Crítica: 'O Primeiro Homem' mostra lado humano de Neil Armstrong
A tão contada história do primeiro homem a pisar na lua ganha novos tons e nuances no longa de Damien Chazelle
Cinema|Caio Sandin, do R7

Existem certas experiências que “mudam sua percepção. Fazem você ver coisas que devia ter visto há muito tempo”. A percepção geral da chegada do homem à lua é basicamente a mesma há quase 50 anos. Contada geração após geração, por meio de histórias de familiares ou da televisão, sempre se vê a grandiosidade do ato, a primeira pegada deixada por Neil Armstrong, a polêmica fincada de bandeira no solo lunar e uma das frases mais conhecidas da história: “Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”.
Mas existem certas experiências que “mudam sua percepção. Fazem você ver coisas que devia ter visto há muito tempo”. E em seu O Primeiro Homem, Damien Chazelle consegue trazer esta experiência para esta tão contada história.

O ponto de vista mais pessoal, quase íntimo, da vida de Neil Armstrong traz mais luz ao famoso astronauta e seu jeito quieto e, por vezes, sisudo. Desde a convivência com seus filhos e amigos, e o modo como os trata quase com a mesma postura de uma missão, até a relação com sua esposa Janet, tudo enriquece o espectador.
Falando no casal Armstrong, Ryan Gosling entrega uma de suas melhores performances da carreira ao demonstrar toda a introversão e explosões de sentimentos contidos dentro de Neil. Mas é Claire Foy que transforma sua Janet em um universo à parte com sua espetacular interpretação, que deixa a audiência tensa, revoltada e empática a ela na mesma medida, fazendo com que esta figura, que sempre aparece encoberta pela grandeza do parceiro, tenha brilho próprio e alcance um protagonismo inigualável.
Já o diretor consagrado com o Oscar por La La Land retoma seu estilo mais ágil para conduzir a emoção do público e atinge os níveis de tensão alcançados em Whiplash, entregando algumas das sequencias mais angustiantes e apreensivas do ano, competindo com John Krasinski em Um Lugar Silencioso”. Mesmo sabendo do resultado, por diversas vezes as pernas começam a balançar freneticamente, as colunas se inclinam para frente e a plateia desliza para a ponta da cadeira, envolta à tensão recriada na tela. Até as decisões de utilizar uma câmera mais solta, e por consequência, tremida e de deixar de fora uma das cenas mais marcantes e controversas de toda a história passa batida por conta do minucioso trabalho realizado em cada uma das sequencias do longa, seja em campos abertos ou espaços claustrofobicamente fechados.

Se na direção, Chazelle se prova como um dos mais promissores novos talentos da indústria, a parte técnica do longa merece um capítulo à parte. A fotografia é maravilhosa do início ao fim da projeção, tornando cada plano em uma obra de arte e trazendo, junto do design de produção, ainda mais para o sentimento de imersão no passado. Já a trilha sonora se casa perfeitamente com cada situação vivida ao longo da jornada e tem, no clímax, ainda mais significado e relevância. Simplesmente brilhantes.
Se depender do gosto recente da academia pelo espaço, com indicações para Gravidade e Perdido em Marte — apesar de renegar “Interestelar” — Damien Chazelle terá seu terceiro longa bem-sucedido na temporada de premiações. Mas não somente por uma possível tendência para a exploração espacial dos grandes críticos hollywoodianos ou pelo tom ufanista que acaba recaindo em todo filme sobre o período, mas pelo primor atingido em mais uma grande obra do diretor, que, por acaso, tem como pano de fundo esta realidade de fora da terra.

Ficha técnica:
Ano: 2018
Classificação: 12 anos
Duração: 2h21 min
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Josh Singer e James R. Hansen
Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler e Corey Stoll
Fotografia: Linus Sandgren
Produtores: Marty Bowen, Damien Chazelle, Wyck Godfrey e Isaac Klausner
Música: Justin Hurwitz














