Melhor Não Ler “Fake news” são proibidas, mas dizer a verdade também

“Fake news” são proibidas, mas dizer a verdade também

Notícias falsas estão terminantemente proibidas, mas como a verdade dói e ofender virou crime, esta também não pode ser dita

Maria das Dores Rodrigues e Letícia Franca da Silva eram amigas inseparáveis desde a infância. Ambas cresceram juntas, morando no mesmo bairro e estudando na mesma escola. De tão apegadas, era comum serem confundidas como irmãs, ainda que não tivessem nenhum parentesco.

Maria das Dores era a mais insegura e menos sofisticada das duas. Ela não confiava em seu gosto pessoal para se vestir e nem mesmo para arranjar namorado. Mas, para sua sorte, podia contar com a franqueza da confiante amiga-irmã para aconselhá-la em suas indecisões ou, como ela mesma dizia, em sua “cafonice”.

Duas amigas, entre fake news, a sinceridade e o politicamente correto

Duas amigas, entre fake news, a sinceridade e o politicamente correto

PIXABAY

Já Letícia se autointitulava “sincera demais”, pois frequentemente não pensava antes de falar, chegando a ofender e afastar as pessoas de si mesma. Nisso, das Dores chamava sua atenção e a levava a ser mais ponderada, convencendo-a quase sempre a desculpar-se com quem havia sido grosseira e apaziguando seus relacionamentos com terceiros.

Com das Dores, Letícia havia aprendido a dizer a verdade de uma forma mais amena e educada e com as dicas de Letícia, das Dores estava se tornando a cada dia mais confiante. Porém, desde que o politicamente correto arrebatou o coração e a mente de ambas, aquela amizade da vida inteira começou a ficar estremecida. Qualquer assunto corriqueiro acabava em briga.

Mas a gota d’água que separou definitivamente as amigas foi quando das Dores apareceu com um corte de cabelo medonho e, mesmo sem gostar, Letícia disse que estava lindo e que lhe havia caído como uma luva. Para ela, dizer a verdade – mesmo com todo o jeito – já não era mais uma opção, pois a amiga poderia se ofender e ela seria jogada na fogueira da inquisição politicamente correta.

Porém, das Dores protestou: “Diga a verdade! Estou vendo na sua cara que você odiou. Isso é ‘fake news’, sabia?”


“Tá me chamando de mentirosa, das Dores? Vamos ver se depois que eu deixar os meus cinco dedos marcados na sua cara você vai me chamar de mentirosa! Quer saber? Tá horrível mesmo! Você não passa de uma cafona ridícula!”, revidou Letícia.

Aos prantos, das Dores reuniu forças e gritou: “Sua grossa, insensível! Não podia dizer que estou bonita, que fico bem de qualquer jeito? É inacreditável que você tenha sido minha amiga um dia. Inacreditável!”

“Calma, vai...”, disse Letícia em tom suave. “Olha, não está tão feio assim. Além disso, cabelo cresce e...”
“Cala a boca, Letícia! Não aguento mais suas mentiras e nem a sua franqueza! Custava dizer o que eu quero ouvir? Ai, como eu te odeio!”
“Já que você me odeia, eu também tenho direito de te odiar! Vou te detonar nas redes sociais, sua baranga!”

Esta crônica é uma ficção, mas que o politicamente correto faz todo mundo parecer sempre errado é a mais pura realidade!

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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