‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ se destaca por atuação de peso, mas é fraco na narrativa
Atriz Rose Byrne entrega performance complexa ao dar vida ao drama de uma mulher em colapso
Cine R7|Giovane Felix
A vida de Linda (Rose Byrne) se tornou um verdadeiro caos: enquanto lida com a doença misteriosa da filha, também convive com um marido ausente, uma pessoa desaparecida e uma relação cada vez mais tensa com seu terapeuta. Como se não bastasse, ainda é obrigada a se mudar para um pequeno hotel de beira de estrada após o teto de sua casa desabar de vez.
É diante desse cenário que se constrói Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, filme da diretora Mary Bronstein, que estreia nesta quinta (1º) nos cinemas brasileiros. Com boa recepção da crítica, o drama já rendeu à atriz Rose Byrne o Urso de Prata de Melhor Atuação Principal no Festival de Berlim 2025.
De fato, a performance de Byrne como essa mãe à beira de um colapso é o aspecto mais forte do longa. Ao sustentar diversas camadas e sentimentos, apresentados de forma orgânica, a atriz conduz o espectador por um processo gradual de desgaste. Esse caminho se revela ao longo do filme, à medida que a personagem se afunda diante do esgotamento materno e das eventualidades que se acumulam.
A câmera acompanha a protagonista por quase todo o filme, sem folga. Com enquadramentos fechados e foco no rosto da atriz, que não se intimida diante da lente, o filme constrói uma sensação constante de claustrofobia e impotência, como se Linda estivesse aprisionada na própria realidade em que se encontra.
A personagem escrita por Mary Bronstein é uma figura complexa, com raros altos e muitos baixos, mas que se recusa a abaixar a cabeça e não pretende agradar ninguém. Os homens que a cercam aparecem como figuras distantes ou incapazes de oferecer real amparo, acentuando seu isolamento.
O longa acerta em não romantizar o drama vivido por Linda. Com peso dramático, a atriz traduz o drama de muitas mulheres na vida real, especialmente mães, que sofrem com a falta de apoio e o julgamento social.
Se, por um lado, a atuação de Rose Byrne é primorosa e admirável, por outro a narrativa não atinge o mesmo nível. A trama se desenvolve em torno das situações que se acumulam na vida de Linda, mas acaba estagnada em certo momento. Ao mesmo tempo em que as dificuldades se intensificam, a história não avança.
O filme é cheio de simbolismos e alegorias: o próprio desabamento do teto da residência já faz referência ao colapso da protagonista. Em alguns trechos, o longa ainda flerta com a mistura entre sonho e realidade, recurso que se encaixa na narrativa, mas é dispensável.
Por fim, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um filme com uma mensagem clara, sustentado por uma atuação de peso, mas fraco no desenvolvimento. Seu título intrigante traduz a impotência, o cansaço e a raiva de uma mãe desamparada diante da necessidade de seguir adiante. Por fim, sobra uma provocação para a audiência em forma de pergunta: quando tudo começa a desmoronar, quem está ali para ajudar?











