Antunes Filho criou idioma próprio para adaptar três peças
Além do tradicional conto infantil Chapeuzinho Vermelho, ele utilizou o recurso ao dirigir Blanche e Nos Caminhos da Transilvânia
Famosos e TV|Helder Maldonado, do R7

A ousadia de Antunes Filho, morto na noite de quinta-feira (2) aos 89 anos, não se resumiu à estética e aos conceitos que inseriu nas peças que ajudou a montar.
Em três oportunidades, ele foi além e criou também um idioma próprio, batizado de fonemol.
A primeira vez que utilizou o recurso foi em 1991, na peça Nova Velha Estória, adaptação do clássico infantil Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault.
O programa de mão do espetáculo trazia declarações de Antunes explicando o motivo de seguir esse caminho arriscado. "A ideia é criar uma síntese onde a palavra não tivesse que explicar nada, porque a palavra está poluída, perdeu o sentido. Estou trabalhando no nascedouro da língua. As palavras têm uma pulsão psíquica, uma alma, um cerne eletromagnético. Quando invento uma língua ficcional, como agora, estou começando a estudar de novo o português, a restaurar o sentido das palavras", comentou no folheto entregue para cada espectador antes de Nova Velha Estória.
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Sebastião Milaré, no livro Antunes Filho: Poeta de Palco complementa a visão do autor e explica que o recurso não foi apenas estético, "cuja finalidade seria culto ao belo, mas sim modo de pensar o mundo e, através do gesto, do movimento corporal e da voz, colocar em cena esse pensamento, independente do verbo. Afirma-se dessa maneira estética como ideologia e, como por consequência, como posicionamento ético".
O fonemol volta a ser usado quatro anos depois em Nas Trilhas da Transilvânia, peça que Antunes fez para também trazer uma nova abordagem sobre outro personagem clássico: o Drácula, de Bram Stoker.

Assim como na adaptação de Chapéuzinho Vermelho, a linguagem é quase inexistente e, quando aparece, lembra algo primitvo, quase gutural. Em entrevista à Folha de S. Paulo em 28 de outubro de 1995, Antunes explica o estilo para o crítico Nelson de Sá. "Para criticar uma série de coisas. Quando você vê no teatro aquelas formas estáticas, que se movem de maneira meio estranha... Aquilo é forma pela forma. É tolice! Você vai ver no meu, você pode até achar chato, mas olha no olho. Olha no olho!", tentou justificar o diretor na matéria.
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A trilogia do fonemol termina em Blanche, adaptação de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. Encenada em 2016, a peça mais uma vez tem o propósito de incentivar cada espectador a imaginar e criar a própria dramaturgia.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele explica que é importante a participação do público na complementação do entendimento e criação da obra. "Assim como os atores que, com o fonemol, emanam imagens inconscientes, o mesmo deve suceder com o espectador que, sensibilizado na participação, vai agir como DJ, criando sua dramaturgia particular", salientou para o crítico Ubiratan Brasil.
Questionado se a escolha por usar idioma próprio não causava problema, Antunes utilizou das experiências prévias para garantir que não. "Os primeiros dez minutos causam estranhamento mas, depois, o público embarca, criando seus diálogos", garantiu Antunes.















