Toque Toque The Midnight: A trilha sonora dos anos 80 nos dias de hoje

The Midnight: A trilha sonora dos anos 80 nos dias de hoje

Música eletrônica, sintetizadores, videogames, cinema e uma ambientação totalmente 80’s

Tim McEwan e Tyler Lyle

Tim McEwan e Tyler Lyle

The Midnight

Já ouviu falar em Synthwave? E quanto a Outrun, Futuresynth, ou até mesmo New Retro Wave? Se você gosta de música eletrônica, videogames e das trilhas sonoras dos anos 80, com certeza vai amar o estilo. E pra mim, quem representa melhor esse movimento é The Midnight.

A Synthwave é um “microgênero” dentro da EDM (electronic dance music) que alcançou uma popularidade maior no fim dos anos 2000 e começo de 2010, muito influenciada pelo sucesso do filme “Drive” e da série “Stranger Things” da Netflix. Pra quem viveu entre 1980 e início de 90, quando escutamos uma dessas músicas sentimos uma familiaridade com o estilo que nos transporta imediatamente à saudosa década. Na hora você se lembra do seu jogo de Megadrive preferido, entre luzes neon e carpetes sujos dos fliperamas, das fichas no bolso meladas com barras de chocolate após uma sessão de cinema assistindo “Os Caça-Fantasmas”, “Tron”, “Um Tira da Pesada”, ou até “Blade Runner”. É nostalgia pura, mas também é boa música.

Dentre os diversos projetos, The Midnight é meu preferido. Quem me apresentou esse som foi minha esposa, que por causa do algoritmo do YouTube acabou clicando no clipe de “Sunset”, e ficou viciada. Nos vídeos, muitas vezes usam trechos de filmes que hoje já são clássicos, e nesse caso, eram cenas de “Construindo uma Carreira” com a Jennifer Connely e Frank Whaley, de 1991, aquele que eles ficam presos no supermercado de madrugada e acabam aprontando “muita confusão”.

De cara os sintetizadores te pegam pela memória afetiva e te levam para um tempo em que tudo parecia novo, apesar daquela tecnologia rústica, era como uma visão do futuro. A bateria dá o ritmo e dita algo simples, quadrado, mas extremamente confortável. Num crescendo, outros synths são somados até que o riff principal se anuncia e sentimos aquela angústia adolescente tal qual os atores no vídeo. Numa loja da Target em 1990, as luzes vão se acendendo e nós estamos ali com eles, sozinhos, vivendo aquele momento. A virada de bateria convida os outros timbres que de repente explodem numa mistura de nostalgia e êxtase. Não se sabe se é pra dançar ou chorar, ou os dois ao mesmo tempo. Então, quando a voz principal começa no verso, logo na primeira frase já dá pra ver que esse é um excelente cantor, e no refrão, fica claro que essa não é apenas uma música “tipo anos oitenta”. “Sunset” é uma canção Pop, uma composição bem estruturada e muito bem produzida. E então, após um climinha, que surpresa. Um solo de guitarra! Como faz falta ouvir um bom solo nas músicas populares. Uma clara homenagem à genialidade da banda Van Halen na segunda fase, com Sammy Hager nos vocais e os teclados oitentistas. Assim, The Midnight diz à que veio. O passado é o futuro.

O grupo (ou dupla), foi formado em Los Angeles, California nos Estados Unidos em 2012 pelo cantor e compositor americano Tyler Lyle e Tim McEwan, produtor, compositor e cantor dinamarquês. Seus primeiros singles “Gloria” e “WeMoveForward”, compostos em 2012, foram lançados apenas em 2014 como parte do EP de estréia chamado “Days of Thunder”. Nele, além de “Gloria”, tem “Los Angeles”, que são duas das minhas faixas preferidas.

“Sunset”, a primeira música que ouvi, faz parte do primeiro álbum “Endless Summer” de 2016. Outro destaque é “Jason” contando com a participação da cantora independente Nikki Flores, que trouxe uma outra dimensão de possibilidades sonoras a serem exploradas. Apesar da introdução do saxofone ter acontecido em “Days of Thunder”, é aqui que o sax se torna parte integral da sonoridade deles. Enquanto mantém as referências de Giorgio Moroder na trilha de Scarface ou “She’s a Maniac” do Flashdance, em “Endless Summer” ouvimos um pouco mais de contemporaneidade, principalmente com a voz de Nikki Flores. Continua Pop e segue impressionantemente bem produzido. Destaque também para “Vampires” que é demais.

“Nocturnal” de 2017 segue com ótimas composições mas sem muito à acrescentar em termos de novidades sonoras. Em time que está vencendo não se mexe, certo? Por isso Nikki Flores retorna para mais uma participação especial em “Light Years”. Além dela, outro expoente da Synthwave, talvez tão importante quanto The Midnight, o produtor holandês Jordy Leenaerts, conhecido como Timecop1983, colabora em “River of Darkness”. Talvez minha preferida seja a faixa de abertura, “Shadows”. Ela é um pouco diferente das outras, mais sombria e “moderna”, se é que temos a liberdade usar esse termo em Synthwave.

Após “Nocturnal” lançaram mais dois álbuns “Kids” em 2018 e “Monsters” em 2020. Lembro que meu primeiro momento fanboy com eles foi quando ouvi “Lost Boy”, faixa de “Kids”, como trilha de fundo da série “13 Reasons Why” da Netflix. Fiquei muito feliz em ouvir um grupo que admiro e tenho acompanhado há tanto tempo, chegar onde chegou.

The Midnight

The Midnight

The Midnight

Se você curtiu essas músicas e acha que esse estilo é pra você, apoie os artistas escutando e compartilhando com quem você gosta. Confira outros que também são excelentes, como Timecop1983, FM-84, GUNSHIP, FM Attack, Futurecop!, mitch murder, Lazerhawk, e pra quem curte um som mais pesado Dance With the Dead. A maior parte deles é totalmente independente, sem apoio de gravadora ou investimentos grandes, a luta é constante então todo apoio é sempre muito bem-vindo. Também não deixe de ouvir o novo lançamento de The Midnight, o EP “Horror Show”, que saiu agora em 2021 e traz Nikki Flores mais uma vez como convidada.

Esse “microgênero” ainda vai conquistar muita gente com essa nostalgia contagiante, e logo mais poderemos assisti-los em festivais de música eletrônica ao redor do mundo e pelo menos por alguns instantes, voltar ao passado, aproveitar o presente e sonhar com o futuro.

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