Empresas de tecnologia e dados de saúde levantam preocupações sobre privacidade
Amazon Clinic levanta debate sobre privacidade de dados de saúde
Vanity Brasil|Do R7

A crescente influência da inteligência artificial (IA) na sociedade tem gerado um debate urgente sobre a privacidade dos dados, especialmente no setor da saúde. A dimensão desse impacto é tamanha que Sam Altman, CEO da OpenAI e criador do ChatGPT, defendeu publicamente a necessidade de uma regulação internacional para o uso da IA. Entre as diversas questões éticas que surgem com as novas tecnologias, a proteção das informações dos pacientes se destaca como uma das mais críticas, com suas implicações práticas já em andamento, principalmente no que diz respeito ao acesso de gigantes da tecnologia a dados sensíveis.
Nesse contexto de avanço tecnológico e discussão ética, a maneira como grandes empresas lidam com as informações de saúde dos usuários se torna um ponto central. O debate se intensifica à medida que as companhias desenvolvem serviços que, embora ofereçam conveniência, podem expor dados pessoais de formas inéditas. A solicitação de Sam Altman por uma regulação global para a IA sublinha a seriedade e a complexidade dos desafios impostos, sinalizando a urgência de estabelecer limites e salvaguardas antes que os efeitos práticos se tornem irreversíveis.
Um exemplo concreto dessa dinâmica é a criação da Amazon Clinic, um serviço de consultas médicas online de baixo custo. Por um valor de US$ 30, os usuários podem realizar uma consulta virtual e receber uma receita médica sem precisar sair de casa. Contudo, para ter acesso a essa plataforma, o paciente precisa assinar uma autorização que concede à empresa o direito de utilizar seus dados conforme desejar. Essa prática contrasta com a Lei de Portabilidade e Responsabilidade do Seguro de Saúde (HIPAA) vigente nos Estados Unidos, que visa proteger as informações de saúde dos pacientes, permitindo seu compartilhamento apenas em circunstâncias específicas.
A autorização exigida pela Amazon Clinic, na prática, permite que os dados do paciente deixem de estar sob a proteção da HIPAA. Além das informações pessoais básicas, o serviço solicita que os usuários enviem fotos detalhadas de sua condição. Com esse vasto dossiê em mãos, a gigante da tecnologia pode, por exemplo, vender essas informações para terceiros – uma ação permitida pela autorização original. Outras possibilidades incluem o direcionamento de anúncios publicitários baseados no perfil médico do usuário e a geração, via inteligência artificial, de modelos preditivos sobre riscos de doenças, que também poderiam ser comercializados. O analista Geoffrey Fowler, em um artigo para o jornal “The Washington Post” (de propriedade de Jeff Bezos, também dono da Amazon), levantou questionamentos importantes sobre o tema. Em resposta, a assessoria de imprensa da Amazon afirmou que seu negócio não é vender dados e que não utiliza informações de clientes sem o seu consentimento, uma justificativa considerada insuficiente por especialistas.
A principal questão que emerge é como as leis continuarão a proteger os cidadãos se as grandes empresas de tecnologia persistem em buscar brechas nas regulamentações existentes. Embora ninguém seja obrigado a aderir ao serviço, o preço acessível e o forte apelo de marketing da Amazon Clinic se mostram eficazes para atrair o público, levantando preocupações sobre a escolha informada dos usuários. A situação evidencia um dilema complexo entre conveniência e privacidade, e a possibilidade de surgir uma versão similar em outras regiões do mundo intensifica a necessidade de um debate robusto sobre a proteção dos dados de saúde na era digital.














