Brasil coloca Bad Bunny no Top 3; a pergunta é se vai colocá-lo na rotina
O porto-riquenho chegou pela primeira vez no Top 3 do Spotify brasileiro, mas isso não garante a permanência
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Depois do Super Bowl, Bad Bunny entrou no Top 3 do Spotify Brasil e colocou 12 faixas no Top 200. O gatilho para o pico não foi só musical. A apresentação virou um símbolo: espanhol no palco mais mainstream dos EUA, estética latina em escala global e uma leitura política inevitável num ambiente polarizado.
O resultado é um pico de atenção que empurra a curiosidade para dentro do streaming. A questão central é o que vem depois, quando o assunto esfria e a escuta precisa se sustentar por repetição.
Leia mais
Bad Bunny fechou 2025 como o artista mais ouvido do mundo no Spotify, com 19,8 bilhões de streams. Esse número não é medalha de vaidade. Ele desmonta a ideia de que música em espanhol tem um “teto” no mercado global.
Olhando para o Brasil, a pergunta mais intrigante é outra: por que o brasileiro é tão eficiente em filtrar o que vira hábito local quando se trata de música em espanhol?
O Brasil não está “fechado” para o Bad Bunny. O que existe é fricção cultural, e fricção é mecânica de consumo. Por décadas, o rótulo “internacional” foi educado como sinônimo de música em inglês, e eu vejo nisso uma raiz histórica.
Durante o regime militar, a música brasileira foi alvo de censura, cortes e constrangimento público. Nesse ambiente, o repertório em inglês tendia a circular com menos atrito político e, muitas vezes, com menor escrutínio do público, o que ajuda a entender como o Brasil foi treinado a associar “mundo lá fora” a “inglês”, enquanto a América Latina ao lado ficou menos presente no cotidiano. Isso não explica tudo sozinho, mas é uma peça relevante do hábito.
Com o fim do regime e a reorganização do ecossistema cultural, incluindo o retorno de artistas que passaram pelo exílio, a música brasileira consolidou ainda mais sua força doméstica e permaneceu dominante.
Esse cenário, de um país autossuficiente em consumo musical e com longa exposição a conteúdos anglófonos, cria um funil mais estreito para artistas que cantam majoritariamente em espanhol virarem consumo de massa no Brasil.
Algumas exceções atravessaram esse filtro por motivos diferentes: Shakira virou pop global com forte máquina de mídia e repertório híbrido (espanhol e inglês), o RBD entrou como fenômeno juvenil de TV e identidade de geração, e Julio Iglesias chegou por um circuito mais adulto e tradicional de rádio e imprensa. Elas furaram a bolha, mas não mudaram a regra do jogo.
Um dado da Pró-Música ajuda a enxergar o tamanho desse filtro. Em 2023, no recorte das 200 músicas mais ouvidas no país, 93,5% eram brasileiras. Isso não é detalhe estatístico. É o centro da história.
O Brasil tem volume, diversidade e uma máquina cultural própria que não precisa de “importação” para girar. Quando algo de fora entra, entra porque encontrou um encaixe claro no cotidiano e ganhou repetição suficiente para deixar de ser visita.
Até aqui dá para falar só de streaming e comportamento. Mas, na minha leitura, existe uma camada identitária que pesa mais do que parece. O Brasil é um país latino, mas muitos brasileiros se esquecem disso (para o nosso azar).
A gente se reconhece com naturalidade como “brasileiro”, mas nem sempre se reconhece como parte de uma família latino-americana. Esse distanciamento tem consequências culturais: os Estados Unidos entram no cotidiano por padrão, enquanto os vizinhos latino-americanos entram por exceção.
Eu não compro a explicação de que a barreira é “não entender espanhol”. O Brasil convive há décadas com música em inglês como trilha cotidiana, mesmo quando a maioria não tem inglês fluente.
O bloqueio real raramente é decodificar palavra por palavra. O bloqueio é o contexto: o que faz alguém querer repetir uma música até ela virar rotina.
A língua é atrito. O obstáculo maior é o contexto
No Brasil, uma canção vira trilha de vida quando está acoplada a um ritual que se repete. Escuta em academia, carro, rolê, churrasco, stories, pós-jogo, meme, romance, festa de família.
Sem esse ritual, a faixa vira curiosidade de internet e morre na segunda ou terceira audição. Quando falta encaixe, o consumo fica em modo visitante: a pessoa escuta, acha interessante, mas não incorpora no seu dia a dia.
Com Bad Bunny, o paradoxo é que ele já tem duas coisas que normalmente aceleram esse encaixe: assinatura sonora forte e repertório cheio de refrões memorizáveis.
Mesmo com picos como o do Super Bowl, no Brasil a consolidação tende a ser mais lenta porque o pacote cultural do reggaeton e do trap latino ainda não é padrão de massa do jeito que o pop em inglês foi durante muito tempo.
O ponto não é rejeição. É que o brasileiro costuma precisar de uma ponte para trazer a cultura latino-americana para dentro do próprio quintal.
E é aqui que entra a parte mais importante da minha opinião. Ao usar o maior evento pop global para projetar uma causa latina em um momento de perseguição e medo nas comunidades imigrantes residentes nos EUA, Bad Bunny deixou de ser só um artista grande e passou a ser percebido como um símbolo.
Ele ofereceu uma linguagem de reconhecimento continental. Quando ele transforma “latino” em tema de dignidade, ele cria um ponto de contato que atravessa fronteiras e atravessa o idioma.
Para o brasileiro, esse tipo de gesto funciona como “espelho”, porque o Brasil também tem parentes, amigos e histórias atravessadas pela experiência migratória, e a comoção não fica restrita aos latinos hispânicos. Ela amplia o senso de pertencimento e aproxima o Brasil dessa conversa como parte da mesma família.
Esse pico no Spotify Brasil pode ser lido como efeito direto desse espelho. Não é prova de permanência. É uma prova de abertura. A porta abriu porque, por alguns dias, Bad Bunny não foi percebido como “um estrangeiro cantando em espanhol”. Ele foi percebido como alguém falando de um lugar comum, uma comunidade ampliada, uma família continental.
Quando se fala em tradução cultural, muita gente pensa em traduzir a letra para o português. Pode acontecer, mas não é obrigatório. A tradução mais eficiente é traduzir o uso. É fazer a música aparecer em situações brasileiras reconhecíveis, de um jeito que pareça natural. Na prática, o Brasil costuma transformar artista estrangeiro em rotina quando quatro coisas acontecem com consistência.
A primeira é quando artistas brasileiros que já são hábito de massa funcionam como anfitriões culturais. A segunda é quando o ao vivo vira prova social e, mais importante, vira narrativa que circula depois do show.
A terceira é quando a mídia popular apresenta o artista sem caricatura, como contato real, e não como fantasia de “latino genérico”. A quarta é a repetição inteligente de um eixo musical em contextos diferentes, até o público aprender a música pelo uso social que vê outras pessoas fazendo.
Quando o público entende onde essa música cabe na vida dele, a faixa deixa de ser novidade e vira hábito. E o hábito, no Brasil, não depende de compreender cada palavra. Depende de familiaridade, de permissão social e de repetição suficiente para a música virar trilha de situações que se repetem.
O caso Bad Bunny, no Brasil, interessa menos como fofoca e mais como teste de mercado. Ele é grande o suficiente para mostrar se o Brasil abre mais espaço de hábito para o espanhol quando existe ponte cultural, contexto e entrega consistente.
O Brasil não é “difícil” por teimosia. É “difícil” porque é autossuficiente e condicionado. Em mercados com consumo doméstico fraco, o internacional entra por gravidade. Aqui, entra por encaixe.
Se Bad Bunny conseguir sustentar essa ponte sem oportunismo e sem caricatura, ele pode deixar de ser pico e virar rotina. Se não conseguir, o salto pós-Super Bowl vira um registro de semana e o Brasil segue adiante, como já fez com tantos outros.
No fim, a barreira não é o espanhol. É o hábito. E hábito não se discute. Hábito se constrói.
Para ficar por dentro de críticas e artigos sobre o mercado da música, nos siga nas redes sociais: @musikoramamusic | @digaomusik
✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp














