O que está por trás do avanço de produtos com mensagens motivacionais
Tendência global cresce lado a lado com ansiedade e depressão e levanta dúvidas sobre consumo emocional
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Nos últimos anos, um tipo específico de produto vem ganhando espaço nas prateleiras e, principalmente, nas redes sociais: itens com frases de encorajamento.
De garrafas d’água a cosméticos, os fabricantes passaram a incorporar mensagens como “você consegue”, “não desista” e “um dia de cada vez” aos seus produtos. Mais do que estética, trata-se de um fenômeno comportamental.
Um dos exemplos mais visíveis são as garrafas de água motivacionais, que viralizaram em plataformas como TikTok.
Com marcações de horário e frases de incentivo, esses produtos prometem ajudar o consumidor a manter hábitos saudáveis. Mas os exemplos não se limitam às garrafas virais, pois há uma gama enorme de produtos no mesmo estilo.
São cadernos, planners, canecas e objetos de escritório com mensagens de produtividade e resiliência, roupas fitness com frases de incentivo, além de cosméticos e produtos de skincare com palavras que reforçam a autoestima.
Esse movimento não surge por acaso. Ele se insere em um campo conhecido como neuromarketing, que busca entender e explorar as respostas emocionais do consumidor para estimular decisões de compra.
Estudos de comportamento mostram que as decisões de consumo são fortemente influenciadas por fatores emocionais, muitas vezes mais do que por critérios racionais.
Ou seja: vender produtos com mensagens positivas faz parte de uma estratégia, além do simples design.
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Segundo o relatório da Grand View Research, empresa americana de inteligência de mercado, a indústria global de produtos ligados ao bem-estar e autocuidado, que inclui itens com apelo emocional e motivacional, movimentou mais de US$ 5 trilhões em 2023, com projeção de crescimento consistente nos próximos anos.
Parte desse avanço está diretamente ligada à busca por soluções acessíveis para lidar com o estresse, a depressão e a ansiedade no dia a dia.
Tendência X saúde mental
A conexão entre o aumento desse tipo de produto e a saúde mental não é direta, mas é consistente do ponto de vista interpretativo.
Vivemos um contexto em que ansiedade e depressão são cada vez mais discutidas e, paralelamente, cresce o consumo de produtos que prometem pequenas doses de positividade.
Esse fenômeno se aproxima do que alguns autores chamam de “marketing existencial”, uma tentativa de vender significado, propósito e bem-estar por meio de objetos simples do cotidiano.
Além disso, a chamada cultura de consumo contemporânea mostra que produtos funcionam como símbolos para a construção de identidade e regulação emocional.
Na prática, isso significa que o consumidor compra, além da garrafa d’água, um lembrete de esperança.
Há ainda o fator adicional das redes sociais, onde tendências transformam objetos comuns em símbolos de estilo de vida, atendendo ao desejo coletivo de pertencimento.
Uma interpretação crítica
Não há evidência científica robusta de que esses produtos reduzam ou tratem clinicamente os efeitos da depressão ou da ansiedade.
Por outro lado, há evidências de que conteúdos inspiradores, ainda que simples, podem ter algum efeito positivo no humor e na percepção emocional (pelo menos por um instante).
Em termos técnicos, trata-se de um mecanismo de compensação simbólica de uma vida que não está, por algum motivo, correspondendo às expectativas. E, em termos práticos, é a tentativa de obter um raio de luz em meio à escuridão.
A popularização desse tipo de produto reflete uma mudança mais profunda do que uma simples tendência estética. É o retrato do crescimento de consumidores mais vulneráveis emocionalmente e de um mercado ávido por atender essa demanda.
O que vale uma reflexão mais atenta de toda a sociedade é por que, para uma fatia cada vez maior de consumidores, esse tipo de produto tem sido visto como necessário.














