Romance entre os mais vendidos mostra vida de crianças escravas na Nigéria

Por Nellie Peyton

DACAR (Thomson Reuters Foundation) - A escritora Abi Daré cresceu em uma parte de Lagos, na Nigéria, onde a maioria das famílias, incluindo a dela, tinha empregadas de até oito anos de idade que trabalhavam o dia todo, muitas vezes eram espancadas e não frequentavam a escola.

Foi apenas quando adulta que ela percebeu que as chamadas "meninas domésticas" eram fundamentalmente escravas.

"Eu tinha perguntas enquanto estava crescendo, mas não eram perguntas que eu necessariamente expressava porque era a norma. Ainda está acontecendo", disse a escritora de 38 anos à Thomson Reuters Foundation por telefone de sua casa em Londres.

O romance de estreia de Daré, "The Girl with the Louding Voice", imagina a vida através dos olhos de uma dessas meninas domésticas, uma garota de 14 anos, chamada Adunni, que sonha em ir à escola.

Lançado em fevereiro, o livro foi aclamado pela crítica e entrou para a lista dos 10 mais vendidos do New York Times em três semanas. Mais importante ainda para Daré, provocou debates na Nigéria.

"Sinto que, se formos capazes de humanizar (Adunni) e vê-la como uma garota que tem sentimentos, pensamentos, opiniões e sonhos ... isso pode causar um pouco de reflexão em nossa sociedade e talvez nos levar a mudar", afirmou Daré.

Apesar das leis contra isso, o trabalho infantil é generalizado na Nigéria e o emprego de meninas como empregadas domésticas é uma das formas mais comuns, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Diversas "meninas domésticas" trabalham para famílias de classe alta e média em cidades de todo o país, longe de suas próprias casas na zona rural da Nigéria ou em países vizinhos como o Benin.

Daré às vezes ouvia pessoas espancando criadas quando ela era criança. Quando começou a pesquisar, encontrou relatos disseminados de abuso físico e sexual de meninas domésticas em jornais e nas mídias sociais.

As cenas em que sua personagem Adunni apanha foram as mais difíceis de escrever, ela disse, e tentou equilibrá-las, tornando a protagonista engraçada e otimista.

"Ela passa por coisas horrendas ... mas eu escrevi acreditando que tinha que contar a história", afirmou Daré.