Odair Braz Jr Mike Deodato encara Marvel e DC para poder vender sua arte em NFT

Mike Deodato encara Marvel e DC para poder vender sua arte em NFT

Desenhista brasileiro briga para que artistas de quadrinhos tenham direito de comercializar sua obra em formato digital

Deodato em sua casa falando sobre NFTs

Deodato em sua casa falando sobre NFTs

Reprodução/Zoom

Alguns importantes quadrinistas já entraram em brigas históricas contra Marvel e DC por direitos autorais no passado e agora quem está fazendo o mesmo é o brasileiro Mike Deodato, um dos maiores desenhistas de quadrinhos da atualidade. O artista quer ter o direito de vender seus trabalhos em NFTs, o que as duas grandes editoras tentam impedir e não querem nem sentar para conversar.

Se você já sabe o que é uma NFT, pode até pular este parágrafo e ir para o próximo. A explicação: NFT ou Non-Fungible Token (token não-substituível) é um certificado digital de que a arte (música, ilustração, pintura, capa de disco, fotos, vídeo, meme) naquele arquivo digital é autêntico, original e que pertence a alguém. Fãs e colecionadores pagam um dinheirão por isso, afinal é como se fosse a compra de um quadro muito valioso e único.

A partir deste ano, vários desenhistas famosos de quadrinhos começaram a vender suas artes originais em NFTs. Os artistas de HQs já fazem esse tipo de negócio há décadas, comercializando as páginas em papel que desenham para as editoras, como Marvel, DC entre outras. E quanto mais famoso o desenhista, mais se paga pelas obras.

Assim, nada mais natural do que realizar o mesmo, agora de maneira digital. Até porque a arte das revistas em quadrinhos são praticamente todas feitas no computador. A venda dos trabalhos em papel sempre foram uma ótima maneira para os desenhistas ganharem dinheiro, uma vez que os fãs e colecionadores pagam altos valores dependendo do artista e do personagem desenhado. As duas principais editoras do mercado americano nunca foram contra a comercialização das artes das revistas em papel. Até apoiavam, na verdade. Mas essa relação mudou agora com a chegada das NFTs. Claro que tanto Marvel quanto DC estão de olho no bom dinheiro que estes arquivos têm alcançado.

Arte de Deodato que foi vendida em NFT recentemente

Arte de Deodato que foi vendida em NFT recentemente

Reprodução/Instagram

E é aí que entra Mike Deodato. O paraibano que já trabalhou tanto para Marvel quanto para a DC — e outras editoras americanas também — com heróis como Homem-Aranha, Elektra, Vingadores, Mulher-Maravilha, Glory etc. Recentemente, Deodato deixou a Marvel, após vinte anos, para lançar quadrinhos próprios, autorais e vai muito bem, obrigado.

A briga de Deodato é para ter o direito de vender sua produção, agora em versão digital: “O NFT é o mesmo que o original, mas as editoras bloquearam [as vendas]. Com as de papel está tudo bem para elas, como já acontece há anos. O copyright não é envolvido no original de papel. O comprador só pode revender a obra ou ficar com ela. Não pode fazer cópia, imprimir camiseta, nada. É a mesma coisa com o NFT, que não é para uso comercial. Está no contrato que o copyright não está envolvido, então não tem lógica a Marvel e a DC impedirem a gente [de vender]”.

Para Érico Assis, tradutor de quadrinhos e jornalista que acompanha de perto este mercado, a questão das NFTs ligadas aos personagens das duas editoras é algo ainda bem complicado. “O receio das editoras é quanto à configuração jurídica das NFTs. A lei não é clara e ainda não existe jurisprudência”. Assis, assim como Deodato, diz que uma pessoa que compra um arquivo original do Homem-Aranha “não se tornará a dona dos direitos do herói”. Levando em conta esta questão dos direitos dos personagens, é mesmo difícil de entender o motivo de as empresas impedirem a venda dos arquivos pelos artistas. A não ser pela questão do dinheiro, claro. 

Vários artistas importantes e famosos dos quadrinhos começaram a vender suas obras em NFT este ano. Esse mercado surgiu e gerou uma bolha rapidamente, o que levou os preços lá para cima. Só para você ter uma ideia, o desenhista argentino José Delbo, que desenhou a Mulher-Maravilha nos anos 70 e 80, conseguiu vender, em NFT, em abril, arquivos da super-heroína da DC Comics que lhe renderam algo em torno de US$ 2 millhões (havia algumas artes de um outro artista no pacote também). O argentino conseguiu, ainda, mais US$ 1 milhão ao vender um NFT com um personagem que ele mesmo criou. Em fevereiro, o artista americano Andy Kubert recebeu US$ 25 mil por uma ilustração sua do Homem-Aranha.

Mas a festa durou pouco tempo. Deodato conta que estava vendendo suas NFTs através de uma empresa chamada Rarible, mas não pôde continuar. “A Marvel entrou em contato com a plataforma e ameaçou usar uma lei de direito autoral para fechar o site. Mandaram tirar as obras”. Deodato foi perseguido pela DC Comics. “Coloquei minhas obras [desta editora] na Makers Place. A DC entrou em contato também, mandando tirar. Aí a gente fica numa situação complicada. Então, fiz uma carta aberta reclamando disso e pedindo a ajuda de Neal Adams [famoso desenhista que lutou pelos direitos autorais dos desenhistas nos anos 70]. A gente meio que não tem alternativa”.

Arte de Berserker Unbound, uma das criações de Deodato

Arte de Berserker Unbound, uma das criações de Deodato

Divulgação

Tanto Marvel quanto DC passaram a impedir a venda dos arquivos por qualquer artista e não vinham dando nenhuma explicação do motivo. A desculpa oficial é que estavam estudando o que fazer com o material em NFT, porque havia uma certa insegurança jurídica. Assis explica: “o que uma pessoa pode fazer com uma NFT do Aranha, em termos de reprodução e lucro, ainda não está claro na lei. Pode ser mais do que a pessoa pode fazer com uma folha de papel em que o Deodato desenhou o Aranha. Eu posso comprar a NFT, me dizer dono daquela arte e usá-la numa campanha publicitária sem pagar pra Marvel? Esse que é o imbróglio. Enquanto não tiver uma lei que delimite que direitos tem quem compra a NFT, as editoras vão proibir. E vai continuar complicado comparar com os originais em papel”.

Mas parece que a Marvel já conseguiu uma maneira de resguardar seus direitos sobre os NFTs e quer lucrar com a venda dos arquivos. Daí a atitude de proibir que os artistas vendam seus originais. A posição da empresa de entrar nesse mercado milionário ficou clara no último dia 24 de junho, quando soltou um comunicado dizendo que começará a comercializar artes de seus personagens em NFT. A editora fará a venda oficial dos arquivos neste formato, de maneira exclusiva, e, assim, não quer que os artistas façam o mesmo. Em seu anúncio, a Marvel não menciona se desenhistas receberão alguma porcentagem quando uma arte digital for comprada.

O curioso desse movimento da Marvel é que ela entra com os dois pés na venda de NFTs quando há uma queda no preço dos arquivos. Mas os valores mais baixos não enfraquecem a luta de Deodato: “[a venda das NFTs] teve um boom entre abril e março, que deu para ganhar muito dinheiro. Depois caiu e está nivelada por baixo, mas a tendência é crescer, pelo que vejo. Só que para mim não importa se é para ganhar um centavo, eu tenho o direito de fazer o que eu quiser com a minha arte. É um negócio mesquinho, porque na pandemia a DC demitiu um monte de gente. Não faz sentido ficar massacrando um autor dessa maneira”.

A luta do brasileiro é, no fim das contas, por direitos autorais, é por poder receber algo a mais pelo seu trabalho, como sempre aconteceu através da comercialização das artes em papel. O desenhista está nesta disputa com Marvel e a DC mesmo sabendo que a luta é desigual. “Eu não tenho dinheiro e nem poder para brigar com a Marvel [na Justiça]. Eles têm as melhores empresas de advocacia do mundo. É [propriedade] da Disney. A única arma que tenho é a opinião pública e uso isso para ver se eles tomam vergonha. Mas não tá funcionando, não”.

VIRANDO DONO
Para o desenhista, este tipo de atitude das duas grandes editoras em relação ao NFT é o mesmo tratamento que elas já dispensam aos artistas em outras áreas. “Elas ganham milhões de dólares com filmes e a gente não recebe nada por isso”. Deodato se refere aqui às histórias e até personagens que desenhistas e roteiristas criam para Marvel e DC, que aparecem em longas-metragens, geram uma fortuna e isso não rende nada para quem os cria. “Os contratos dizem que a gente não tem o direito de ganhar nada [pela criação de personagens usados nas telas], mas é uma questão de justiça. E a tendência é a Marvel e a DC irem perdendo talentos. Eu mesmo saí da Marvel em 2019 e o principal motivo foi criativo. Eu queria fazer personagens autorais”.

Bad Mother, outro trabalho autoral do desenhista

Bad Mother, outro trabalho autoral do desenhista

Divulgação

Ao criar seus próprios personagens, Deodato — e outros quadrinistas — podem eventualmente vendê-los para estúdios de cinema, serviços de streaming, TVs, empresas de videogame e ganhar um bom dinheiro com isso. E é o que o desenhista já vem fazendo com séries em HQs recentes como Berserker Unbound [já publicada no Brasil pela Editora Mino] e Bad Mother [da AWA Studios, inédita por aqui]. Pode ser que vejamos em breve as obras próprias do brasileiro nas telas, já que as negociações estão rolando. “Tá tudo em andamento para as obras irem pra cinema e TV. A AWA tem muita conexão em Hollywood. Tem projetos em andamento e não podemos divulgar, porque são possibilidades. Esse ano ou no próximo a gente deve anunciar algo”.

Aliás, a AWA Studios apoia a venda de NFTs por seus artistas. “A AWA preza pelo criador, oferecendo os direitos que a gente tem. Falei com eles sobre lançar [os arquivos] e divulgaram uma política pública de apoio. Lancei uma coleção com eles agora, mostrando que é possível. Eles só pedem que a venda seja feita apenas uma única vez”.

Sobre todo esse rolo em cima do direito de os artistas venderem seus NFTs, o jornalista Érico Assis é claro: “Acho que os desenhistas deviam ter o direito de vender NFTs com personagens de marca registrada, sim. Assim que se resolver essa questão jurídica e a gente puder fazer a comparação [com o material vendido em papel], vai ser uma infração à propriedade intelectual tão minúscula quanto o cara do Artist’s Alley vendendo prints ou bonequinhos de biscuí do Aranha. Limitar esse tipo de coisa é ridículo para uma marca e vai ser ridículo para NFTs também”.

E Deodato continuará na sua luta solitária, sem muito medo de represálias: “Eu tô velho, cara velho perde o senso. Estou numa posição muito boa no mercado. Onde eu quiser trabalhar, o povo vai querer trabalhar comigo. Se a AWA fechar hoje posso ir pra Image e vai ter público. Tenho uma posição privilegiada, posso irritar eles [Marvel e DC]”, diz rindo. E complementa: “A Marvel e a DC podem não me contratar mais, mas estou fazendo o que é certo. Estou sereno. Quando estou certo, não penso muito”.

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