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35 anos de Das Projekt: turnê comemorativa reacende o rock gótico brasileiro

Entrevista mostra como a cena gótica segue unida entre estrada e algoritmo

Musikorama|Rodrigo d’SalesOpens in new window

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Marcelo Kpta e Rica Silveira celebram 35 anos do Das Projekt em turnê e contam como a banda se mantém ativa entre estrada e streaming. Diego Botelho/Montagem Musikorama

Trinta e cinco anos não são só um número para estampar pôster. No caso do Das Projekt, viraram um viraram uma linha do tempo do rock gótico brasileiro, com trocas de formação, discos que alternam estéticas e um público que segue acompanhando, mesmo quando o mercado muda as regras do jogo.

Na entrevista, estiveram comigo Marcelo Kapeta, vocalista e líder, e Rica Silveira, baixista e produtor de turnês. A banda detalha os planos da turnê de 35 anos, explica por que o catálogo do Das Projekt no streaming precisou recomeçar várias vezes e defende a mídia física como parte do conceito, além de puxar histórias curiosas que ajudam a entender a trajetória da banda.


Turnê de 35 anos, cidades, Nordeste e repertório

MSKRM: Como estão os preparativos para a aguardada turnê de 35 anos? Por onde ela passará?


DS PRJKT: Olha, eu posso dar somente alguns spoilers. Sempre no começo de ano, procuramos fechar algumas coisas com dois, três meses de antecedência, principalmente quando são lugares distantes. Em 2024 fizemos uma prévia dessa tour. Tocamos bastante - também por causa do lançamento do último disco. Para esse ano a gente pretende fazer alguns shows especiais. Alguns desses lugares já foram fechados, mas ainda não os divulgamos. Dentre eles estão Belo Horizonte-MG e Rio de Janeiro-RJ. No Rio vão ser duas etapas, uma em cada semestre. E estamos animados para a turnê que vai acontecer no Nordeste.

MSKRM: Quais cidades já foram definidas?


DS PRJKT: Provavelmente serão: Natal, Fortaleza, Recife, Salvador e João Pessoa. Só que, cara, a gente é tudo cinquentão. Cinco cidades seguidas acho que ninguém da banda aguenta (risos).

MSKRM: E no sul, haverá algo?


DS PRJKT: Surgiu um convite pra gente se apresentar em Porto Alegre-RS, mas a gente ainda não bateu o martelo.

MSKRM: Porto Alegre é um local onde a banda nunca se apresentou, correto?

DS PRJKT: Porto Alegre é um dos poucos lugares que a gente nunca se apresentou. Do sul e sudeste, a gente foi de São Paulo à Curitiba. Porto Alegre realmente nunca fomos.

MSKRM: Em termos de repertório, o que o público pode esperar desta celebração? Haverá hits da fase “Krummen Mauern” também?

DS PRJKT: Depois do show em São Paulo, o repertório vai pegar todas as fases, desde o primeiro disco da banda. A gente tem 60-70 músicas gravadas, não dá pra entregar tudo de uma vez.

O que Kapeta descreve é uma turnê pensada com pé no chão, mas com ambição de varrer o catálogo inteiro. A lógica é comemorar os 35 anos sem virar prisioneiro; visitar a história e celebrar o momento atual, sem esquecer que a estrada tem seus limites.

35 anos, discografia e a fase como trio

MSKRM: 35 anos de Das Projekt. Qual a sensação de alcançar a rara marca de três décadas de uma banda?

DS PRJKT: A gente tá com uma ansiedade grande. Em 2024 a gente lançou o “Down to Earth”, nosso quarto álbum de estúdio. Em 2024 a gente saiu em turnê divulgando as músicas desse disco. Foi o primeiro álbum nosso na formação como trio. A banda desde os anos 90 sempre foi um quarteto. Eram duas guitarras. Depois passou uma guitarra só.

MSKRM: Você entrou no Das Projekt em qual fase?

DS PRJKT: Nesse ano completo 20 anos de Das Projekt. A banda existe há 35 e eu tô nela há 20. Eu entrei em 2006, sendo o segundo vocalista. A primeira formação foi de 1991 até 2004 e se chamava “Das Projekt Der Krummen Mauern”. Eu era um grande fã que se tornou amigo da banda. Eles entraram em hiato e ficaram dois anos inativos. Em 2006 eu entrei, abreviamos o nome para “Das Projekt” e sigo até hoje.

Isso coloca Macelo Kapeta como alguém que viu o Das Projekt antes e depois do hiato, participando tanto do período de reconstrução quanto da fase atual do trio.

Disco temático, “morbidez” e o álbum que chegou à Europa

MSKRM: Em que momento o Das Projekt começou a ser reconhecido fora do Brasil?

DS PRJKT: Foi quando lançamos o álbum “Les Belles Infidèles” em 2012. Foi lançado na Alemanha pela Chrysalis Records e depois no Brasil, em 2013, pela Pisces Records.

MSKRM: Esse é um álbum conceitual muito lembrado pelos fãs.

DS PRJKT: Sim. Nesse disco a gente abordou o universo feminino de modo geral. Todas as músicas têm nome de mulheres. Mulheres de diversas décadas e séculos, do século XVI até os tempos atuais. Foi gravado com bastante morbidez e voracidade. A gente gravou acho que uns três clipes nesse disco. E tem um detalhe legal aí, um dos clipes foi gravado no estúdio que era do nosso guitarrista, o Gê Lucas. Ele havia recém vendido o estúdio para o Rica SIlveira, que nem era da banda ainda. O Rica transformou o estúdio num bar. (risos)

MSKRM: Verdade. O extinto Guaia Pub, certo?

DS PRJKT: Exatamente. Inclusive, gravamos o disco, enquanto ainda estava sendo reformado para se tornar no bar. Eu lembro que eu tava gravando vocal e olhando para os lados. Tudo estava cheio de pedra, tijolo; tava tudo quebrado. Eu tinha que ficar subindo em cima das madeiras para gravar (risos). Foi muito legal.

MSKRM: Que loucura! E hoje o Rica está na banda. Essa história de vocês vem de muito antes do que pensam.

DS PRJKT: Exatamente. Ele está um ano na banda, mas já acompanha a gente, há quase 20 anos.

O Das Projekt sempre se moveu por dentro da própria cena. Clipes, gravações e shows aconteciam nos mesmos espaços onde amizades e parcerias iam se formando. Não é a banda que “descobriu” alguém depois. É a banda que nasce e se edifica do seu próprio ecossistema.

“Punk rapper” no baixo e o mito das “raízes góticas”

MSKRM: Como é a influência de um punk/rapper, como o Rica Silveira, dentro de uma banda gótica?

DS PRJKT: Vou te contar uma coisa que vai te surpreender. Apesar da banda ser classificada como gótic rock, ninguém que passou pela banda tem raízes góticas. O curte mais hardcore, o Rica, vulgo Q.Pam, veio do rap e do punk, e eu, Kapeta, venho da dance music e flash house. É engraçado porque a gente vem de escolas completamente diferentes.

MSKRM: Eu achava que você era o pilar gótico da banda.

DS PRJKT: Eu sou muito conhecido no meio gótico porque eu integrei o underground no fim dos anos 80 e começo dos anos 90. Eu nasci praticamente junto com a banda. Mas eu era DJ da noite alternativa.

O rótulo pode ser gótico, mas a cozinha interna é eclética. E é essa mistura que permite ao Das Projekt soar diferente de disco para disco sem perder a sua assinatura.

O que mudou e o que ficou de cada era

MSKRM: O que permaneceu do conceito e sonoridade daquela fase seminal do “Krummen Mauern” e o que mais mudou?

DS PRJKT: Entre um disco e outro houve mudanças que eu posso até classificar como radical. A gente procurou não perder a essência, mas absorvia a vibe do momento. Um exemplo foi “Songs of War”, de 2017. Ele é bem rude, influências de metal que lembram Sepultura, tem até um conceito que aborda cultura indígena. Até os timbres da nossa característica bateria eletrônica foram alterados para timbre de bateria acústica. Teve muita crítica, mas foi o disco que esgotou mais rápido. (risos). Depois, como trio, a gente puxou o freio. A gente caiu numa coisa mais pós-punk e dark wave, com teclados e samplers.

Kapeta descreve um princípio que vale ouro: mudar não é problema. O problema é fingir que o artista sempre é o “mesmo artista”. Na Das Projekt, cada fase assume a sua própria face.

Português no Das Projekt e a música que puxou a fila

MSKRM: A banda canta majoritariamente em inglês, mas as músicas mais ouvidas no momento são as em português, como “Passeios Noturnos”. Qual a razão desse fenômeno?

DS PRJKT: Antes de se chamar “Das Projekt Der Krumen Mauer”, a banda se chamava “Santos Pecadores” e as músicas eram todas em português. Depois que passou para o inglês. Hoje a gente tem duas músicas em nosso idioma. Eu quis arriscar e confesso: compor em português é infinitamente mais difícil do que em inglês, mas curti. A primeira foi “Nosferatu (Dead Walk)”. Depois que peguei gosto, eu falei que daqui pra frente eu quero pelo menos ter uma música em português a cada disco.

MSKRM: Houve alguma alteração no perfil do público? Novos fãs passaram a acompanhar o trabalho?

DS PRJKT: A gente percebeu a diferença. principalmente, durante os shows. A galera acompanhando, cantando cada verso. Em português é mais fácil de assimilar a ideia. Nem todos sabem falar em inglês, no Brasil.

A resposta do público, nesse caso, não aparece só no gráfico das plataformas. Ela aparece na hora em que o refrão volta em coro da platéia para o palco.

Disco físico, streaming e o “azar” de começar do zero quatro vezes

MSKRM: Vindos dos anos 90, como avaliam as transformações de mercado pela era digital?

DS PRJKT: A gente nunca se manteve no hype da internet. Nos anos 90 era fita cassete, flyer, boca a boca. Streaming é excelente para divulgação e alcance, mas nada como um disco físico, com encarte, letras e conceito, principalmente em discos temáticos. Eu jamais vou abrir mão disso.

MSKRM: Vocês souberam aproveitar a hype das coletâneas, que outrora conferiam grande prestígio às bandas. Hoje, esse conceito evoluiu para playlists no streaming. No entanto, elas produzem o mesmo impacto?

DS PRJKT: Sim, e numa velocidade grande. A coletânea física atingia um número limitado pela tiragem e parava ali. Playlists com curadores alcançam infinitamente mais pessoas, e não é só Brasil, é mundial. A Das Projekt foi uma das primeiras bandas góticas brasileiras a disponibilizar seu catálogo no Spotify. Inclusive, fomos uma grande vítima do Spotify. O nosso perfil atual é o quarto ou quinto que criamos. A primeira foi aberta pela gravadora na primeira fase da plataforma. Então surgiu em algum país uma banda com o mesmo nome e tudo ia para o perfil deles. Depois tentamos com o nome de origem e escreveram errado, ninguém nos encontrava. Agora tudo se resolveu depois de anos recomeçando do zero várias vezes.

O streaming pode ser vitrine global, mas também vira labirinto quando o artista não controla o próprio catálogo. No relato do Das Projekt, a modernidade mercadológica trouxe alcance, mas não trouxe sossego.

Comunidade, insistência e a pressão do “lança a cada 14 dias”

MSKRM: Vocês lideraram um movimento e continuam atraindo um público considerável. Como se mantêm relevantes após mais de 3 décadas?

DS PRJKT: Eu acredito que vai muito de banda para banda. Você tem que se adaptar à modernidade. Mas o fundamental para manter a chama acesa é a famosa insistência. Eu não sou adepto de fazer as coisas correndo. Prefiro fazer com calma e bem feito. Assim entregamos sempre o nosso melhor para o público.

MSKRM: E o que pensa sobre o Spotify orientar uma frequência de novos lançamentos a cada 14 dias para esse novo momento de mercado?

DS PRJKT: Acho que isso se deve a tecnologia doméstica. O maior receio que eu tenho nos tempos atuais é essa coisa da IA. Parece que qualquer um faz música, até robô consegue fazer música e videoclipe. Isso começa a tirar espaço de diversos artistas. É surreal ver nos tops das plataformas, uma artista que não existe. Isso desanima quem quer montar banda.

Carreira internacional, tributos e o disco que ele achou “melhor que o original”

MSKRM: Essa história internacional começou com o Les Belles Infidélis?

DS PRJKT: Não. Antes disso já tínhamos reconhecimento em Portugal e na Grécia. Eu como DJ sempre tive contato lá fora e mandava material. O ponto mais legal foi em 2016, quando completamos 25 anos. Saiu um álbum tributo com bandas do mundo inteiro regravando nossas músicas.

MSKRM: Qual o nome desse álbum?

DS PRJKT:Magnis Maxima”. Vem do latim, de grandes causas. Tem versões ali que eu achei mais legal que as nossas originais. (risos)

MSKRM: Vocês também participaram de uma coletânea tributo, não?

DS PRJKT: Sim, ao New Order. Foi uma parceria com a Universal Music. Saiu somente no formato físico. Pelo que parece, irá permanecer dessa forma pelo modelo contratual estabelecido na época.

O “Capeta” que fala “graças a Deus”

MSKRM: Para finalizarmos com tom de revista de fofoca: Marcelo, em diversos momentos vemos você sendo simpático, usando frases cristãs. Você é o “Capeta” que fala “graças a Deus”?

DS PRJKT: (Risos). Muita gente pensa que meu apelido tem a ver com satanismo ou com o próprio meio gótico, mas não. Eu ganhei esse apelido com 8 anos de idade. Sofri bullying. Foi pegadinha que me fizeram, e o apelido pegou. Tinha uma porta, ou algo assim, com um formato que me pareceu um corpo com chifres, eu fiquei com muito medo. Os moleques fizeram a pegadinha à noite e eu saí gritando com medo do “capeta”. No dia seguinte virei o “Marcelo capeta”. Quando você não gosta do apelido, aí a casa cai. Depois eu aceitei e desencanei. (Risos)

Trinta e cinco anos depois, o Das Projekt segue fazendo algo que pouca banda sustenta por tanto tempo: organizar a própria trajetória com qualidade, consistência e independência, sem virar refém de formato, mercado ou tendência.

No fim, o que dá peso a essa comemoração não é a contagem de anos, mas a teimosia em tratar a música como obra de arte e não como preenchimento de agenda.

A entrevista deixa claro que a banda pensa repertório, formato e circulação com a cabeça de quem veio da estrada, mesmo lidando com as engrenagens do streaming, com a pressa do calendário e com a sombra da IA.

Para o rock gótico brasileiro, essa turnê vira um encontro de gerações em torno de uma cena que ainda se reconhece no escuro, na estrada e no detalhe.

Que venham outras décadas mais de Das Projekt para celebrarmos.

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Assista a entrevista completa no player abaixo:

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