Ele 'escondeu' Angélica, 'calou' Mussum e 'domou' Chico Anysio

Conheça algumas das histórias de um dos gênios criadores da TV brasileira, Maurício Sherman, que morreu nesta quinta-feira, aos 88 anos

Maurício Sherman morreu aos 88 anos

Maurício Sherman morreu aos 88 anos

Reprodução

Dizer só que Maurício Sherman fez parte da história da TV brasileira me parece pouco para um cara que atuou, dirigiu, produziu e escreveu mais de três mil programas.


Sherman era muito mais do que cara que dirigiu Chico Anysio, Os Trapalhões, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Globo de Ouro, Gabriela Cravo e Canela, Faustão, Vídeo Show, ajudou a criar o Fantástico, lançou Xuxa e Angélica, passou por dramaturgia, jornalismo, humor, entretenimento...

Sem Sherman,  que morreu nesta quinta-feira (17), aos 88 anos, a nossa TV seria outra.

Foi o cara que convenceu Xuxa a trabalhar com crianças na TV, nos anos 1980, na extinta TV Manchete.

Maurício Sherman e Xuxa

Maurício Sherman e Xuxa

Reprodução

"Ela queria ser modelo internacional, não queria saber de TV não", contava ele. "Tive de insistir muitooooo!", garante.


A melhor história era a de como lançou Angélica, aos 12 anos. Segundo Sherman, ele 'escondeu' a apresentadora na Manchete para lançá-la na hora certa.


"Fiz o teste, ela foi bem. Mas a Manchete tinha acabado de contratar a Simony. Então, encostei Angélica em um quadro pequeno junto dentro do programa da Simony. O programa deu errado, o dono da Manchete (Adolpho Bloch) mandou todo mundo embora e resolvi esconder a Angélica", contou ele em uma das entrevistas.


Habilidoso, deu um nó no jurídico do canal. Segundo ele, como o dono da Manchete só assistia TV depois das 19h (como assim, né??), a ideia foi manter a loirinha com pinta na perna 'escondida' na programação, mais cedo.

Angélica escondida

"Coloquei Angélica no programa musical das 17 horas chamado Choque. E ela ficou escondida quase um ano para o dono não a ver. Num belo dia, ele me cobrou: 'Cadê a nova Xuxa (a original tinha ido para a Globo)?' 'Eu tenho.' 'Você tem?' 'Tenho', e foi assim que a Angélica estreou na TV Manchete', revelou Sherman. 
E era assim, com essa persistência que o diretor construiu muita coisa importante na TV. Persistência que era vista por muitos como teimosia.

Brigas

E dessa teimosia vieram brigas homéricas com outro pai da televisão brasileira, o Boni. Brigaram tanto que Sherman chegou a sair e a voltar da Globo cinco vezes.

Tinham o mesmo empenho em fazer as coisas darem certo, mas do jeito deles. Geniais e geniosos. Cinco minutos após demitir o Sherman, o Boni já sabia que o chamaria de volta, contam os amigos da época.


E olha que Sherman domava leões. Conseguia o que queria com outro talento de temperamento forte: Chico Anysio.

Maurício Sherman e Chico Anysio

Maurício Sherman e Chico Anysio


'Dava corda' para Chico criar alguns de seus grandes personagens, quase todos inspirados em pessoas reais. E o humorista o 'obedecia' sem muitos questionamentos. Chico tinha fama de difícil e poucos diretores, entre eles Carlos Manga e Sherman, conquistaram a confiança do humorista.

Mussum mudo


Comenta-se que foi ele que sacou logo de cara qual seria a melhor forma de aproveitar o talento de cada um dos integrantes de 'Os Trapalhões'. Para Sherman, um dos mais carismáticos do grupo era Mussum, que segundo ele poderia até fazer humor mudo que todos dariam risada.


Com mais dificuldade do que os outros para decorar textos longos, Mussum logo virou o rei dos esquetes curtinhos do programa, piadas quase sem falas, calado.

'Era o começo desse tal de Meme', disse ele em uma entrevista. E era mesmo.


Seguiu lançando gente nova, dando oportunidades. Muitos deles nasceram no extinto 'Zorra'. Entre eles, Leandro Hassum. O humorista fazia uma pequena ponta na atração, em um único esquete.

Com Celulari e a galera do Zorra

Com Celulari e a galera do Zorra

Divulgação


Hassum brinca que foi Sherman que descobriu que ele 'sabia falar'.


Sherman amava dirigir o 'Zorra', onde ficou até 2014, aos 83 anos. O entrevistei em um dos bastidores do programa, entre uma gravação e outra.


Deixava os humoristas passarem o texto, dava as recomendações e sentava-se com a sua cadeirinha bem em frente a cena, hábito antigo.


Às vezes pedia para o humorista falar mais alto, pois já havia perdido parte da audição. Brincava que já era portador do 'ouvido seletivo'. "O Fausto (Silva) diz que só ouço o que eu quero!", contava o diretor.


No meio do esquete, soltava uma gargalhada, batia palmas. Adorava a dupla Valéria ( Rodrigo Santana ) e Janete ( Thalita Carauta ), os improvisos do texto, os 'cacos' dos atores. Incentivou um dos segredos do sucesso do quadro: a espontaniedade dos protagonistas.

Como em um espetáculo, só saía do set de gravação após ver todos os esquetes, mesmo os que já conhecia de cor.

Queria sonhar e se emocionar como os que esperavam na poltrona pelos 'sonhos' criados por ele. Gostava de ser plateia.