Flavio Ricco Alberto Gaspar escreve um texto de despedida da Globo

Alberto Gaspar escreve um texto de despedida da Globo

Alberto Gaspar deixou a TV Globo nesta última quinta-feira

Alberto Gaspar deixou a TV Globo nesta última quinta-feira

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O jornalista Alberto Gaspar, um dos repórteres mais conhecidos e respeitados do meio TV, e que deixou a TV Globo nesta quinta-feira, distribuiu um comunicado de despedida aos seus amigos e a todos os que o procuraram, preocupados com a sua saída.

Por absoluto respeito, vai o texto na íntegra:

Os colegas vão me desculpar a indelicadeza de não atender, e logo a imprensa. O acontecimento do dia me tomou tempo, e eu ainda tinha um compromisso familiar inadiável. E ainda precisava escrever algo que me agradasse. Vicio profissional, né? Já postei no Facebook e encaminho para vocês. Com carinho e respeito. Acho que responde às perguntas que me encaminharam.

Eu sempre fui conhecido por ser um repórter capaz de resolver as matérias rapidamente. E pela minha trajetória, com certa qualidade, eu suponho. “O Gaspar entrega”. Ou, “é solerte”, com dizia uma velha amiga que ingressou na Globo junto comigo. Mas escrever uma despedida não está sendo fácil.

Bora tentar. Desta vez o compromisso é comigo mesmo. E seguindo o que me ensinaram, na USP e na Globo: escolher o essencial. Selecionar o realmente  importante é básico, na profissão.

Eu nunca recebi um elogio, de chefes, colegas ou de qualquer outra pessoa, sem responder: equipe é tudo. Principalmente neste negócio onde eu me meti há 39 anos. Quem me conhece sabe o valor que eu sempre dei a isso. A minha equipe, na rua. A minha turma, na redação. A minha tribo.

Claro que é triste perder tudo isso, de repente. E não só pra mim, pelas manifestações de carinho e de certa perplexidade que tenho recebido. Eu só tinha sido dispensado uma vez, na vida, numa escolinha de inglês onde fui dar aula, aos dezoito anos, e faltei duas vezes. Morava longe. Duas alunas continuaram tendo aula particular comigo. Em todos os meus outros empregos, a ruptura partiu de mim, sempre por não estar feliz com o que fazia. Nunca foi o caso, na Globo.

Vivi a maior parte da minha vida, nela, fazendo exatamente o que eu aprendi a amar. A rua, a roça, a floresta. E as pessoas, pelo caminho. As histórias, as agruras e as alegrias delas. Um dia um célebre repórter da casa me disse: “você é o melhor entrevistador da TV brasileira.” Fiquei até besta. Tipo uma medalha, mesmo que exagerada.

Outra marca registrada sempre foi saber onde uma equipe de reportagem podia se alimentar, decente e rapidamente, pra não atrasar o serviço. Na minha São Paulo ou em qualquer outro lugar por onde “reportejei”. Diziam que eu deveria publicar um guia, depois abrir um site. Sempre preferi responder pessoalmente aos famintos telefonemas e mensagens dos amigos. Divertido, ligar o GPS mental. Mais recentemente, eu brincava que pensava em me transformar num aplicativo. Olha… É uma ideia.

E chegamos ao ponto. A era digital trouxe muitas mudanças, e muito rápidas, na TV e na mídia, de forma geral. Que a pandemia só acelerou. Foi engraçado, fazendo matérias em casa, durante um ano e meio, ouvir certos elogios de colegas jovens, que recebiam meu material, surpresos com o desempenho do veterano. “Como você se adaptou bem, faz bem.” Aí eu respondia: “experiência é tudo.” Trabalhei nas ruas e bastante, em casa, também,  no exterior, onde representei orgulhosamente a TV Globo, por quatro anos. Adorei voltar ao Brasil e à redação de São Paulo, em 2009 . E também no fim da longa quarentena, agora. Até postei no Facebook. Pena que a volta tenha durado tão pouco.

Pretendo continuar fazendo o que gosto, e há várias maneiras, para isso. Só não topo qualquer negócio, no mau sentido da expressão. Isso, quem me conhece, já sabe. Tudo pode mudar. A ética da profissão que me deu tanto, na vida, não.

Em tempo: não declinei o nome das pessoas citadas só pra não cometer injustiças com o número enorme de amigos que eu fiz, em todas áreas da Globo. E a quem agradeço imensamente. Muito mais do que experiencia, e até equipe de trabalho, amigos é que são tudo.

Como sempre, tamo junto.

PS: Só posso abrir exceção para minha tia Hortência, irmã do meu pai,  que eu elegi, lá atrás,  para ser minha telespectadora padrão, que eu gostaria de atrair, agradar, atingir, servir.  Era costureira aposentada, das melhores. Certo dia, acolheu uma ensopada equipe de reportagem, no meu Ipiranga. Com toalhas, café quentinho e bolo de chocolate na boca do forno.

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