Odair Braz Jr Marcelo Nova e os roqueiros brasileiros que passam vergonha

Marcelo Nova e os roqueiros brasileiros que passam vergonha

Músico dá uma de tiozão do zap com declarações negacionistas sobre pandemia e isolamento social

  • Odair Braz Jr | Do R7

O cantor Marcelo Nova

O cantor Marcelo Nova

Reprodução/Instagram

No mundo inteiro vários roqueiros das antigas só fazem uma coisa ultimamente: dar bola fora e passar vergonha. Eric Clapton, um dos maiores mestres da guitarra, é um deles. No Brasil, aparece um novo todo dia e o novo membro dessa nova superbanda da decadência é Marcelo Nova, vocalista do Camisa de Vênus.

Nesta terça, 13 de junho, quando se comemora o Dia Mundial do Rock, Marcelo deu uma entrevista a um canal de TV da Bahia para falar um pouco sobre a data. Também perguntaram para ele como está lidando com a pandemia, já que não é possível fazer shows e aí começou. O cantor soltou um discurso negacionista dizendo que “Para um sujeito como eu, prestes a fazer 70 anos de idade e com 40 anos de carreira, isso não serve para mim. Eu fiz minhas regras, eu faço meu caminho, eu não deixo que governadores nem prefeitos, nem presidentes, ninguém manda em Marcelão”. E mandou mais: "Isolamento parcial, porque eu não me submeto a esses ditames do 'fica em casa, fica em casa, não saia, não se aproxime” e “Eu beijo quem eu quero, eu abraço quem eu quero. E eu vou morrer, se não morrer de covid, vou morrer de câncer, atropelado, assassinado, de zika, chikungunya, essas coisas”.

Todo mundo achou engraçado ali na hora, porque Marcelo é desbocado mesmo e já falou outras coisas polêmicas no passado. Bem, mas o fato é que não importa se ele está para fazer 70 anos e nem se não aceita ninguém mandando nele. Isso não é ser rebelde e nem algo que ajude a manter seu estatus de “roqueirão radical”. É simplesmente ser um tiozão do zap e se transformar no Eric Clapton brasileiro, o que, atualmente não dá para dize que é um elogio. O próprio Clapton disse que após suas declarações antivacina – falou que sentiu dores terríveis – seu telefone parou de tocar e que não é convidado para mais nada. E é triste ouvir esse tipo de declaração por parte do músico, porque ele é um sujeito bacana, boa conversa, bem informado. Justamente por todas estas qualidades é que é chato descobrir esse seu lado negacionista.

É óbvio que as pessoas estão esgotadas em relação à pandemia, muita gente (como músicos) não podem fazer shows, usar máscara não é o melhor dos mundos etc e tal. Mas estamos vivendo um momento de exceção, então não tem essa de "ninguém manda em mim". Que tal pensar um pouco nos outros? E isso não é ser politicamente correto ou deixar sua rebeldia de lado. É simplesmente isso: pensar no outro.

Marcelo Nova, de tantos bons serviços prestados ao rock brasileiro com o Camisa de Vênus, em carreira solo e também, no fim dos anos 80, resgatando Raul Seixas pouco antes de sua morte, se junta a uma turma crescente de roqueiros brasileiros. O presidente deste clube é, obviamente, Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, que se tornou uma pessoa tóxica em nível hard. No twitter ele agride mulheres, xinga e persegue pessoas de quem discorda, mostra agressividade por todos os poros e por aí afora. É daqueles que a gente tem até que esquecer da obra interessante – e curta – que lançou nos anos 1980, porque não dá nem para escutar mais suas músicas quando lembramos o que ele se tornou. Embora, sim, é verdade que é preciso saber separar as pessoas de suas obras.

E a lista só cresce, com Digão, dos Raimundos, que virou o símbolo do “roqueiro reaça”, embora a disputa com Roger seja grande. Claro que não dá para esquecer o pessoal da banda Velhas Virgens, cujos temas são sempre mulher e cerveja, não necessariamente nessa ordem.

Lobão foi um integrante desta banda dos roqueiros decadentes também, mas ultimamente vem tentando se distanciar, embora pareça um pouco tarde para ser perdoado pelo mundo do rock.

Infelizmente parece que muitos roqueiros, brasileiros ou estrangeiros, não souberam envelhecer bem. A lista de artistas que só decepcionam é gigante, com artistas que, muitas vezes, desdizendo suas ideias e sua obra. Marcelo Nova, que tem um trabalho interessante, é inteligente e articulado, com esse tipo de comentário, espalha desinformação e se nivela por baixo. Triste. Ele sempre foi bem mais do que isso.

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