Franciacorta: o espumante italiano que construiu, em poucas décadas, um lugar entre os grandes do mundo
Ainda pouco explorada pelos brasileiros, a Franciacorta reúne tradição recente, rigor técnico e vinhos que rivalizam com os melhores espumantes do mundo.
Há regiões que nascem com séculos de tradição. Outras constroem sua história com uma velocidade impressionante, e, ainda assim, com rigor e consistência suficientes para conquistar reconhecimento internacional. A Franciacorta pertence a esse segundo grupo.
Localizada na Lombardia, entre Brescia e o Lago d’Iseo, a denominação é hoje referência mundial em espumantes elaborados pelo método tradicional. Mas o que a torna particularmente interessante não é apenas a qualidade dos vinhos, e sim o fato de que essa qualidade foi construída em pouco mais de meio século.
Uma denominação moderna com ambição histórica
A Franciacorta moderna nasce oficialmente na década de 1960, quando o enólogo Franco Ziliani, inspirado pelo modelo de Champagne, produz os primeiros espumantes de qualidade na região. O sucesso foi rápido, mas não improvisado.
Em 1967, a denominação conquista o status de DOC. Em 1995, torna-se DOCG, a mais alta classificação italiana, sendo a primeira região do país dedicada exclusivamente ao método clássico a alcançar esse reconhecimento.
Por trás dessa evolução, há um elemento fundamental, o planejamento. Diferentemente de regiões históricas que cresceram de forma orgânica ao longo de séculos, a Franciacorta foi pensada. Estudos detalhados de solos e microclimas, realizados nos anos 1990, levaram à identificação de seis unidades vocacionais, uma base científica que ainda hoje orienta o plantio e a produção.
Os solos morênicos, formados por antigas geleiras, aliados à influência moderadora do Lago d’Iseo, criam condições ideais para a produção de espumantes de alta precisão: acidez natural, maturação equilibrada e complexidade aromática.
Método clássico, identidade própria
A Franciacorta compartilha com Champagne o mesmo princípio técnico: a segunda fermentação ocorre na própria garrafa, seguida de um período prolongado de contato com as leveduras.
Mas a semelhança termina aí.
A identidade da Franciacorta é definida por um equilíbrio particular entre estrutura e fluidez. São vinhos que combinam precisão e acessibilidade, com textura cremosa, bolha fina e uma expressão aromática que privilegia a clareza da fruta e a elegância da evolução.
A base dessa identidade também está na escolha das uvas autorizadas pela denominação, Chardonnay e Pinot Nero (Pinot Noir) são as principais variedades, podendo ser complementadas por Pinot Bianco (até 50%).
Mais recentemente, a regulamentação passou a permitir também o uso de Erbamat, uma variedade autóctone histórica da região de Brescia, oficialmente introduzida no disciplinar em 2017. Trata-se de uma uva de maturação tardia e naturalmente dotada de alta acidez, características que a tornam particularmente interessante em um contexto de mudanças climáticas, contribuindo para preservar frescor, tensão e longevidade nos vinhos.
Durante décadas praticamente esquecida, a Erbamat vem sendo resgatada por produtores atentos à identidade do território, reforçando uma tendência importante da Franciacorta contemporânea, olhar para o futuro sem perder a conexão com suas raízes históricas.
A regulamentação é rigorosa. Os tempos mínimos de envelhecimento são elevados, e cada tipologia, do Non Dosato ao Millesimato, segue critérios específicos que reforçam a consistência qualitativa da denominação.

Satèn: a assinatura mais íntima da Franciacorta
Entre as diferentes tipologias, uma traduz com particular precisão a identidade da região: o Satèn. Exclusivo da Franciacorta, o Satèn é elaborado apenas com uvas brancas, predominantemente Chardonnay, e com pressão reduzida na garrafa. O resultado é uma mousse mais delicada, menos incisiva, e uma textura que remete à própria origem do nome, seda.
Criado nos anos 1980, o Satèn não é apenas uma variação estilística. É uma afirmação de identidade. Em vez de replicar modelos externos, a Franciacorta escolhe desenvolver sua própria linguagem, mais suave, mais envolvente, mais tátil.
Muratori: quando o território se transforma em projeto
Foi dentro desse contexto que tive a oportunidade de degustar os vinhos da Muratori, uma vinícola que exemplifica com clareza a maturidade alcançada pela Franciacorta.

Fundada em 1999 pela família Muratori, originalmente ligada ao setor têxtil, a empresa nasce com uma visão definida: construir um projeto vitivinícola capaz de interpretar, de forma completa, o território da denominação.
Essa ambição se materializa na própria estrutura produtiva. A vinícola trabalha exclusivamente com uvas próprias, provenientes de cerca de 50 a 60 hectares distribuídos pelas seis unidades vocacionais da Franciacorta. Trata-se de uma escolha estratégica: controlar a matéria-prima para garantir precisão e coerência estilística.

Durante anos conhecida como Villa Crespia, a empresa passou recentemente a adotar o nome Muratori como identidade principal, uma decisão que reforça a centralidade da família no projeto e sua continuidade ao longo das gerações.
Arquitetura, sustentabilidade e precisão
A sede da vinícola, parcialmente subterrânea, não é apenas um elemento estético. Trata-se de uma escolha funcional, aproveitar a gravidade no fluxo de produção e manter condições térmicas naturalmente estáveis, fundamentais para a elaboração de espumantes de alta qualidade.
No campo, o compromisso com a sustentabilidade se traduz em práticas concretas, como a adoção de sistemas agrivoltaicos, que permitem a produção de energia diretamente sobre os vinhedos, e o uso racional de recursos hídricos por meio de irrigação controlada.
Cada parcela é vinificada separadamente, resultando em uma ampla gama de vinhos base que, posteriormente, serão selecionados e assemblados. Esse trabalho de precisão é essencial para a construção do estilo final.

Millé 2021: a leitura de uma safra
O Millé Franciacorta Extra Brut Millesimato 2021 sintetiza essa filosofia. Elaborado exclusivamente com Chardonnay de vinhedos com mais de duas décadas, o vinho reflete uma safra caracterizada por temperaturas mais frescas e maturação gradual, condições que favoreceram a preservação da acidez e da elegância.
Na taça, apresenta coloração amarelo-palha com reflexos esverdeados. No nariz, revela notas de camomila, frutas cítricas, especialmente grapefruit, e nuances delicadas de baunilha.

Em boca, a textura é precisa, uma mousse fina, integrada, sustentada por uma acidez vibrante que conduz a um final longo e definido. Há tensão, mas também fluidez, uma combinação que indica potencial de evolução.
Uma região em consolidação, e em expansão
A Franciacorta ainda não ocupa, no Brasil, o espaço proporcional à sua qualidade. Mas essa ausência talvez seja apenas uma questão de tempo.
Em um cenário global cada vez mais atento à origem, à autenticidade e à precisão técnica, a denominação italiana reúne atributos que dialogam diretamente com o consumidor contemporâneo.
Mais do que uma alternativa, a Franciacorta se afirma como uma categoria em si.
E, como toda grande região, não se impõe pelo volume, mas pela consistência. torna particularmente interessante não é apenas a qualidade dos vinhos, e sim o fato de que essa qualidade foi construída em pouco mais de meio século.
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