Odair Braz Jr Aos 80 anos, Roberto Carlos é a trilha sonora do Brasil

Aos 80 anos, Roberto Carlos é a trilha sonora do Brasil

Carreira do Rei da Música Popular brasileira só é comparável às trajetórias de Elvis Presley e dos Beatles

  • Odair Braz Jr | Do R7

Roberto em show em São Paulo em 1983

Roberto em show em São Paulo em 1983

Arquivo/Estadão Conteúdo - 25.07.83

Não existem no mundo muitos artistas que chegam aos 80 anos de vida ainda no topo. Roberto Carlos, que faz aniversário nesta segunda (19), é um desses casos raríssimos e sua trajetória é algo tão grandioso e incrível que só é possível mesmo comparar com Elvis e Beatles. Porque aqui no Brasil, o Rei é absolutamente único.

É bem verdade que a carreira do cantor não é imaculada e isenta de polêmicas, esquisitices e fases não muito felizes. Roberto não se deu bem em todos os seus discos, escorregou várias aqui, correu para a cafonice ali, apostou algumas vezes em sentimentalismo barato e até censurou livro sobre sua vida. Não dá para esconder e nem esquecer disso tudo. Acontece que na conta final, no noves fora, o saldo do Rei é para lá de positivo.

Roberto começou sua vida profissional na música, oficialmente, em 1961, quando lançou o disco Louco Por Você. O álbum, único que não tem sua imagem na capa, era de Bossa Nova, com o então jovem cantor totalmente inspirado no estilo de João Gilberto. Não fez sucesso e não agradou a ninguém. Nem ao próprio Roberto, que não permitiu nunca mais que o disco fosse relançado. Quem tem o vinil da época – um dos mais procurados por colecionadores – tem, que não tem precisa buscar gravações piratas por aí ou ouvi-las internet.

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Depois disso, com o rock ficando cada vez mais popular no mundo, Roberto mudou seu estilo e, em 1963, lançou o álbum Splish Splash e conseguiu finalmente ser notado. Já com Erasmo Carlos como parceiro, as canções do cantor eram versões para o português de hits roqueiros dos Estados Unidos e também composições próprias. Rapidamente, Roberto foi se tornando o rei da juventude e virou o grande destaque da Jovem Guarda, movimento musical criado meio que artificialmente para vender discos e dar audiência na TV. Deu muito certo e revelou muita gente boa para a música brasileira.

Show em Brasília em 2001

Show em Brasília em 2001

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo - 14.09.2001

Já aí, nos anos 1960, Roberto passou a reinar absoluto. Com sucessos que atingiam todo o país e todas as classes sociais, ele se transformou numa espécie de namoradinho do Brasil. Fazia sucesso na música, na TV, em fotos-novela de revistas e até no cinema, onde atuou em três filmes cheios de aventura e velocidade inspirados, obviamente, em Elvis.

Roberto reproduzia no país, guardadas as devidas proporções, a mesma trajetória de Beatles e Elvis Presley no exterior. Nos anos 70 e 80, assim como o Rei do Rock, o Rei da Música Popular Brasileira também mutou. Deixou as raízes do rock adolescente de lado, amadureceu e adotou o romantismo como bandeira. Ao lado de Erasmo na composição, Roberto lançou clássicos insuperáveis e que hoje são patrimônios musicais do país.
Sim, o nosso Rei, algumas várias vezes, se enveredou por caminhos tortuosos. Escolheu uma fórmula fácil ao longo das décadas ao decidir homenagear tipos sociais como caminhoneiros, baixinhas, gordinhas, quem usa óculos, taxistas, entre outros. Geralmente de gosto duvidoso, essas canções ajudaram a cravar ainda mais Roberto na alma dos brasileiros. Tem gente que odeia essas músicas, mas não dá para negar que cumpriram sua função.

ÍCONE
Mas o feito de Roberto, se você parar para pensar, é até maior que o de Elvis e Beatles. A grande diferença é que ele está preso à língua portuguesa, apesar de ter lançado discos em inglês e espanhol. Mas veja só: o Rei do Rock teve 23 anos como profissional da música. A banda inglesa durou apenas sete anos, por incrível que possa parecer. Esses períodos de atividade desses dois artistas foram suficientes para colocá-los para sempre na cultura popular (e pop) do século 21. Roberto, por sua vez, está ativo profissionalmente há 60 anos. Durante décadas foi o maior vendedor de discos do Brasil, quase sempre acima de um milhão de cópias vendidas. Dá para contar nos dedos de uma das mãos outros artistas que tenham feito algo parecido com isso.

Roberto gravando em estúdio da CBS em 1969

Roberto gravando em estúdio da CBS em 1969

Arquivo/Estadão Conteúdo

É verdade que nem tudo o que ele fez é digno de nota, enquanto que a discografia dos Beatles, por exemplo, é praticamente perfeita de ponta a ponta – e isso não é uma verdade para Elvis. Roberto tem música ruim, sim. Tem disco ruim, tem temas de gosto duvidoso e tem até acusações de plágio. Roberto fez tanto sucesso durante tanto tempo que chegou naquele ponto em que ninguém aguentava mais vê-lo, em que virou “coisa de velho” e símbolo máximo do mainstream brasileiro. Ainda assim, é impossível não notar que ele soube se manter influente culturalmente e relevante para as novas gerações. Ele não produz mais um álbum por ano, como fez durante muito tempo e seu maior sucesso recente é Esse Cara Sou Eu, de 2012. Mas isso importa muito pouco hoje em dia quando se olha para a obra completa do cantor.

Roberto é um daqueles casos em que não tem como ser ignorado goste-se dele ou não. Não tem como fazer uma análise da música e da cultura brasileira modernas sem passar por seu trabalho. Suas canções são parte da trilha sonora de um país inteiro. Fazem parte da vida dos brasileiros há décadas e embora ele não lance nada de muito importante já há anos, Roberto sempre será um ícone da cultura de um povo.

E, para ser sincero, ele está sozinho nessa categoria.

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