Escritora revela que romance solucionou sua relação com mãe maníaco-depressiva
Autora das tirinhas Mulheres Alteradas, argentina Maitena lança livro Segredos de Menina

Conhecer Maitena Burundarena, a autora das famosas tirinhas Mulheres Alteradas, é como dar de cara com uma de suas personagens.
Cabelos platinados, gesticulando muito enquanto fala, a argentina é uma mulher cheia de atitude, bem parecida com aquelas figuras que desenhou por décadas.
No Brasil para o lançamento de seu primeiro romance, Segredos de Menina, ela conversou com o R7 e contou que hoje, aos 51 anos, é uma mulher bem resolvida e que trabalha unicamente por prazer. Seu livro, por exemplo, surge depois de seis anos de hiato desde seu último cartum – neste período, ela se dedicou exclusivamente a ler bastante e a escrever a obra.
Segundo explica, Segredos de Menina tem como principal pretensão “quebrar preconceitos”.
“É para isso que servem os livros, para mudar o mundo”, avalia.
Mas, ainda que não consiga modificar a ordem mundial, o romance de Maitena já tem o mérito de ter mudado muito da vida de sua autora.
Na história da ficção, uma menina de 12 anos passa seus dias arrumando desculpas para não voltar para casa, já que lá a única coisa que existe são problemas. Um bando de irmãos, um pai ausente e uma mãe maníaco-depressiva, ao lado de quem é impossível ser feliz.
Na vida pessoal de Maitena, há muitas coisas parecidas com as do romance – ela afirma que a obra é “quase” autobiográfica -, sendo a principal delas esta figura materna de difícil convivência.
— Sempre tive uma relação muito conturbada com a minha mãe, ela era muito louca. Ela nunca havia tentado se aproximar de mim, e, com o livro, me propus a tentar chegar até ela. Foi assim que pude vê-la de outra maneira, escrevendo esta personagem tão parecida com ela. Entendi que ela havia sofrido muito, e que era ela a primeira vítima de todos os seus problemas, de sua vida miserável. Finalmente, a compreendi. Terminamos muito amigas.
A escritora conta que, durante este processo, sua mãe, que já estava doente, acabou morrendo.
— Isso foi genial, porque me senti muito mais livre, e a personagem cresceu imediatamente. Como a mãe do livro tinha muitos traços da minha mãe, aquilo me libertou, porque eu ficava preocupada em magoá-la ao escrever algo delicado. Eu secretamente pensava “obrigada, mamãe!” (risos).
Maitena, por sua vez, foi mãe muito cedo, aos 17 anos. Teve outro filho aos 19, e uma menina aos 38 - cada um deles com um pai diferente.
Segundo conta, a maternidade na juventude ensinou a ela coisas valiosas.
— Aprendi muito cedo que eu não era o centro do mundo. Tive que sair para trabalhar, manter meus filhos. Acabei me separando depois, aconteceram muitas coisas, fiquei sem dinheiro. Isso tudo foi bom, porque me transformou em uma pessoa muita ativa e muito conectada com a minha carreira.
Como qualquer mãe, a escritora, recentemente, andava preocupada e se sentindo culpada, pensando que talvez pudesse ter sido uma mãe melhor para seus filhos, a quem acha que tratava “como irmãos menores”. Foi quando ouviu de um deles algo que a acalmou.
— Ele me disse para ficar tranquila, que eu tinha sido uma ótima mãe justamente porque não pegava muito no pé. Ele disse que estar em casa era sempre genial. Foi lindo saber disso, porque, quando saí da casa dos meus pais, pensei que queria ter uma casa que fosse gostoso estar, onde sempre houvesse música e amigos. Uma casa com “buena onda”.
E é nesta casa com boas vibrações, onde mora com o atual marido e a filha mais nova, que Maitena trabalha, produzindo seu próximo livro, que deve ter uma “mãe malvada” como protagonista.
Quando perguntada sobre o que mais desejaria para um futuro próximo, a argentina é cautelosa.
— Não tenho planos, porque não acredito no futuro. Acho que a vida é muito imprevisível, então fazer planos é perda de tempo.
