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Teixeira Heizer: o Hitler do bem

Até onde sei|Gabriel Kwak

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Setímio temperava seu chá de cidreira, beberagem mais mansa ao seu estômago mais delicado de octogenário, outrora bastante posto à prova. Suspendia a xícara para o ‘shot’ mas congelou o gesto frente a uma notícia do jornal da estação habitual. O noticioso informava o falecimento do comentarista esportivo Teixeira Heizer.

Setímio se acostumara a escutar os comentários afiados de Teixeira Heizer aos microfones da Rádio Globo sobre nossas melhores (e menos felizes) performances ludopédicas e em intervenções nas mesas-redondas. Tempos românticos em que um texto com uma dose de estética fazia diferença. E o texto esmaltado por Heizer, memorialista emérito da modalidade, era o caso.


Com esforço, o aposentado ainda podia achar nos seus guardados um recorte com texto de Heizer, arrancado a uma edição da antiga “Última Hora”. Quando foi lançada com estardalhaço, Setímio relutou a aceitar a UH, fundada pelo bessarabiano Samuel Wainer, tipo meio aventureiro, segundo ele. Mas logo a “Última Hora”, com sua fórmula popular, caiu no gosto do então contador do Hospital Efigênio Esmeraldo, que nas horas vagas se equilibrava entre o biriba e o acompanhamento sobranceiro das rodadas. Enviuvara cedo, em 1956.

Abastecera-se de informações valiosas sobre o Maracanazo através do livro de mesmo nome de Heizer que sua vista ainda alcançava na prateleira, a penúltima da estante da sala. Setímio ainda tinha congelada na sua retina a catástrofe de 1950, epopeia perdida da seleção que o fez perder dois quilos (será?).


Se bem que diante do 7 a 1, o arqueiro Barbosa fora um injustiçado, alçado ao pelourinho por muito menos...

Antes do placar rodar na partida entre Bragantino e Avaí pela Copa do Brasil, no Estádio “Nabizão”, foi observado um distraído minuto de silêncio. Não foi o primeiro e não será o último.


O pioneiro Teixeira Heizer viajou pro eterno, aos 83, comentarista do canal por assinatura SporTV. Eram participações especiais, salpicadas aqui e ali.

Detinha o crachá número 1 da emissora de televisão que ajudou a fundar, em 1965. Infelizmente seu primeiro nome era “Hitler”, Hitler Teixeira Heizer, no registro civil. (!!) Vejam só...


Setímio ruminou este pensamento espantosamente óbvio mas pavorosamente veraz: “Improvável se escrever sobre a história do futebol sem ir a Teixeira Heizer.”

E levou o gole prometido à boca. O chá já jazia frio.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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