Síndrome do acanhamento masculino não tem cura

Já existe tratamento para a doença que caracteriza a vergonha de ser homem, mas profissionais de saúde afirmam que não há cura

Conhece alguma "pedreira"?

Conhece alguma "pedreira"?

Ksenia Chernaya/Pexels

Acompanhamos um dia de atendimento no novo Centro de Doenças Psiquiátricas Pós-modernas (CDPP) do Hospital das Clínicas de São Pedro do Sudeste, que já se tornou referência no tratamento da síndrome do acanhamento masculino (SAM).

Nossa equipe testemunhou vários atendimentos ao longo do dia, incluindo o de um rapaz de 19 anos que, assim que ingressou no mercado de trabalho, começou a apresentar sintomas da doença. Mas, antes de reportarmos como foi realizado o atendimento no CDPP, cabe o aviso legal: o relato pode ser perturbador para homens mais sensíveis. Trata-se de um tratamento inovador e muito diferente do que normalmente se vê em outras áreas da psiquiatria, portanto, leia com moderação.

“Tomei o emprego de uma mulher, sou um monstro!”, gritava o paciente esmurrando o próprio peito, enquanto duas enfermeiras faziam o pré-atendimento: “Mais forte, bata mais forte!”. Quando o jovem estava a ponto de desmaiar, uma delas jogou um balde de água fria em seu rosto, o que o fez recobrar os sentidos. Em seguida, a psiquiatra Sandra Rosa Silva da Silva pediu que o paciente fosse acomodado, sem camisa, em uma cadeira plástica com os punhos amarrados atrás das costas.

“Você não me parece muito convencido de que é um monstro”, disse a médica, iniciando a consulta. “Seu peito nem ficou roxo com essas pancadinhas... Não usou chicote, não se cortou... Acho que você está em negação.”

“Não estou, doutora! Eu sei que sou um monstro terrível... Me desamarrem para verem só o estrago que vou fazer em mim mesmo desta vez. Eu sou um lixo! Pobre mulher de quem eu tirei o emprego por ser um privilegiado! Coitada! Desempoderei uma mulher! Que foi que eu fiz? Eu sou um monstro, sim, eu posso provar!”, gritava desesperadamente o paciente.

Impassível, a doutora Silva da Silva continuou: “Até agora você só provou que tem bons pulmões, mas acho que não vai muito além dessa gritaria toda, enfim... O que mais você fez além de deixar uma mulher desempregada tomando o seu lugar no mundo dos negócios e roubando o ótimo salário que ela deveria estar ganhando?”.

“Mundo dos negócios? Ótimo salário?”, perguntou o paciente, bastante confuso. Com o objetivo de situá-lo na conversa, uma das enfermeiras lhe aplicou uma bofetada no rosto e, em seguida, a outra tratou de ajudá-lo a levantar-se do chão e sentar-se novamente na cadeira, dizendo: “Nem uma tapona você aguenta? Que fracote! Que vergonha!”.

Retomando a consulta, a psiquiatra lhe disse: “Moleque, estou falando do seu emprego de 15 mil reais por mês, acorda!”.

Recobrando os sentidos, o paciente esclareceu: “Não, doutora! Acho que preenchi o formulário errado. Eu ganho isso por ano e...”

“O quê?”, interrompeu a doutora. “Você não ganha nem 2 mil reais por mês? Que raio de emprego é esse? O que você faz da vida?”

“Sou pedreiro”, respondeu ele.

“PE-DREI-RO?”, disseram as três profissionais em uníssono.

“Que patético! Você não está doente, moleque! Está apenas delirando”, afirmou a médica, e acrescentou: “Você acha que alguma mulher ia querer trabalhar de pedreira, carregando pedra, areia, cimento, passando o dia inteiro imunda pra receber uma miséria dessa? Soltem ele, meninas!”.

O paciente agitou-se e começou a protestar: “Mas, doutora, eu vi na televisão que homem branco e hétero é opressor, que a gente precisava pedir perdão por ser assim, e que temos que abrir mão dos nossos privilégios de macho e...”.

“Cale-se, pedreiro ignorante!”, gritou a médica. “Isso não se aplica a um pé-rapado como você! Só serviria se você fosse o dono da construtora, o arquiteto, o engenheiro da obra ou, no mínimo, o topógrafo. Ponha-se daqui para fora e só volte quando tiver um emprego decente!”

“Então eu não sou um monstro? Estou curado?”, questionou o paciente.

“Curado não, está apenas tratado, pois se você ralar muito, subir na vida e de repente se tornar um empreiteiro será um forte candidato a desenvolver a SAM. Agora vá, desapareça daqui!”, disse a psiquiatra, finalizando o atendimento.

Esta crônica é uma ficção, mas poderia não ser...

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