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De show para Pablo Escobar à morte na pobreza, livro resgata trajetória surreal de Nelson Ned

Biografia escrita pelo jornalista André Barcinski mostra que cantor foi um dos brasileiros mais famosos no mundo

Odair Braz Jr|Do R7


O cantor Nelson Ned durante uma entrevista em 1987
O cantor Nelson Ned durante uma entrevista em 1987

Nos anos 70 e 80 havia muitos programas de música popular na TV: o Clube do Bolinha, Chacrinha, Programa Raul Gil, Barros de Alencar, o de Silvio Santos e, invariavelmente, Nelson Ned aparecia em todos eles com uma certa frequência. Claro que o cantor, portador de nanismo e com 1,12m de altura, chamava muito a atenção do espectador. Ele atraía os olhares, obviamente, por sua condição física, mas também pelo vozeirão inconfundível. “Como é que alguém como ele consegue cantar com essa potência?”, era a pergunta que todo mundo sempre se fazia em casa toda vez que Nelson aparecia na tela apresentando seu maior hit, Tudo Passará.

Mesmo sendo muito popular na TV e tocando bastante nas rádios, dá para dizer que o Brasil não soube apreciar e também não chegou a conhecer direito a obra e a arte do cantor. Nem um pouco queridinho da mídia, Nelson foi muito escanteado, deixado de lado mesmo, até, aos poucos, ser completamente esquecido bem antes de sua morte, em 5 de janeiro de 2014, aos 66 anos. E é para corrigir essa injustiça com um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, nascido em Ubá, Minas Gerais, que o jornalista André Barcinski acaba de lançar Tudo Passará – A Vida de Nelson Ned: O Pequeno Gigante da Canção (Companhia das Letras).

“Minha primeira ideia era fazer um documentário sobre o Nelson e consegui uma produtora maravilhosa, que é a Boutique Filmes. Mas não fizemos o filme até hoje e eu percebi, ao longo de uns seis anos mais ou menos, que não fizemos porque as pessoas não sabiam quem era o Nelson”. Barcinski queria fazer o longa e, depois, lançar um livro. Mas como ficou difícil, inverteu as prioridades: decidiu soltar o livro primeiro, para atrair a atenção das pessoas sobre o cantor e, com a repercussão, finalmente produzir seu documentário.

Nelson era muito famoso. No período de 1972 a 1986 ele foi%2C sem dúvida nenhuma%2C o artista brasileiro mais famoso do mundo

Em nossa conversa, o jornalista diz que não consegue acreditar que quase ninguém mais saiba hoje quem foi Nelson Ned. “A história dele é uma das mais incríveis que eu já conheci sobre um artista. Ele é um cara que superou dificuldades físicas imensas. Não é só o fato de ele ser portador de nanismo e o preconceito contra isso. Mas por ser portador de nanismo, ele tinha uma condição física que dificultava o canto. Tinha uma caixa toráxica menor que a normal. Sentia dores terríveis na coluna e por causa disso passou a tomar morfina, o que o levou a ficar viciado em cocaína. Foi um círculo vicioso de drogas que começou a tomar para aliviar sua dor”, conta o biógrafo.

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PABLO ESCOBAR, MÉXICO E COLÔMBIA

E se há uma coisa que Nelson tem é história. Bem antes de entrar em decadência, por volta do fim dos anos 90, Nelson teve uma trajetória única e atingiu uma fama que nenhum outro brasileiro experimentara até então. Nem Roberto Carlos. “Nelson era muito famoso. No período de 1972 a 1986 ele foi, sem dúvida nenhuma, o artista brasileiro mais famoso do mundo”, revela Barcinski. E continua: “O primeiro show do Nelson na Colômbia tinha 80 mil pessoas. Ele vai para o Cassino Royal, no México, e faz durante 24 dias seguidos três shows por noite. Ele cantou quatro vezes no Carnegie Hall, em Nova York, em 1974, sendo duas vezes na mesma noite com ingressos esgotados”.

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Segundo o biógrafo, também em 1974, Nelson ganhou o disco de ouro, nos EUA, pela venda de 1 milhão de compactos da música Happy Birthday my Darling. “Depois o Roberto supera o Nelson de longe, mas porque tem uma carreira que chega até hoje. Nelson cantava em estádio de futebol no México. A gente não tem noção do quão famoso esse cara foi. Ele era atração de todos os programas de TV mexicanos.

Como não tinha muito respaldo da mídia no Brasil, Nelson passou a se dedicar fortemente à carreira internacional a partir de 1972, 1973. “Ele fica muito mais tempo fora do Brasil e fazia muito sucesso na Colômbia, México e Cuba, mas também no Peru e Bolívia.” Nos EUA e em países latinos, o cantor se apresentava para todas as classes sociais, desde os muito ricos até os muito pobres. “Ele cantava no Shrine Auditorium [Los Angeles], em cassinos mexicanos, mas também num buraco no interior de sei lá onde. No Brasil isso não acontecia, e ele se apresentava apenas em feiras agropecuárias ou em ginásios no interior do nordeste. Aqui tinha uma separação entre shows para a elite e shows para o povão”, pondera o escritor.

Nelson fez sucesso imenso em vários países da América Latina
Nelson fez sucesso imenso em vários países da América Latina

Esse megassucesso de Nelson, que falava espanhol fluentemente, chamava a atenção de muita gente endinheirada, como o traficante Pablo Escobar, para quem o cantor fez vários shows. “Nos anos 70 e 80, ele cantou para todos os donos de boates do México e da Colômbia, lugares que eram dominados pelos cartéis, os de Cali e Medellín — na Colômbia — e o de Tijuana, no México. E por algum motivo, esses caras eram fanáticos pelo Nelson. O Pablo Escobar gostava tanto dele que mandava seu avião particular buscar o Nelson e a banda no Campo de Marte (em São Paulo) para que fossem tocar em Medellín”, conta o autor. “Agora, o que temos que lembrar é que nos anos 70 e 80, o Pablo Escobar não era tão famoso como viria a se tornar depois. Então, o Nelson e os caras da sua banda não sabiam quem era o Escobar. Só sabiam que se tratava de um cara rico pra caramba, certamente com conexões com o submundo — por causa da quantidade de drogas e armas que viam nas casas —, mas não tinham a noção de que aquele cara era o Pablo Escobar.”

Além de cantar para o megatraficante, Barcinski revela que o artista brasileiro se apresentou também para Baby Doc, ditador do Haiti. “Mas, ao mesmo tempo, o Nelson também era amigo do Gabriel Garcia Márques e do Tony Bennett. Então, ele cantou pra gente legal e também para gente que não era tão legal assim".

O Pablo Escobar gostava tanto dele que mandava seu avião particular buscar o Nelson e a banda no Campo de Marte (em São Paulo)

Nelson também fez muito sucesso em algumas regiões da África, como Angola. Em 1971, quando visitou o país pela primeira vez, foi recebido no aeroporto por cerca de 3.000 pessoas, que nem sabiam como ele era ou que tinha nanismo. “Em Luanda, não tinha TV — só chegaria três anos depois — então nunca haviam visto o Nelson, só o conheciam do rádio. E aí tem uma cena muito comovente: ele desce do avião e seu agente, o Genival Melo, coloca ele no ombro e ele canta, à capela, Tudo Passará, da escada do avião. E aí, todo o aeroporto começa a gritar, a chorar.”

AJUDA DAS IRMÃS

Infelizmente, toda essa loucura e sucesso imenso de Nelson lá fora não se reproduziram no Brasil. O cantor passou aqui por um duplo preconceito, primeiro pelo fato de ser portador de nanismo e, depois, porque sua música era considerada brega, popularesca.

“No início da carreira dele, a questão do nanismo era até vista com bons olhos. Então, saíam matérias do tipo ‘o menino-anão de Ubá que canta muito’ ou ‘o menino-anão da voz de ouro’”, conta Barcinski. A estigmatização era tamanha que o primeiro disco de Nelson, ainda sem canções próprias e lançado quando ele tinha apenas 17 anos, se chamava Um Show de 90 Centímetros. E tinha uma fita métrica na capa. “O Nelson reclamou com o diretor e disse que já tinha passado de 1 metro de altura. O diretor respondeu: ‘Se a gente botar menos de 1 metro vai vender mais’.”

O biógrafo crava: “Era uma outra época — e ele mesmo falava isso — em que, se você tinha um filho portador de nanismo, você o escondia em casa. Era um tempo em que não havia essa aceitação, não tinha a ideia de que eram pessoas normais com uma singularidade”.

Capa da biografia
Capa da biografia

Justamente por causa do tratamento tosco da mídia ao longo dos anos, onde quase sempre era apresentado como algo exótico — é que Nelson decidiu se dedicar cada vez mais ao mercado internacional. Apesar disso, o cantor conseguiu ainda ter sucesso por aqui, tocando muito nas rádios e aparecendo em programas de TV de gente amiga sua, como Silvio Santos e Chacrinha.

O sucesso de Nelson no exterior e no Brasil o tornou um homem rico, mas que gastava muito com presentes, armas e drogas. Decisões empresarias erradas também o levaram para a ruína financeira e com problemas de saúde e o avanço de outros gêneros musicais — como o sertanejo no fim dos anos 80 — Nelson passou a trabalhar menos, a gravar menos. Perdeu em farras toda a fortuna que acumulou e, no fim da vida, vivia numa clínica paga por suas irmãs.

Barcinski, inclusive, chegou a entrevistá-lo pouco mais de um ano antes de sua morte. A conversa com Nelson aconteceu em Cotia, na Grande São Paulo, numa chácara próximo de onde o cantor estava internado. “Ele estava muito mal de saúde, já tinha sofrido dois derrames e estava numa cadeira de rodas. A entrevista foi bem legal durante uns 20 a 30 minutos, depois ele começou a dar umas viajadas, falava coisas sem sentido. Aí, interrompemos. Fiquei muito tocado.”

Nelson Ned, como se vê, passou por tudo em sua vida. Foi do alto da fama ao ponto mais baixo da decadência. Mas, acima de tudo, foi um dos mais famosos e talentosos artistas brasileiros no mundo, apesar de quase ninguém hoje em dia saber disso.

Bom, quem não sabia agora não tem mais motivo para permanecer na ignorância. Nelson é parte importante da música e da cultura brasileira.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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