Do metal ao zouk francês: 18 descobertas do underground global que merecem um play agora
Pirate metal, indie pop, hip hop e bossa nova, uma vitrine de faixas que provam que a criatividade humana segue muito viva na era da inteligência artificial.

Se você ainda acredita que a música está ficando “igual” ou que a inteligência artificial vai engolir os compositores, vai passar despercebido pelo melhor que está acontecendo agora. O que eu tenho recebido na minha caixa de entrada é uma prova diária de que a criatividade não só sobrevive como se multiplica nos lugares mais improváveis.
Morar fora do Brasil e trabalhar com artistas de países diferentes tem um “efeito colateral” maravilhoso. Eu recebo música como quem recebe bom dia. Chega de tudo quanto é canto, com estéticas, idiomas e ambições que não cabem numa só cena, e é justamente aí que mora o encanto.
Desde que fundei a Musikorama em 2015, já era essa a premissa; pensar como selo multinacional, com o ouvido apontado para a América do Sul (e além), não para uma bolha local. Mais de dez anos depois, essa escolha virou metodologia; comparar mundos, buscar assinatura artística e filtrar o que vale tempo de escuta.
E aqui vai a provocação que sustenta esta coluna: enquanto muita gente anuncia, com tom apocalíptico, o “fim dos compositores” por causa da IA, o que eu vejo na prática é um momento de abundância criativa, especialmente no underground.
A IA não “substitui” alguém automaticamente; ela muda o custo de experimentar, acelera protótipos e amplia possibilidades. Isso não elimina o critério humano (na verdade, torna o critério ainda mais valioso). Sem direção artística, sem identidade e sem intenção, a ferramenta só produz volume.
Abaixo, uma vitrine do que me chamou atenção no final de ano. Do metal ao rap, passando por MPB, pop e até o famigerado sertanejo. Não é ranking, nem “os melhores do mundo”, é curadoria de coisas que, por motivos diferentes, vejo ter algo vivo acontecendo; às vezes no som, às vezes no vídeo, às vezes na ousadia e até no que ainda está por lapidar.
Aanuki | “Control Fever”
França | Urban Music
Aqui, a primeira pancada é visual. O videoclipe tem força competitiva de padrão global; fotografia bonita e direção que sabe vender estética com apelo pop internacional. A produção musical soa pronta para o grande mercado, com equilíbrio de frequencias e transições bem integradas, sem perda de coesão.
O que torna tudo mais interessante é o potencial sugerido por uma artista independente. Há um universo todo pronto para ganhar mais impacto com o passar do tempo. Projeto performático, sedutor e bem resolvido, com personalidade suficiente para você desejar explorar o resto do repertório.
Perpetual Gravity | “Hikikomori”
França | Metal Alternativo
Metal com assinatura e uma vocalista que entrega alcance real de texturas, indo do gutural ao limpo com naturalidade. A produção tem peso com brilho controlado, com extremos bem balanceados e sem embolar o grave. A faix é pesada e elegante ao mesmo tempo, e o resultado conversa com públicos diferentes dentro do gênero, sem perder foco.
O clipe é simples e eficiente, com estética de clipe rock anos 2000, simples e eficiente, pedindo só mais movimento de câmera nos trechos calmos para combinar mais com a proposta. É uma ótima faixa para entrar em playlists de descoberta ou musculação.
Wagner Pamplona | “A Velha Bruxa, a Lua e o Mar”
Brasil | Folk Pop
Aqui a canção é maré. Ela avança e recua em ondas, sem pressa, puxando a atenção para dentro aos poucos. A poesia vem primeiro, e vem bonita, imagens místicas, emoção de conto antigo, metáforas que refletem personagem e ouvinte no mesmo espelho. A bruxa, a lua e o mar viram um triângulo de forças internas, e a música acompanha esse fluxo.
A faixa é exemplo do bom uso da IA como ferramenta técnica. Gerada sob direção humana clara, com decisões de andamento, tonalidade, clima harmônico, estrutura e instrumentação definidas pelo artista e refinadas no Easy Música (Harmonia v6.0), com prompts, ajustes e escolha de takes até chegar no resultado final.
O arranjo cresce com sutileza, inserindo mudanças que mantêm a atenção viva sem quebrar o feitiço. Quando chega ao momento mais imersivo, com voz e violão em destaque, a faixa ganha profundidade e confirma que o centro dela é a palavra, não o artifício.
Tabitha | “Letting Go”
Estados Unidos | Indie Pop
Pop emocional com maturidade na produção e uma sensibilidade que lembra a escola de grandes songwriters do mainstream. A faixa alterna densidade e abertura, trabalhando o peso dos graves e o brilho dos elementos rítmicos para criar evolução real, não só repetição.
O resultado é catártico sem ser exagerado. É música para ouvir sozinho e, ao mesmo tempo, com potencial de viralizar em recortes, porque tem frases e climas que combinam com trends. Vale o play pelo conjunto, mas principalmente pelo sentimento bem administrado.
Darth Bronka | “Unser Schiff”
Alemanha | Pirate Metal
Metal pirata em alemão com clipe bem produzido, cenários e fotografia de alta produção e composição colaborativa com fãs feita ao vivo. Essa é a premissa dessa faixa inusitada que mistura hardcore e metal com atmosfera marítima, quase celta, criando um sabor próprio que dá vontade de assistir até o fim.
O maior destaque é a voz, com graves presentes e distorção no ponto, fazendo a faixa soar palatável para além de sua bolha.
Mona Samara | “24 Horas”
Brasil | MPB - Romântico
MPB romântica com elegância e uma melodia que se sustenta no piano com precisão e leveza. Há versos que já nascem clássicos, daqueles que o ouvinte guarda, e o arranjo sabe entrar e sair com delicadeza, criando pequenas variações para manter a atenção viva.
Quando surgem os back vocals em estéreo e o solo de violão de nylon, a música ganha novas cores e segue emocionando. É uma faixa que pede audição em boa qualidade e que funciona como convite imediato para mergulhar no universo da artista.
Seven Factor | “Take the Flesh”
Estados Unidos | Thrash Metal - Industrial
Metal industrial com refrão grande, melódico e memorável, equilibrando agressividade e apelo. O vocal é o grande trunfo, técnica, drive e presença, com capacidade de mudar atmosfera sem perder peso. Tem energia de palco, com cara de hit que poderia circular forte entre fãs de Slipknot e Marilyn Manson.
O instrumental acompanha a ambição, com banda coesa e clara identidade própria. Mesmo quando a densidade aumenta, a faixa sustenta tensão e segue empurrando para frente. É daquelas que pedem volume mais alto e um “play” imediato no app.
Alan James | “Não Se Prenda Ao Medo”
Brasil | Britpop
Um encontro leve entre rock, jazz e britpop, com calor de Beach Boys e Beatles, sombra de Oasis e uma brasilidade que lembra Guilherme Arantes na forma de iluminar a canção. O audiovisual soma muito e amplia a experiência, como se a música ganhasse um segundo corpo.
A faixa conversa fácil com fãs de Skank em fases mais indie e com a cena atual do indie brasileiro. Tem arranjos claros, timbres bem escolhidos e uma sensação de “dia ensolarado” que raramente é bem capturada sem cair no óbvio.
Rohane | “Nul en Amour”
França | World Music - Zouk - Bossa Nova
Uma aula de sensualidade sofisticada. O clipe tem fotografia quente e teatralidade elegante, e a música propõe um híbrido que brinca com bossa nova e zouk sem perder autenticidade. O groove é suave, mas firme, e a construção cresce com paciência, adicionando camadas que renovam a audição.
O dueto vocal funciona com química real, e o interlúdio minimalista traz aquele respiro que faz a faixa voltar maior. É uma daquelas obras que parecem “joalheria pop”, feita para quem procura charme, narrativa e um romantismo poético.
Michael Cappetto | “Nowhere To Go?”
Estados Unidos | Folk Pop
Pop rock acústico com melodia que gruda e um desenvolvimento que segura o ouvinte até o fim. A mix é macia e envolvente, e os violões bem abertos no estéreo criam aquela sensação ampla que dá vontade de fechar os olhos e ficar ali.
A música tem o clima perfeito para virar recorte de redes e ganhar vida em vídeo curto, sem perder a essência. É emocional sem ser piegas e direta sem ser rasa. Boa para playlist, melhor ainda para descobrir um artista jovem que já entende narrativa.
Treze Black | “Submerso”
Brasil | Metal Alternativo - Grunge
“Submerso” constrói um arco muito bem pensado: começa num alternativo com sombra de grunge e, quando você acha que entendeu o terreno, mergulha num metal alternativo sem cair no piloto automático. A letra em português encaixa com precisão na métrica e na melodia, e o resultado tem um peso que lembra certas escolas brasileiras do metal, mas com acabamento moderno.
O charme está nas nuances. O pré-refrão mais melódico dá respiro, mas não amolece a pancada, ele recarrega a tensão e faz o impacto seguinte valer mais. É uma faixa que mostra maturidade de escrita e deixa a sensação de que a banda sabe exatamente o que está fazendo.
João Tostes | “Delicato Ukulele”
Brasil | Instrumental - World Music
“Delicato Ukulele” é uma aula de narrativa travestida de música. Começa como promessa de delicadeza, atravessa tensão, explode em clímax e volta para casa com a serenidade de quem concluiu a jornada. É a verdadeira “jornada do herói” contada sem uso de palavras.
A composição é o tipo de peça que faz o ouvinte querer assistir à execução e entender como aquilo foi construído. Para quem gosta de música brasileira instrumental com espírito de câmara e ambição de cinema, essa descoberta é obrigatória.
QuisRollin | “Cant get to me”
Estados Unidos | Hip Hop - R&B - Soul
Rap com violão de nylon dedilhado não é novidade absoluta, mas aqui tem alma. A base acústica dá um tom humano, quase íntimo, enquanto o flow traz rua, swing e atitude. Essa mistura cria uma faixa “coringa”, que conversa com quem ama hip-hop e também com quem costuma torcer o nariz para o gênero.
Quando o beat mais característico entra perto do final, a música ganha propulsão e o sentimento aumenta sem perder a delicadeza. É um encontro raro entre aspereza e lirismo que dá vontade de ver ao vivo, de procurar o clipe, de seguir o artista para entender o próximo passo.
Beethoven | “Novo normal”
Brasil | Pop Rock - Rock MPB
“Novo normal” tem vocação pop rock e um senso de refrão que mira o rádio, com a voz bem à frente garantindo entendimento e presença. Há um perfume de Brasil oitentista, com romantismo e um toque alternativo que dá personalidade à obra, como se a faixa piscasse para uma tradição sem querer virar cópia do passado. O charme é essa tensão entre familiar e estranho; você reconhece a escola, mas percebe um artista tentando construir símbolo próprio.
A voz está na frente, como pedem as canções cantadas em língua portuguesa, e a música tenta equilibrar romance e crítica de mundo, sem panfletar. É faixa para ouvir prestando atenção nos detalhes.
Thalerg | “Chopin’s Bossa”
França | Jazz - Bossa Nova
Uma ideia que poderia soar como truque, mas vira elegância. A faixa mistura a filosofia harmônica de Chopin com a estética da bossa nova e chega num resultado sofisticado, com piano e voz em altíssimo nível. A interpretação vocal traz um toque jazzístico que encaixa com naturalidade.
A produção é espaçosa e agradável, e o arranjo sabe quando preencher e quando deixar silêncio trabalhar. É uma daquelas músicas que fazem o ouvinte sorrir no meio da audição, não por nostalgia boba, mas por reconhecer inteligência musical em estado puro. Ideal para ouvir sentado, prestando atenção nos detalhes, tomando um bom café.
Erick Mattos | “Sempre que lembrar de mim”
Brasil | Urban Music - Romântico
“Sempre que lembrar de mim” aposta num romantismo urbano direto, com uma proposta clara e uma escuta confortável. O clipe acompanha com simplicidade e sensibilidade, deixando a canção falar sem precisar de excesso. Há um cuidado em manter tudo acessível, com melodia que encaixa e um clima que conversa com playlists de amor e saudade.
Mesmo sem grandes rupturas estéticas, faixa funciona pela honestidade do tom e pela intenção sentimental. É aquele tipo de som que ganha espaço quando você quer algo íntimo, sem dramatização artificial.
Lucas Pompeu | “O Balão e o Cacto”
Brasil | Sertanejo - Romântico
Sertanejo romântico bem executado, com refrão que cumpre o papel de segurar o público. A música aposta no conforto do gênero, com harmonias familiares, e por isso funciona de cara para quem já habita esse universo.
O que torna o play interessante é justamente observar como uma boa interpretação pode dar vida nova a códigos conhecidos. Para fãs da escola oitentista do sertanejo, é uma faixa que entra fácil na rotação do dia a dia.
Audrey Loveland | “The Ride Called Life”
Estados Unidos | Folk Pop
Aqui, a força está na delicadeza. Violão de aço e piano entram com a educação de quem sabe que poesia pede espaço, e a produção mantém tudo íntimo, quase como uma roda em volta de uma fogueira.
O que mais prende é a inteligência do desenvolvimento do arranjo; pequenos cortes e retomadas que renovam a atenção sem levantar a voz. A sensação estéreo, com instrumentos “abrindo” o cenário e a voz bem centrada, cria um tipo de aconchego, como final de conto bem escrito.
Conclusão
Se alguém ainda aposta que a IA vai “acabar com os compositores”, esta lista aponta o contrário. A inteligência artificial aumenta o volume de lançamentos, mas também deixa mais visível quem tem direção artística, conceito e critério de produção. Ferramenta não resolve intenção.
E o underground é o lugar onde isso aparece mais rápido, porque há menos camadas de gente e de interesses precisando aprovar uma tomada de decisão, o risco da proposta entra mais cedo e a estética não precisa passar por filtro corporativo.
Agora, a parte que interessa é simples e prática. Dá play. Assista aos clipes, salve as faixas, siga esses artistas e coloque um ou dois deles no seu radar por algumas semanas. Descoberta não é só ouvir uma vez, é permitir que uma canção te acompanhe tempo suficiente para virar familiar.
E, se alguma dessas músicas te fisgou, você já sabe: no underground a arte acontece sem precisar pedir permissão.
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