Odair Braz Jr O subestimado Bringing Down the Horse, do Wallflowers, faz 25 anos

O subestimado Bringing Down the Horse, do Wallflowers, faz 25 anos

A festa na família real do rock continua com a chegada de Bob Dylan aos 80 anos

  • Odair Braz Jr | Do R7

Jakob Dylan em vídeo recente com música do novo álbum do Wallflowers

Jakob Dylan em vídeo recente com música do novo álbum do Wallflowers

Reprodução

Bob Dylan é aquele mito da música americana que você já sabe. Até Nobel de Literatura ele já ganhou por sua obra musical e é reverenciado com razão sempre que lança um disco ou uma nova canção. Jakob Dylan, um dos quatro filhos do primeiro casamento de Bob, também é uma estrela da música americana e está na ativa desde o início dos anos 90 com sua banda, The Wallflowers, ou mesmo em carreira solo. O fato é que tanto pai quanto filho têm muito o que comemorar nesses dias

Bob Dylan completa 80 anos no dia 24 de maio próximo e segue sendo a figura enigmática e celebrada que sempre foi. Em dezembro, vendeu seu catálogo musical – com mais de 600 músicas – para a gravadora Universal Music por algo em torno de US$ 300 milhões, cerca de R$ 1,6 bilhão, o que mostra a importância e relevância de sua obra. Mais do que isso, foi anunciado há algumas semanas que em 10 de maio de 2022 será inaugurado o Bob Dylan Center, museu na cidade de Tulsa, Oklahoma (EUA), dedicado à trajetória do cantor e que terá mais de 100 mil itens como manuscritos, instrumentos musicais, fotos raras, vídeos e canções inéditos, entre outros objetos. É aquele tipo de coisa que qualquer fã ou gente minimamente interessada na história da música moderna vai querer visitar.

Bob Dylan vai completar 80 anos

Bob Dylan vai completar 80 anos

Reuters/Rob Galbraith

OUÇA SEM PRECONCEITO
Jakob Dylan, filho mais famoso de Bob, também tem muita coisa para comemorar. Tem um disco novo do Wallflowers saindo no início de julho e é o primeiro álbum da banda em quase 10 anos. Se chama Exit Wounds e já tem duas músicas lançadas — “Roots and Wings” e “Maybe Your Heart Is no in It no More” — em todas as plataformas. É verdade que resta apenas Jakob da formação original da banda, mas o estilo musical do Wallflowers foi completamente mantido nestas duas canções do novo trabalho, o que é ótimo.

Um disco novo em quase dez anos é, certamente, motivo para celebração para Jakob Dylan, mas há uma outra efeméride de sua carreira acontecendo exatamente neste dia 21 de maio. É que nesta data, em 1996, chegava às lojas o disco Bringing Down the Horse, segundo e mais famoso/celebrado/incensado/importante álbum do Wallflowers. Ou seja, são 25 anos deste trabalho que tem músicas, hits, como "One Headlight", "6th Avenue Heartache", "Three Marlenas", "The Difference", entre outras.

Bringing Down, embora tenha vendido milhões de cópias e tenha tido hits tocados no mundo inteiro, acabou se tornando um álbum um tanto quanto subestimado. Ele foi lançado num período meio esquisito do rock: a força do grunge com Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e outras bandas já havia passado e rolava um período de, digamos, entressafra no gênero. Foi nessa espécie de vácuo que o Wallflowers entrou com tudo, dominando rádios, MTV e revistas — a internet só engatinhava. Com seu rock cheio de guitarras, órgão, muitos elementos de folk, influências de Tom Petty, Bruce Springsteen e, óbvio, Bob Dylan, o grupo virou o queridinho da mídia.

Capa do aniversariante Bringing Down the Horse

Capa do aniversariante Bringing Down the Horse

Divulgação

Se o disco que completa 25 anos hoje não é uma revolução do gênero é, no mínimo, o guardião de algumas canções muito bem compostas, com arranjos bem produzidos e letras acima da média.

Jakob, que é o compositor de todas as músicas de Bringing Down, deixa bem claro nas faixas seu talento como músico e letrista. Qualquer um que ouça o disco pode notar que há ali um trabalho especial, com várias melodias que grudam no ouvido, sem refrões fáceis e que envelheceram extremamente bem. É só pegar as duas mais famosas, “One Headlight” e “6h Avenue Heartache”: ambas são audíveis até hoje, sem deixar aquela sensação de mofo ou de serem datadas. E continuarão assim pelos próximos vinte ou trinta anos.

Apesar de todas as suas qualidades, o álbum é hoje um tanto quanto subestimado, assim como acontece com o próprio Wallflowers e com Jakob Dylan. Tanto é verdade que a banda não conseguiu manter o mesmo sucesso com os discos que vieram anos 2000 afora, embora trouxessem também ótimas canções.

Muito dessa desvalorização vem pelo fato de Jakob ser filho de quem é. Ser filho de Bob Dylan, possivelmente a maior sumidade do mundo do rock, sempre foi uma questão que ficou buzinando ao lado do desenvolvimento da carreira do líder do Wallflowers. Jakob sempre fez questão de se afastar o máximo que pôde da ligação com seu pai ao longo de seus trabalhos. É só ver as capas de Bringing Down e do primeiro álbum do Wallflowers (que leva o nome da banda) para ver que não há nem foto dos integrantes. Quer dizer, o vocalista não tem sua imagem estampada na capa. Isso foi proposital, para não haver aquela conversa de “olha aí o filho do Bob Dylan tentando se dar bem”.

Sobre essa dificuldade de ser filho de quem é, Jakob já disse o seguinte: “meu pai é o melhor naquilo que eu faço”. Quer dizer, mesmo sem querer, espera-se que ele concorra com Bob, o que é obviamente impossível. E é por tudo isso que Jakob nunca regravou uma música de seu pai, nunca fez show com ele e quase nunca o menciona em suas entrevistas. A sombra de Bob já está sobre seu filho e não há necessidade de aumentar ainda mais essa sombra, certo?

Só é uma pena que o fato de ser o herdeiro de Dylan tenha feito sempre a mídia, imprensa e até pessoas da indústria musical olharem meio de rabo de olho para Jakob. Parece sempre se tratar de algo como “está fazendo sucesso porque é filho do Bob” ou “não consegue nem fazer sucesso mesmo sendo filho do Bob”. Quer dizer, o moço ficou no mato sem cachorro e um monte de gente acabou não vendo suas eventuais qualidades como compositor e letrista. Não fosse ele da família que é, muito provavelmente Jakob seria visto de uma outra maneira por toda a indústria da música. O que é uma pena, porque seu talento é sim uma realidade.

E se você está nesse time dos que desacreditaram de Jakob Dylan, faça um favorzinho e vá ouvir o aniversariante Bringing Down the Horse. Depois disso, pode me procurar no Instagram ou Twitter para dizer se não tenho razão em defender esse álbum. É um discaço.

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