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Visceral e poético, ‘Valor Sentimental’ usa metalinguagem para retratar drama familiar

Produção norueguesa desponta como uma das principais apostas nas grandes premiações de cinema

Cine R7|Giovane Felix

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Novo longa do diretor Joachim Trier aborda dor e memória nas relações familiares Divulgação

Valor Sentimental é o novo filme do diretor norueguês Joachim Trier, que estreia nesta quinta (25) nos cinemas. Após o reconhecimento de Thelma e A Pior Pessoa do Mundo, o cineasta retorna com um drama familiar carregado de ressentimento, dor e tentativas de reconciliação, uma verdadeira investigação sobre memória e vínculos.

Após ser consagrado com o Grand Prix do Festival de Cannes, em maio deste ano, o título passou a chamar a atenção da crítica internacional. A produção escandinava foi escolhida para representar a Noruega no Oscar 2026 e desponta como um dos principais concorrentes na disputa, que também conta com o Brasil, representado por O Agente Secreto, novo filme de Kléber Mendonça Filho.


O longa segue a vida das irmãs Nora e Agnes, que após anos de afastamento, reencontram o pai distante, Gustav Borg, um diretor de cinema renomado. Longe dos holofotes, ele planeja seu retorno com um roteiro inspirado na história da família. Quando Nora recusa o papel da protagonista, os conflitos se intensificam e Gustav decide apostar em uma jovem estrela de Hollywood em ascensão.

Stellan Skarsgård e Renate Reinsve entregam performances complexas como pai e filha Divulgação

A beleza do cinema de Joachim Trier está no silêncio, no não dito. Não porque seus diálogos sejam fracos ou inconsistentes, pelo contrário: o texto de Valor Sentimental é autêntico e cru, com a naturalidade de uma conversa real, como se não tivesse sido ensaiado. No entanto, são os silêncios que machucam. Os respiros entre uma fala e outra dizem mais que as próprias palavras. Eles revelam, não explicam, deixando a dor e o sentimento à mostra.


O filme avança com calma, respeitando o tempo para que cada diálogo e interação sejam digeridos. Aqui, é o sentimento que guia a narrativa. Trier faz uso da metalinguagem ao colocar o próprio cinema no centro do conflito: o filme dentro do filme serve para expor e trabalhar questões familiares mal resolvidas entre os personagens.

As feridas dos membros da família são o ponto central da trama: distintas, mas compartilhadas. Por um lado, Nora, a filha mais velha que se recusa a atuar no filme do pai, mantém uma postura firme, ao mesmo tempo que lida com as marcas deixadas pela ausência paterna, refletidas na sua relação consigo mesma, na autocobrança e em uma insegurança constante.


Em contrapartida, temos Gustav, uma pessoa que busca reparar o passado por meio do próprio trabalho. Com um filme inspirado na história da família, ele tenta, ao mesmo tempo, encontrar redenção e reconhecimento. No entanto, se depara com os limites e as mágoas das próprias filhas.

Drama norueguês se destaca como um dos melhores filmes do ano Divulgação

Todo esse peso emocional do roteiro transparece no conjunto da obra. Cenas muito bem conduzidas com enquadramentos belíssimos conseguem transpor emoções genuínas para a tela. É como se o diretor enxergasse cada frame como um quadro e nós, como audiência, fôssemos convidados a interpretá-lo.


Mérito também das atuações entregues pelo trio central do filme. A atriz Renate Reinsve, que já brilhava em A Pior Pessoa do Mundo, demonstra mais uma vez que o impacto de uma boa atuação não precisa estar em grandes momentos dramáticos e que é possível entregar complexidade e emoção em gestos contidos.

Mesmo caso de Inga Ibsdotter Lilleaas, que interpreta Agnes. Com meias expressões e olhar atento, ela consegue passar desconforto e empatia no mesmo nível. Sua personagem é fundamental para a trama. Além de mediar os conflitos entre a irmã e o pai, Agnes também lida com a própria dor, que mantém escondida.

A sintonia entre as duas atrizes atravessa todo o filme, mas alcança seu ápice no final, em uma cena comovente e sensível que deixou o público no cinema com os olhos marejados. Muito provável que essa seja a aposta dos produtores na hora de vender o título para as grandes premiações, a clássica cena “for your consideration”, pensada para chamar a atenção dos votantes.

No fim, não existe mocinha e vilão no longa de Joachim Trier. O diretor não propõe uma história sobre culpa, tampouco a resolução de conflitos. Valor Sentimental se constrói como um exercício em que as feridas não se fecham, mas recebem atenção e cuidado, o que o torna tão autêntico, poético e real.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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