Logo R7.com
RecordPlus

Viúva do piloto dos Mamonas Assassinas revela a última conversa que teve com o marido

Cristiane de Paula Parreira Martins fala sobre como é conviver com a dor da saudade e relembra o encontro com os pais de Dinho

Do Meu Tempo|Renato FontesOpens in new window

  • Google News
Cristiane, Jorge e as duas filhas (à esquerda) e o encontro com a família do vocalista Dinho (à direita), promovido pela RECORD Redes Sociais - Montagem/R7

O acidente aéreo dos Mamonas Assassinas completa 30 anos em 2026. Além dos cinco integrantes da banda, morreram mais quatro pessoas, entre elas o piloto do jatinho modelo Learjet 25D com prefixo PT-LSD, Jorge Luiz Germano Martins.

Jorge tinha pouco mais de dez anos de experiência como piloto de aviação comercial e, há quase um ano, era o responsável por transportar a banda dos meninos de Guarulhos para shows por todo o Brasil.


Ele morava com a esposa e as duas filhas, de um e três anos, em Orlândia, cidade de cerca de 40 mil habitantes, a aproximadamente 370 quilômetros de São Paulo.

O piloto, à época com 30 anos, não tinha a fama de Dinho, Bento, Júlio, Samuel e Sérgio, mas acabou ganhando projeção nacional ao ser apontado, como um dos responsáveis pelo acidente aéreo que abalou o país.


Três décadas depois, a empresária Cristiane de Paula Parreira Martins, hoje com 56 anos e viúva do piloto, relembra ao blog Do Meu Tempo a dor de perder o marido, o peso de suportar os ataques direcionados ao marido, o desafio de criar sozinha as duas filhas sem a presença do pai e o emocionante reencontro com os pais do vocalista Dinho, promovido pela RECORD.

A última conversa

Cristiane é empresária do ramo de transportes e continua morando no interior de São Paulo Reprodução/Redes sociais

“Nos falávamos todos os dias. Era algo muito importante para nós, porque eu precisava ouvir a voz dele e ele precisava ouvir a minha. Costumávamos dizer que o dia não estava completo se não conversássemos.


A última conversa foi na sexta-feira, 1º de março, por volta das 20h. Ele disse que voltaria na segunda-feira, 4 de março. Naquele dia, começariam as aulas da Beatriz, e ele fazia questão de estar presente no primeiro dia.

Aquele também seria o último voo, já que ele viajaria para os Estados Unidos após ser convocado para realizar testes em uma grande companhia aérea.


Conversamos sobre isso, e ele me disse: “Até amanhã, fofa. A gente se vê no jantar. Saio às 7h da manhã de Piracicaba, chego no máximo até 9h30 em São Paulo, entrego a aeronave, vou para Casa Branca e, à noite, estou em casa”.

A última frase dele foi: “Vou te pedir uma coisa: cuida bem de você e das meninas, porque, se alguma coisa acontecer, eu não te perdoo nunca”.

“Sabia que não tinham sobrevivido”

“Temos até hoje uma empresa familiar de transportes aqui em Orlândia. No dia 3 (domingo), às 6h da manhã, meu pai me ligou dizendo que eu havia esquecido de escalar uma viagem.

Respondi que não havia nada programado para aquela manhã, mas ele insistiu que sim e disse que, na porta da casa da minha mãe, havia muita gente e até repórteres esperando esse ônibus. Ele então pediu que eu pegasse as meninas e fosse até lá para resolver a situação.

Meu pai já sabia do acidente e, com muita sabedoria, criou aquela história para que eu não chegasse lá com as meninas, encontrasse toda aquela movimentação e recebesse a triste notícia logo de cara.

Quando cheguei, meus tios pegaram as crianças e a mim e nos levaram para dentro de casa. Eu não estava entendendo nada. Meu pai perguntou quando tinha sido a última vez que eu havia falado com o Jorge. Respondi que tinha sido na sexta-feira (dia 1º) e que o sábado (dia 2) tinha sido o único dia, em toda a nossa vida, em que não nos falamos.

Foi então que ele disse que o avião havia desaparecido do radar, mas que estava tudo bem. Quando liguei a televisão, vi a asa do avião. Naquele momento, eu soube que eles não tinham sobrevivido.

O luto é um buraco em que você pisa e não encontra chão. Fiquei por anos nesse buraco, emocionalmente falando. Reuni todas as forças que tinha, porque precisava fazer escolhas difíceis: criar as meninas, me estabilizar emocionalmente e, só depois, cuidar de mim."

“Buraco sem fundo”

“O luto é um buraco em que você pisa e não encontra chão. Fiquei viúva aos 26 anos, com uma criança de 1 ano e outra de 3. Naquele momento, além do ‘buraco’ em que eu tinha sido jogada, a pergunta que não saía da minha cabeça era: o que vou fazer com essas crianças agora? Até então, minha preocupação maior era o trabalho, porque, dentro de casa, tudo era o Jorge quem resolvia. Ele era o provedor.

A Beatriz estava entrando na escolinha e, logo depois, viriam as formaturas, o Dia dos Pais, o Dia da Família na escola, a festa de 15 anos, o casamento… A minha sorte foi ter uma família acolhedora e uma rede de apoio muito grande."

“Não teve a oportunidade de falar a palavra pai”

“A Ana nunca teve a oportunidade de falar a palavra ‘pai’, e isso me dói muito. Eu nunca disse a elas que o pai havia morrido e ‘virado uma estrelinha’. Optei por deixar as coisas acontecerem naturalmente. Elas tiveram a figura paterna dentro de casa por meio dos meus irmãos, e a referência maior sempre foi o meu pai. Ele fazia tudo por elas.

A escolha de cuidar delas e abrir mão de partes da minha vida foi por amor. Eu poderia ter me casado novamente e construído uma nova família, mas eu precisava cuidar. Era exatamente a missão que o Jorge me pediu: ‘cuidar das meninas’.

Agora que elas se casaram e seguiram seus próprios caminhos, fica a sensação de dever cumprido."

“Se quiser provar, faça uma faculdade de Direito!”

“Em uma das audiências, em São Paulo, meus advogados e a imprensa aguardavam a entrega, pela Aeronáutica, da gravação da caixa-preta. No entanto, foi informado que a investigação era sigilosa e que não havia obrigação de disponibilizar o material.

A juíza, então, me orientou a reunir as provas, organizá-las em um documento e levá-lo para ser anexado ao processo. Mas essa documentação precisava ser registrada oficialmente. Foi assim que decidi entrar na faculdade de Direito.

Meu objetivo era transformar o Trabalho de Conclusão de Curso em uma prova para o processo. Ao longo de cinco anos, reuni documentos, recortes de jornal, pistas, entrevistas e registros, além de conhecer muitas pessoas que me ajudaram nessa trajetória.

O TCC recebeu nota 10 e foi devidamente registrado pela faculdade. Depois, levei o trabalho a São Paulo para que passasse a integrar a minha defesa no processo.

Pouco tempo depois, uma revista publicou uma nota afirmando que o piloto não havia errado sozinho. Mesmo que eu não concordasse totalmente com essa afirmação, o fato é que a culpa, que antes recaía 100% sobre ele, passou a ser dividida. Para mim, foi gratificante tirar meu marido da condição de único culpado."

Encontro emocionante com a família de Dinho promovido pela RECORD

“Por muitos anos, diversos veículos de comunicação tentaram promover uma aproximação entre nós e a família do Dinho, mas eu era irredutível. Sentia que só poderia viver esse encontro quando a mágoa estivesse curada dentro de mim.

Cerca de dez anos após o acidente, passei a entender que nada é por acaso. Percebi que estamos aqui para enxergar o outro com os olhos da alma, e aquela mágoa e revolta foram se dissipando. No fim, os pais dele, assim como os familiares de todos que estavam ali, também eram vítimas tanto quanto eu.

No dia do meu aniversário, em agosto de 2019, a RECORD me ligou dizendo que gostaria de fazer um programa especial e perguntou se eu aceitaria encontrar os pais do Dinho. Respondi que precisava amadurecer a ideia.

Em outubro daquele ano, finalmente aconteceu o encontro, carregado de emoção, na Praça dos Mamonas, em Guarulhos. Naquele momento, eu e a Ana encontramos pessoas que estavam vivendo a mesma dor.

Nós nos abraçamos, choramos, e eles chamaram a Ana de filha. Desde então, nos tornamos amigos. Os pais dele conversam com a Ana todos os dias e perguntam como ela está. Ficou tudo bem."

Assista a esse encontro promovido pela RECORD em 2019:

✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.