O que ninguém esperava: Kaira Zuex estreia com “Six Soul Hits” e vira a chave de Nenê Alltro
No novo alter ego de Nenê Alltro, o pós-punk encontra rap oitentista, cúmbia punk e um vocabulário de símbolos que transforma dança em linguagem de liberdade.

Se você ainda enxerga a Nenê Alltro apenas pelo retrovisor do hardcore, tem uma boa chance de deixar passar a virada mais surpreendente da carreira dela. “Six Soul Hits”, estreia de Kaira Zuex, é uma troca de pele completa, dessas que reorganizam referências, linguagem e postura. Quando ele termina, você entende por que este alter ego não veio somente “variar o repertório”. Veio abrir um universo.
Kaira Zuex é o novo pseudônimo, o novo alter ego, da cantora, escritora e compositora Nenê Alltro, conhecida por liderar a banda Dance of Days. A semente desse caminho começou no período de confinamento da pandemia, quando ela passou a estudar produção musical em sua casa, ampliando as possibilidades criativas para além do punk e do hardcore que marcaram sua trajetória.
O resultado agora aparece como um projeto lançado em partes, e o primeiro recorte já mostra ambição do álbum. Em seis músicas, Kaira Zuex passeia pelo pós-punk gótico, encosta no rap oitentista e mergulha numa cúmbia punk que a artista batizou como anarcúmbia, sempre costurando símbolos, idiomas e a ideia fixa do corpo como território de liberdade.
A narrativa por trás disso importa, porque ajuda a entender o som. Essa “nova dimensão” nasce depois de uma virada de vida: a aceitação plena da identidade feminina e a troca de São Paulo por Cananéia, uma ilha em reserva ambiental na Mata Atlântica. Com a Dance of Days passando a aparecer em shows pontuais e ritualísticos, a criação virou um laboratório diário. Esse cenário explica por que “Six Soul Hits” soa menos como ruptura e mais como expansão. É a mesma pulsão inconformada, só que com outras ferramentas.
O EP opera em dois planos ao mesmo tempo: funciona como música para pista gótica e como rito de transformação. Há refrães que se repetem como mantras, batidas que puxam para o corpo, e letras que carregam lua, mar, noite e metamorfose como símbolos de sobrevivência. A alternância de idiomas, entre inglês e espanhol, com lampejos de outras línguas como parte do figurino, não é mera cosmética. É máscara, é personagem, é mudança de temperatura emocional. A identidade, aqui, não chega pronta. Ela se constrói no processo.
Lady Werewolf
A abertura chega mergulhada em pós-punk gótico, com aquela elegância soturna que remete a The Cure e Echo & The Bunnymen. A canção tem clima de club clássico: guitarra com aura, groove escuro e uma sensação de noite permanente, feita para girar em pista alternativa sem precisar de firula.
Na letra, a personagem nasce forte e simbólica. Lobisomem vira metáfora de metamorfose e afirmação, com imagens de cerco, labirinto e leis impostas por moral alheia.
Heart’s Gong (Back Tomorrow)
Aqui o EP muda de temperatura. A faixa se afasta do gótico mais previsível e encosta numa estética oitentista e noventista, com brilho pop alternativo, batida de hip hop old school e um tempero disco no fundo. A referência mais próxima seria o EMF, aquela energia da música com humor, nervo e um impulso de movimento imediato.
A letra abre com clima de convocação e segue como crônica de vida sitiada. Há personagens, cenas e uma visão do cotidiano como máquina de esmagar gente, com bancos, polícia e moralismo aparecendo como parte do mesmo moedor. A melhor imagem social do EP, na minha opinião, está aqui — “A meat grinder where banks and cops and preachers eat us all.” As três máquinas clássicas de controle: dinheiro, polícia e moral.
Caboclo Loco
“Caboclo Loco” troca de idioma e chama a cúmbia para o centro. O balanço é direto, com espírito punk na atitude, no jeito de cantar e na urgência. O resultado lembra bloco de rua em noite quente, com sujeira e brilho ao mesmo tempo, e com uma sensação ritualística que combina com a história de viagens, espiritualidade e referências de raiz vividas pela artista.
A letra coloca o corpo no centro do embate. A cabeça aparece como corrente, a polícia como força que tenta enquadrar o movimento, e a dança como território de disputa. A frase “não há revolução se não posso dançar” atravessa o EP inteiro como uma assinatura ética. Esse é o cerne da canção: o Estado não proíbe “ideias”, ele tenta proibir "movimento".
Ikigai
“Ikigai” devolve a obra ao subterrâneo dark, com densidade dançante e referências que passam por Joy Division, The Cure e Smiths. A faixa carrega aquele clima de luz fria e melodia que não pede sol. Pulsa, pesa e, ainda assim, convida ao corpo, do jeito que uma noite gótica gosta.
Na letra, o tema do renascimento aparece com urgência. A música abre com fatalidade serena: “It seems like all my days have led me here…” e crava seu ponto de virada “the wind just whispers: now or never.” A estrutura do texto parece uma caminhada que começa introspectiva, depois vira declaração cósmica. Combina com a sonoridade. Uma introspecção que não fica parada, mas pensamento que dança.
Techné Tou Biou
A quinta faixa abre outra porta. O hip hop ganha mais densidade, com beat firme e voz em registro mais falado, enquanto texturas eletrônicas e elementos folclóricos entram como camadas. A alternância de idiomas aparece de novo, costurando espanhol, inglês e lampejos de francês, a música se movimenta como se mudasse de roupa dentro do próprio refrão.
O título já entrega a proposta. “Techné” (técnica/ofício) + “Tou Biou” (da vida): é uma música sobre como viver. A letra age como um manual afetivo, sem soar didática. Começa na esfera íntima, lidando com medo, autocuidado e resistência cotidiana. Aos poucos, cresce um impulso coletivo, com imagens de noite longa e de celebração como gesto de enfrentamento. O refrão em inglês empurra para um lado mais melódico e dançante, e a canção segura essa tensão entre sombra e festa, que é uma das marcas mais fortes do EP.
Soulshine
“Soulshine” é a faixa mais visionária e fecha no terreno mais experimental. A estrutura aposta em loop, com o baixo guiando e a produção brincando com industrial, hip hop e a assinatura gótica que atravessa todo o trabalho. A voz vem grave, carregada, e o efeito geral é de transe, como se a faixa mantivesse o ouvinte preso numa órbita.
A letra faz algo ousado, troca “narrativa” por fluxo de consciência poético. Gira em torno da busca pela “voz da voz”.
Searching for the one who owns the voice inside my head / The voice behind my deepest thoughts
Isso é quase místico, mas aterrissa porque é uma experiência humana. Quem nunca sentiu que existe uma versão mais verdadeira de si por trás do ruído?
As imagens de despertar e de nova era aparecem como desfecho simbólico, e um toque de humor gótico surge no meio para quebrar qualquer solenidade excessiva. O encerramento deixa a sensação de travessia concluída. Seis músicas como seis mudanças de pele, cada uma abrindo um corredor diferente do mesmo labirinto.

O projeto gráfico completa o impacto do EP com uma capa de aparência quase fotojornalística, ao mesmo tempo crua e simbólica: Kaira Zuex surge no mar como quem emerge de um batismo particular, carregando no corpo a soma das fases que atravessaram a vida de Nenê Alltro, da descrença ao misticismo, da descoberta filosófica e sexual à reinvenção artística. Os galhos e raízes ao redor não apontam para baixo, apontam para cima, como se a imagem sugerisse novas raízes lançadas no mundo, uma reconstrução em andamento.
A tipografia reforça essa leitura: há um traço punk, uma sombra do símbolo da anarquia, e também ecos das fontes que a própria Nenê criou ao longo da história do Dance of Days, fazendo a capa parecer um ponto de encontro entre passado e presente. Até o título participa do jogo, quando “Six Soul Hits” espelha o “Six First Hits” (primeiro EP do Dance of Days, lançado em 1997) e transforma a ideia de estreia em autobiografia codificada, simples na forma, mas cheia de alma, identidade, memória e intenção.
No fim, “Six Soul Hits” deixa a impressão rara de um EP que conta uma biografia sem virar confissão e faz política sem virar panfleto. Entre a noite gótica, o moedor de carne social, o cerco, o “now or never” e a frase que insiste que não há revolução sem dança, Kaira Zuex organiza tudo num gesto de presença, o corpo ocupando espaço quando tentam reduzir a vida a regra, culpa e silêncio.
Fica uma pergunta simples e incômoda, que o disco não responde com argumento, mas com batida: quem controla os passos dos outros aguenta quando a liberdade resolve se mover?
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