Coringa é excelente. Por isso as discussões serão acaloradas
Apesar da maestria alcançada, longa tem seus pecados, que podem levar a interpretações distintas e extremas para o bem e para o mal
Cinema|Caio Sandin, do R7

Dizem que apenas ótimos filmes rendem grandes discussões, pois aqueles que o assistem tem opiniões muito fortes. Seja para o bem ou para o mal. Coringa se encaixa neste grupo.
Mesmo antes de estrear nos cinemas nesta quinta-feira (3 de outubro), o longa de Todd Phillips dividiu sua carreira entre audiências, tendo ganhado o prêmio máximo no festival de Veneza e cultivado diversas críticas bastante severas.
E os dois lados tem sua razão.

O filme é espetacular. A fotografia é linda, compatível com o personagem e com os momentos que ele atravessa na trama, fazendo da melancolia, da fúria e das explosões sentimentais algo ainda mais marcante. Cada quadro, cada sequência — seja ela uma interação curta ou um grande plano-sequência — ganha a beleza de um quadro, demarcando os momentos-chave do longa.
A trilha sonora é impecável. Abusando dos instrumentos de corda para criar tensão e auxiliar na angustia que se sente junto do protagonista. O crescendo faz com que climax se torne ainda mais impactante.

Joaquin Phoenix entrega uma atuação digna das maiores premiações do circuito (ainda mais se comparada à que venceu a última edição do Oscar). Os três tipos de risada, tão alardeados pela imprensa após entrevistas com o ator ou com o diretor, ficam escancaradas à audiência e são fundamentais para a construção e desenvolvimento do vilão que dá nome ao longa, além de servirem de fundação para a evolução que acompanhamos na projeção.
O elenco de apoio também se mostra muito competente, principalmente Robert de Niro, que além de se tornar uma homenagem ao clássico O Rei da Comédia, vive um apresentador de talk show tão verossímil que leva o público dos cinemas para a sua plateia.

O problema, para aqueles que o enxergam, está no modo como a história se desenrola. Ao humanizar o vilão e fazê-lo digno de pena, o longa parece tentar justificar os injustificáveis fins, pelos meios, tornando em símbolo e mártir um personagem claramente problemático, que é, de fato, como sempre foi, um vilão.

Vilões devem ser capazes de gerar empatia no público, como Killmonger de Pantera Negra, mas Coringa borra a linha que deve ser levantada para demonstrar o caráter vilanesco intrínseco ao personagem. E, com sua trama, acaba fazendo com que certas atitudes se tornem aparentemente toleráveis, sem mostrar a imagem completa da situação que isto gera, tomando como único o ponto de vista mergulhado na mente do protagonista.
Existem pontos fortes para os dois lados. Cada um tomará para si fatores para defender seu espectro. Uma coisa é certa: É impossível sair inerte da sessão. O impacto é iminente. As discussões serão acaloradas.














