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Kill for Nothing entrega padrão internacional em ‘Ambiguilty’ e eleva a régua do nu metal brasileiro

Fotografia de alto nível, minimalismo inteligente e performance que amplia a narrativa de um quarteto que constrói sua cena com as próprias mãos

Musikorama|Rodrigo d’SalesOpens in new window

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A primeira coisa que “Ambiguilty” faz é nos ganhar com os olhos. A fotografia é o centro de gravidade do videoclipe, com um cuidado raro no underground. Não é “bonito para um artista independente”. É bonito e ponto. Há escolha de luz, textura e composição com acabamento de produção grande, e isso muda como a música chega ao público. O clipe não tenta compensar uma limitação técnica de cena independente. Ele assume o minimalismo estético e, justamente por isso, cada detalhe precisa funcionar. E funcionou.

O set é um fundo infinito branco que vira instrumento dramático quando a direção joga um banho de luz laranja e muda o clima do asséptico para o incendiário. A banda inteira veste preto, mas a identidade individual dos integrantes é clara e legível no corpo e na silhueta.


O baixista aparece num recorte mais casual, bermuda e camiseta, enquanto o baterista puxa para um visual mais alinhado, com camisa. A guitarrista entra com calça larga e um harness de couro, peça que tensiona o visual e conversa com a agressividade do som. No centro, Bob segura a atenção com uma presença que não depende de cenografia: tranças longas e figurino de inspiração oriental, com drapeado e gola alta, criando uma imagem forte justamente contra o “vazio” do cenário. Essa combinação vira assinatura visual imediata, construída com intenção.

Quando o breakdown chega, a edição alterna cortes rápidos com desacelerações pontuais e variação entre câmera fixa e movimento. O uso de IA nas imagens de rostos fragmentados é um bom uso da ferramenta que conversa diretamente com o tema central do álbum “Mirage”. Essas imagens traduzem em figura a ideia de miragem e identidade fragmentada que o álbum trabalha. O único tropeço, se assim posso chamar, é um efeito de desgaste de imagem em alguns takes, um recurso já saturado que não soma ao filme, mas também não derruba o resultado.


A música vem com peso e personalidade dentro do nu metal, com flertes claros de referências, mas que não soam como “cópia”. Dá para sentir influência da sujeira densa que marcou o som do Korn, e também um tipo de brutalidade brasileira que lembra a escola do Sepultura. Só que o mérito aqui está na mistura de escolas musicais sem transformar em colcha de retalhos.

Ambiguilty” não depende de um riff “chamativo” para parecer pesada. A faixa é equilibrada e completa, sabendo trabalhar tensão, timbre e intenção com personalidade, e o videoclipe acompanha essa lógica ao preferir atmosfera e direção de arte a uma narrativa mais literal.


O que chama atenção é a ambiguidade como linguagem. O vídeo parece simples, mas não é raso. A montagem e a estética sustentam uma camada de profundidade que vem tanto do conceito quanto da execução. A inserção de elementos de inteligência artificial, por exemplo, não aparece como truque para “parecer moderno”, e sim como parte de um pacote que busca complexidade dentro de uma moldura acessível. Isso é difícil de fazer. O risco de usar IA em clipes é soar datado em meses, mas aqui ela entra como ferramenta por escolha, não como muleta, o que tende a envelhecer melhor.

A banda também crava uma assinatura que pouca gente usa com coragem no metal: a mistura de português e inglês. Majoritariamente em inglês, com entradas em português que funcionam como marca e tempero. É uma escolha que pode afastar parte do público se o artista não tiver clareza de intenção, mas, quando bem sustentada, vira identidade e até amplia alcance. Na música pesada, essa estratégia é arriscada, mas pode funcionar em casos pontuais, por criar contraste e memorabilidade. No caso da Kill for Nothing, ela soma à personalidade do projeto. Mais um ponto para a banda.


“Ambiguilty” sinaliza que a Kill for Nothing está pronta para o próximo nível. Felipe Hervoso

A grande virada do clipe e da faixa está no breakdown. Ele não soa como “momento típico” do gênero. Aqui, ele aumenta a imersão e puxa o ouvinte para dentro da música com um tipo de explosão que, paradoxalmente, nasce da pausa. Essa contradição é onde o vídeo fica mais forte: clímax sem precisar acelerar, pesado sem depender de grito, intenso mesmo quando o canto se aproxima da ‘voz falada’. Essa escolha vocal dá um peso diferente, mais ameaçador e mais íntimo, e o clipe sabe deixar esse espaço respirar.

Há um componente que torna “Ambiguilty” mais relevante do que o lançamento em si: a postura da Kill for Nothing como banda que fomenta toda uma cena. Quarteto que constrói comunidade, organiza os próprios shows e movimenta o entorno em vez de apenas disputar atenção no feed. Isso aparece no resultado final. Quando um artista independente entrega um vídeo com esse nível de direção, fotografia e coerência estética, ele não está só lançando um clipe. Está subindo a régua do que o underground aceita como “o suficiente”.

Por fim, “Ambiguilty” vira cartão de visita do circuito alternativo. Não apenas da Kill for Nothing, mas do metal brasileiro independente que decidiu jogar sério. É material que não fica devendo em direção e acabamento para muita produção de grande orçamento. Dá para mostrar “Ambiguilty” fora do país sem precisar contextualizar demais, sem a frase “mas eles são independentes”. Aqui, a qualidade fala primeiro. E fala alto.

FICHA TÉCNICA

Filme: Felipe Hervoso e Alessandro “Bob”

Edição: Felipe Hervoso

Produção: Alessandro “Bob”

Mix e master: Gabriel do Vale (Gabriel do Vale Estúdio)

Banda: Mandy Delphino (guitarra), Guhz Soares (baixo), Yuri Alexander (bateria) e “Bob” (vocal)

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