem humilhado tem vergonha dos percalços que o alçaram à opressão. Ele preferia morrer. Ele preferia cair numa fossa aberta lotada de bosta. Chover lama do céu e sufocá-lo na enchente.
E, embora pense lutar contra sua própria condição, o homem humilhado na verdade custa demais a abandoná-la. Como se criasse uma afeição toda especial pela degradação da própria alma.
Ele tem carinho pelo que lhe mata e desonra. Todo torto, o humilhado.
E não só nos afetos, mas fisicamente. Ele não anda, ele rasteja. Arrastando pela cidade seu caráter arrombado e o orgulho ferido, zanza sem rumo, em busca da próxima humilhação – porque ele sabe que vai acontecer de novo.
Uma broxada, um cheque especial, um gol contra. Não importa.
Este homem podia até ter uma história antes, mas nada agora o define mais que isso. Nada, além do rebaixamento sofrido e do destino traçado. Porque, no cruel mundo da hombridade, uma vez um humilhado, para sempre um humilhado.