‘Conselhos’ expõe a dor de família sem vitimização e entrega o pop mais cinematográfico de Linda Sena
Com letra sobre herança geracional e ritmo afro-brasileiro, a artista cearense entrega um pop com ancestralidade sem transformá-la em marketing de identidade
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
Quem tratar Conselhos como apenas mais um lançamento no mercado vai perder o que há de mais raro: imersão em camadas profundas de referências, culturas e memórias, do som ao audiovisual.
Em poucos minutos, Linda Sena muda a chave e separa o pop decorativo do pop com assinatura, com um single-clipe que traduz a complexidade do amadurecimento em gestos simples.
Quem observa o trabalho de Linda entende exatamente por que a canção funciona ao mesmo tempo como confissão, conselho e afirmação estética.
Conselhos chega num momento simbólico para a cantora e compositora cearense. Depois de anos de estrada e reconhecimento como intérprete vocal, Linda coloca a cantautora na frente do currículo.
O single não tenta “apresentar” uma nova artista, e sim consolidar uma visão. Identidade não se anuncia, antes, se constrói em detalhes.
A letra como herança: carinho que vem com farpa
A narrativa parte de um gesto íntimo, quase doméstico, e logo revela o conflito central: a dor que se repete nas gerações e a tentativa de não transformar isso em destino.
O verso “Filha, tu é uma flor / Mas não daquelas que cheira” é a chave do texto. É afeto com dureza, proteção com vocabulário de quem já apanhou.
O refrão insiste em “fazer o bem / sem olhar a quem” como se fosse uma regra de sobrevivência. Em outra mão, a escolha de ditados poderia soar batida, mas aqui se sustenta porque a letra fala com a autoridade de quem aconselha por experiência de vida.
A promessa não é que tudo vai dar certo. É que existe um norte quando a confusão volta.
Quando Linda afirma “Eu faço um incêndio, apago e ressurjo das cinzas”, a música sai do cotidiano e entra na metáfora, mas sem perder o pé na lógica.
O texto alterna corpo e abstração com inteligência, empilhando “karma”, “linhagem”, “alma” e “carne” para endurecer o discurso: não é só psicológico, é algo que se aprende e se carrega no corpo.
Um arranjo que viaja pelo Brasil sem virar colagem
No fonograma, “Conselhos” acerta onde muitos falham ao misturar diversas referências e símbolos. A canção tem miscelânea, mas não tem indecisão. Convence no pop e também na brasilidade tribal, que a empurra naturalmente para uma zona da world music.
Com ótimas escolhas rítmicas que conversam com a Nova MPB e ijexá. Os instrumentos acústicos dão textura, o contrabaixo sustenta o swing com peso, e a percussão acrescenta uma sensação de ancestralidade e movimento que não soa turística.
O arranjo é o grande argumento do single. Por volta de 1′20″, a música assume um pulso pop, com bumbo em 4x4, e depois abre espaço para respirar com uma quebra que alivia a estrutura.
Em torno de 2′00″, a faixa muda de pele, cria respiro, e volta a crescer como quem reorganiza a própria história em capítulos.
O clímax é costurado com cordas ganhando intensidade e expansão no estéreo, encerrando a narrativa sonora com um desfecho que parece “encerrar a contação do conto”, o retorno triunfal da jornada do herói.
A mix compete em qualidade com fonogramas de grandes nomes da música. Voz bem encaixada, à frente o suficiente para se destacar, sem exagero, e esse é um ponto crucial numa letra que depende de entendimento.
Conselhos não é música para ser só ouvida. Ela precisa ser compreendida.
O clipe como relicário
O videoclipe trata a memória como matéria visual. Flashbacks com textura de VHS, interação familiar e a personagem em trânsito criam um registro de evolução e raiz sem precisar teatralizar o tema.
Gravado em Fortaleza e Ubajara, o vídeo amarra o símbolo da água como linha contínua de raízes e evolução, e a estética funciona por escolher a delicadeza, não o excesso.
Ainda que alguns planos mais triviais, estáticos e frontais, quebrem um pouco da poesia fotográfica que o sustenta, nada soa como defeito.
O que Conselhos revela, de fato, sobre Linda Sena
A melhor qualidade do single é não transformar trauma geracional em “palestra”. A música reconhece o peso, mas responde com ação: “não se fechar”, “não se culpar”, “não deixar de viver”. Isso dá maturidade e evita o lugar comum da superação publicitária.

Se o início autoral de uma artista é o momento em que ela define o que vai repetir no futuro, Conselhos sinaliza escolhas promissoras.
Narrativa com valor, arranjo com profundidade e um pop que não pede licença para ser regional. Linda Sena parece ter entendido o mais difícil: quando a herança vira estética, a memória deixa de ser passado e passa a ser método.
Conselhos não é sobre receber conselhos. É sobre decidir o que fazer com eles. E talvez a provocação mais incômoda seja esta: quantas pessoas confundem destino com costume e chamam de “karma” aquilo que só nunca tiveram coragem de interromper?
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