Entre o jazz e a nova MPB: 11 músicas para ouvir no banho
Uma seleção que passa pelo jazz, Nova MPB, folk e indie pop com delicadeza, calor e personalidade, para fazer do banho uma terapia

Banho também pode ter roteiro. Esta seleção foi pensada como uma trilha de 11 músicas de diferentes países para acompanhar a mudança de estado que acontece ali dentro. Primeiro a desaceleração, depois a retomada gradual do corpo e, no fim, uma leveza mais desperta.
Há um pequeno mapa de origem aqui por onde garimpei. Estados Unidos, Alemanha, Suécia, Noruega, França, Itália, Austrália e o nosso querido Brasil aparecem lado a lado, mostrando delicadeza, sofisticação e apelo melódico.
Entre o jazz, a nova MPB, o folk, o indie pop e certas bordas da canção sofisticada, a ideia aqui não é apenas indicar faixas bonitas, mas organizar uma escuta que acompanhe o tempo da água, do vapor e do retorno ao cotidiano.
1. STEVIE HOLLAND “Help Me”
Jazz | Estados Unidos
Stevie Holland abre esta lista como quem sabe exatamente a temperatura do ambiente. Em sua leitura de “Help Me”, clássico de Joni Mitchell, ela pega uma composição já muito forte e a conduz para um jazz de salão refinado, com fraseado seguro, intenção clara e uma grande elegância. A interpretação está no centro de tudo. É o tipo de gravação em que cada detalhe parece existir para fazer a voz respirar melhor, sem excesso, sem afetação, com um sax que entra como brilho discreto na hora certa.
O contexto ajuda a explicar essa precisão. Stevie Holland chega a essa fase com o álbum Talk to Your Tomatoes, seu sexto trabalho, cercada por músicos experientes e por uma trajetória reconhecida entre jazz, teatro e canção americana. Com total controle da linguagem, Stevie nos dá uma faixa para entrar no banho devagar, baixar a frequência do dia e lembrar que a sofisticação também soa acolhedora.
2. MUANH “u wanna have it”
Indie pop | Alemanha
MUANH entende o valor da contenção. “u wanna have it” é uma música que prefere clima a volume, tensão a excesso, e nisso encontra sua força. O teclado cria uma cama profunda e delicada, a bateria de estética lo-fi ajuda a consolidar um dark pop de traço fino, e a guitarra minimalista evita o desperdício. O resultado é uma canção que não disputa atenção aos gritos: ela aproxima.
O press release define bem esse território ao apresentar MUANH como uma artista que trabalha intimidade, quietude e tensão emocional, e a faixa confirma isso com naturalidade. A música fala de um momento frágil de relação, quando ternura e atrito passam a coexistir. Para o banho, ela funciona como aquela segunda camada de relaxamento, quando a escuta já saiu do modo defensivo e aceita nuances.
3. Clark Clipson “Still You Stayed”
Americana | Estados Unidos
“Still You Stayed” tem a intimidade das canções que parecem ter sido feitas dentro de casa, mas sem abrir mão do bom acabamento. Clark Clipson entrega uma composição forte, sustentada por piano protagonista, violão acústico, vozes muito bem encaixadas e uma interpretação que transmite calor e sinceridade. É uma faixa que emociona, e faz isso com estrutura, melodia e timbre.
A obra é uma canção de gratidão, narrada por alguém que reconhece ser amado apesar das próprias falhas. Isso ajuda a entender a sensação que ela deixa. Há ternura, mas sem exagerar no açúcar. É uma faixa para deixar o piloto automático desligado e se recolher em um pequeno lugar de reorganização interna.
4. Mads Wighus “Familiar”
Jazz | Noruega
Mads Wighus aparece aqui com um jazz suave, muito bem resolvido. “Familiar” tem bateria escovada, piano delicado, voz precisa e uma condução melódica que sustenta o interesse do ouvinte sem precisar de grandes gestos. Quando o trompete entra, a música ganha outra cor e renova o interesse com suavidade. É uma faixa que sabe ser elegante.
A canção soa como uma espécie de abraço em forma musical, ligada à sensação de reconhecimento, de déjà-vu afetivo, de alguém que parece conhecido antes mesmo de realmente chegar. Isso dá uma camada bonita à audição. Ela cumpre o papel de aprofundar o relaxamento, sem deixar a água esfriar.
5. Gabriel Jemsten “Night Market Girl”
Folk • Americana | Suécia
Gabriel Jemsten entrega uma das faixas mais imagéticas desta seleção. “Night Market Girl” é acústica, orgânica e muito sensível, daquelas canções em que o violão de aço sustenta uma narrativa enquanto pequenos detalhes ampliam a cena. Quando os sopros entram, a música se abre e ganha algo de cinematográfico, como se o quadro saísse do quarto e encontrasse a rua, a memória e a paisagem.
A canção foi escrita a partir das vivências na Tailândia, com marcas de encontros, deslocamento e romances breves que permanecem na memória. Isso ajuda a explicar a beleza da faixa. Ela não parece inventada para soar exótica. Parece lembrança. E lembrança, quando bem cantada, tem um efeito quase que metafísico.
6. Philippe Walter “Summer Games”
Jazz instrumental | França
Aqui a playlist começa a sair do estado de transe. “Summer Games”, de Philippe Walter, coloca mais energia na seleção. O baixo sustenta o groove, o piano atua com personalidade e a faixa vai alternando tensão, abertura e novas acentuações rítmicas com inteligência. Há um perfume de bossa no groove em certos momentos, mas a música não se acomoda em rótulo fácil. Ela prefere transitar.
O mais interessante é como esse instrumental mantém interesse mesmo em suas passagens mais livres. O solo de piano, o espaço dado à bateria e o retorno ao clima inicial fazem a faixa soar como uma intensa viagem.
7. Luiza Girardello “Conversa Fiada”
Samba • Nova MPB | Brasil
Luiza Girardello, a chamada “Voz Azul” da Nova MPB, entra como ponto de inflexão brasileiro desta lista. “Conversa Fiada” soa como um jazz abrasileirado que flerta com forró e MPB, sustentado por uma harmonia sofisticada. Bateria, piano, baixo acústico e guitarra clean constroem um arranjo sofisticado, vivo, e a canção ganha ainda mais força porque sua letra se aprofunda, buscando a autenticidade em vez de se contentar com o esperado ou superficial.
O mais sedutor aqui é o contraste entre refinamento musical e franqueza emocional. A escrita trabalha perguntas, listas e imagens cotidianas para sair do pequeno e chegar ao essencial. Não é uma faixa para pairar na superfície. Ela chama para dentro. Numa sequência de banho, já é o ponto em que a água não apenas relaxa: ela parece limpar excesso de conversa, excesso de pose, excesso de ruído.
8. Tullara “I Don’t Believe in Giving Up”
Indie pop | Austrália
Tullara mantém a transição para um estado mais desperto sem romper a delicadeza acumulada até aqui. “I Don’t Believe in Giving Up” é uma canção íntima, de melodia forte, que faz ponte entre indie pop, pop rock e indie rock com naturalidade. Os reverbs de guitarra, o uso de textura vocal e os pequenos licks melódicos ajudam a manter a música em movimento, enquanto a voz se encaixa com maciez no centro do arranjo.
A faixa traz mais corpo e mais presença física no grave, com equilíbrio e bom gosto. Em uma lista pensada como uma experiência, Tullara é a passagem entre introspecção e impulso.
9. Lovetempo “Thinking About You”
Latin pop • Jazz | Estados Unidos
Lovetempo já coloca a experiência em outro estágio. “Thinking About You” tem baixo acústico com balanço, percussão latina, desenho melódico forte e uma base que mistura pop, jazz e pista com bastante classe. O instrumental é um dos mais convidativos desta seleção, daqueles que criam movimento, mas com equilíbrio.
Mattie Safer, a mente por detrás de tudo, é uma espécie de “lonely-hearts disco”, combinando soul, jazz-funk, disco e uma sensibilidade romântica bem definida. Isso aparece na faixa como charme, cadência e sedução rítmica.
10. Tony Amantini “I’m Going Back”
Folk rock | França
Tony Amantini assume o alto astral em “I’m Going Back”. Música divertida, expansiva e cheia de personalidade. A voz tem uma aspereza carismática a lá Bob Dylan, o arranjo carrega pressão e contraste na medida, os violinos entram com espírito rock and roll e a faixa inteira tem aquela energia boa, que faz qualquer lugar virar camarim de turnê por alguns minutos.
Essa é uma canção sobre retorno às raízes e continuidade da jornada, com sinceridade e senso de direção. Faz sentido. Há algo de estrada aqui, de recomeço com convicção. “I’m Going Back” é como o abrir da janela, acender da luz e a constatação de que disposição sempre vem com humor.
11. Beppe Delre “Clementina”
Samba italiano • World music | Itália
Beppe Delre fecha a lista da melhor forma possível: com cor, ritmo e sorriso. “Clementina” apresenta um samba enérgico e carnavalesco que busca trazer a identidade italiana na melodia. O cavaquinho ajuda a firmar a ponte com o Brasil, enquanto o conjunto inteiro parece feito para levantar o corpo e deixar o dia com gosto de manhã boa, mesmo quando o relógio diga outra coisa.
“Clementina” é uma faixa solar e dançante, ligada a um projeto em que Beppe aproxima música, natureza, bem-estar e imaginação. A ideia de transformar fruta em samba e bom humor poderia soar apenas curiosa, mas aqui funciona de verdade porque há identidade real, cuidado tímbrico e uma alegria convincente. É um encerramento energizante para uma seleção que começou em vapor e terminou em carnaval.
Ok, hora de se arrumar
Esta lista mostra que ouvir música no banho não precisa ser um gesto automático. Pode ser um pequeno ritual de escuta, com começo, meio e fim. As primeiras faixas desaceleram, as seguintes reorganizam a pulsação e as últimas devolvem o corpo ao dia com mais brilho. Não por acaso, jazz, MPB, folk, indie e latinidades se encontram tão bem aqui; todos esses territórios sabem trabalhar temperatura.
Também há algo de alentador na origem dessas canções. Elas vêm de países distintos, trajetórias diferentes e propostas particulares, mas convergem num mesmo ponto: a capacidade de criar presença.
Não são músicas feitas para ocupar espaço. São músicas feitas para mudar a sensação do espaço. E talvez seja isso que uma boa trilha de banho deva fazer.
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