Odair Braz Jr Jakob Dylan lança o melhor disco do Wallflowers em 25 anos

Jakob Dylan lança o melhor disco do Wallflowers em 25 anos

Banda retorna após hiato de nove anos com o álbum Exit Wounds, o real sucessor do clássico Bringing Down the Horse

  • Odair Braz Jr | Do R7

Depois de nove anos, Jakob Dylan traz o Wallflowers de volta com o álbum Exit Wounds

Depois de nove anos, Jakob Dylan traz o Wallflowers de volta com o álbum Exit Wounds

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Jakob Dylan se considera uma anomalia no mundo da música e talvez seja mesmo. Uma boa anomalia, pode-se dizer. Ele lançou neste mês Exit Wounds, sétimo álbum de sua banda, The Wallflowers, e, sem muito medo de errar, dá para dizer que é o melhor trabalho da banda em 25 anos, ou seja, desde o clássico Bringing Down the Horse, disco de 1996 que tem hits planetários como “One Headlight”, “6th Avenue Heartache” e “Three Marlenas”. E é também um dos melhores álbuns de rock do ano até agora. Mas, para chegar a este resultado, o cantor-guitarrista-compositor teve de passar por um tanto de coisas. Uma saga, pode-se dizer.

A “anomalia” citada por Dylan em relação a si mesmo foi mencionada em entrevista ao site Upprox, feita há alguns dias como parte do trabalho de divulgação do novo CD. O cantor disse: “As pessoas nem sempre sabem o que fazer comigo. Eu sei que sou uma anomalia, porque não tem ninguém como eu trabalhando... por uma série de diferentes motivos”.

O cantor tem noção de que é um tipo meio estranho no mundo da música e fala isso de um jeito bem-humorado sobre o tratamento que recebe da indústria fonográfica, das rádios e TVs. É que, você deve ter notado o sobrenome, ele é filho de Bob Dylan, o que automaticamente joga um peso gigantesco sobre as costas do líder do Wallflowers. Jakob sempre fez questão de, profissionalmente, manter distanciamento total de seu pai. Sempre quis trabalhar com música, lançar seus discos sem precisar da ajuda e nem da participação de Bob. E foi o que aconteceu: não existe um registro público de Jakob cantando com seu pai. O Dylan mais jovem nunca tocou com o mais velho, jamais abriu um show seu, nunca regravou uma canção de Bob e não há nem mesmo uma fotografia publicada dos dois juntos com Jakob já adulto.

A capa de Exit Wounds

A capa de Exit Wounds

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E dá para entender os motivos do líder do Wallflowers. Se ele usasse seu pai para fazer sucesso, todo mundo diria que só se deu bem na carreira por causa disso. Já sem se aproveitar da imagem de Bob dizem que seu êxito vem por ser filho de quem é, imagine se tivesse tido o apoio de seu pai. Seria um tiro no pé. Então, quando diz que ninguém sabe muito bem o que fazer com ele é algo meio assim: como é que tratamos esse cara? Seu pai é Bob Dylan, mas o Wallflowers se dá bem sem usar a imagem do astro da música, sendo que a indústria ficaria muito contente se Jakob colocasse esse parentesco para funcionar na prática.

Mas ele não quer. E, apesar disso, quem está nas rádios e gravadoras tem de engolir o fato de que o Dylan mais novo — que tem 51 anos — é extremamente talentoso, escreve muito bem, tem uma ótima voz e sabe compor músicas consistentes. Como lidar com tudo isso? É mesmo quase uma aberração, afinal estamos acostumados a ver filhos de gente famosa seguir os passos de seus pais todos os dias. E sumirem tão rapidamente quanto apareceram. A questão é que com Jakob não é assim e ele permanece, continua, não sai de cena, mostra talento. Bom para ele, que deixa claro que tem vida própria apesar da sombra de Bob sempre estar ali por perto.

SEM PRESSA

A postura de Jakob em relação ao mundo da fama é algo que o ajuda — e o ajudou nesse tempo todo de carreira — a não lançar mão de truques fáceis para chegar ao sucesso. Ele não se porta como uma celebridade, não é personagem de sites e revistas de fofoca e quando não está em turnê ou lançando um trabalho novo ninguém sabe nada sobre sua vida. Ele simplesmente some dos holofotes e fica em silêncio em sua casa, em Los Angeles. Claro que isso tem um lado meio chato para os fãs, que nunca sabem exatamente quando virão novidades suas e da banda.

Mas Dylan não se preocupa muito com isso e prefere ficar distante o tempo que achar necessário. Ele parece não ter pressa e nem vontade ardente de fazer sucesso ou de aparecer de uma maneira mais ostensiva na mídia. Tanto é que Exit Wounds chega nove anos depois do último disco da banda, Glad All Over (2012), álbum que foi lançado sete anos após Red Letter Days (2005). Mesmo no auge da fama atingida com Bringing Down the Horse, o Wallflowers levou quatro anos para soltar seu sucessor, Breach (2000). É verdade que no meio disso tudo há dois discos solo de Jakob — Seeing Things (2008) e Women + Country (2010) — e também o documentário musical Echo in the Canyon (2018), produzido e apresentado por Jakob e que gerou um disco com o cantor regravando canções do rock americano dos anos 1960. Mas quando se fala no projeto principal, o Wallflowers, a espera geralmente é longa. Tanto que este novo trabalho é apenas o sétimo do grupo em trinta anos de carreira.

Jakob Dylan e a formação atual do Wallflowers

Jakob Dylan e a formação atual do Wallflowers

Reprodução/ABC

Exit Wounds, que já está em todas as plataformas e disponível também em CD e vinil, chega depois de uma espera de quase uma década e esse tempo todo tem até seu motivo de ser. É que muita coisa aconteceu de 2012 para cá. Olhando rapidamente e por cima de tudo, alguém pode dizer que este é um lançamento de uma banda que não existe mais. É que Dylan é o único integrante original. Os demais saíram todos do grupo por volta de 2013, durante a turnê do disco Glad All Over. Eles deixaram o Wallflowers por motivos diferentes. O baixista Greg Richling decidiu que não queria mais participar de turnês. O tecladista Rami Jaffee trocou de banda — dizem que saiu por desavenças com Dylan, mas ninguém confirma — e toca atualmente no Foo Fighters. Rami e Greg eram os membros mais antigos do Wallflowers, sendo que o tecladista tocava com Jakob desde antes do primeiro disco da banda, lançado em 1992. O baixista entrou em 1993. Ao longo dos anos o grupo teve um entra-e-sai de guitarristas e bateristas. Quer dizer, o Wallflowers sempre contou com uma rotatividade relativamente grande de músicos de um álbum para outro.

Mesmo sem os demais integrantes de longa data, nos últimos nove anos, Jakob manteve a banda na ativa, com outros músicos, fazendo pequenas turnês todos os anos durante o verão americano. E quase sempre tocando em seu país, com exceções de alguns shows no Canadá e um no Peru, em 2015. Assim, a banda permanecia viva, mas sem nenhum disco ou música inéditas, que só vieram agora, com Exit Wounds.

O tempo de quase uma década de espera por um trabalho novo, segundo Jakob disse em entrevistas recentes, foi algo circunstancial e não planejado. O cantor contou que ficou envolvido no projeto Echo in the Canyon por quatro anos seguidos e, quando se deu conta, lá se foram nove anos desde o último disco.

A saída de outros integrantes, especialmente as de Jaffee e Richling, deixaram algumas feridas no vocalista. E isso, sem dúvida, também é um dos fatores que fez com que Jakob e o Wallflowers levassem tanto tempo para soltar um novo trabalho. Mas Dylan também tem sua versão para essa história toda e diz que sua banda nunca teve sempre os mesmos músicos e que, na verdade, ele sempre foi o compositor de todas as canções. O que é um fato.

Desde o primeiro disco da banda, Jakob sempre chegou no estúdio com as músicas compostas e os demais membros colocavam a coisa em prática, mas sempre seguindo as ideias do cantor. Pode ser um jeito meio despótico? Pode, mas é assim que o Wallflowers foi construído, se desenvolveu e chegou ao sucesso. Uma criação mais coletiva da banda aconteceu apenas em Glad All Over, quando os demais integrantes também ajudaram na composição das canções e o resultado foi um álbum um tanto quanto diferente, ainda interessante, mas que Jakob já admitiu não ter ficado totalmente satisfeito com o resultado. E também que não deixaria mais esse tipo de coisa acontecer.

O produtor Butch Walker

O produtor Butch Walker

Reprodução/Instagram

Dá para ver, com tudo isso, que nem sempre pode ser simples de trabalhar com Dylan, que tem noção exata do som e das músicas que quer compor e lançar. O cantor, aliás, disse semanas atrás que decidiu lançar um novo trabalho com o nome do Wallflowers porque esta é sua banda, que ele a criou e que não quer vê-la sumir. Mais do que isso: para Jakob, a banda é um veículo, um projeto que o permite desenvolver seu lado mais rock’n’roll. Dylan diz saber como fazer o “som do Wallflowers” e justifica: “Depois de tudo o que passei e o tempo todo que trabalhei nisso [na banda], o que, às vezes, foi uma bagunça total, eu senti que era importante fazer um disco puro do Wallflowers. Eu comecei esse grupo. É a minha banda. Não importa quem está ou não nela”, disse o cantor à revista Spin.

E ele ainda falou mais sobre isso, dessa vez ao USA Today: “O Wallflowers sempre foi o meu lance e vou sempre estar no centro. Toda vez que volto ao grupo, fará sentido algumas pessoas estarem comigo, mas pode não acontecer com outras. É uma evolução constante”.

Isso tudo faz do Wallflowers uma banda de um homem só? Sim, mas talvez tenha sido sempre assim e ninguém notou.

ROCK PARA QUEM QUER ROCK
As músicas de Exit Wounds foram escritas por Dylan a partir de 2019 e cobrem os últimos quatro anos. Segundo ele, ninguém é mais o mesmo depois de ter passado por esse período de tempo e, falando sobre sua realidade, os Estados Unidos, o cantor diz que essa foi uma época de muita ansiedade e apreensão. É claro que ele está se referindo à vida de seu país no período em que Donald Trump ocupou a presidência e foi quando aconteceram, segundo Jakob, coisas inacreditáveis no país. Mas o disco não é panfletário e você não ouvirá em nenhuma canção as palavras “Trump” ou “governo” ou algo do tipo.  Dylan não quis datar as canções porque, para ele, suas composições são feitas para durarem para sempre e não devem servir para apenas um momento específico da história. Fora que ele não quer ficar citando o ex-presidente cada vez que cantar uma canção: “Não quero nem saber qual palavra rima com ‘Trump’”, diz.

Dá para dizer que o novo disco é uma sequência conceitual de Bringing Down the Horse. Assim, o que você encontrará em Exit Wounds é um som orgânico, com muita guitarra, órgão Hammond, elementos de country-rock, blues, folk e rock básico com influências de Tom Petty, Rolling Stones e Bruce Springsteen.

O produtor é Butch Walker, que também é músico profissional, tem seus álbuns e é amigo de longa data de Dylan. É um sujeito que entende e sabe como é o som do Wallflowers. Então, a coisa funcionou assim: Jakob concebeu Exit Wounds usando como banda os músicos que tocam com Walker — e que não necessariamente seguirão com Dylan como parte da banda. A partir daí, Dylan conseguiu reconstruir o estilo do grupo e desenvolver músicas — e um som — de banda mesmo. As novas composições são um trabalho do Wallflowers e não um disco solo de Jakob.

Se Exit Wounds fosse lançado em outra época, digamos meio dos anos 90/início dos 2000, certamente estaria vendendo bem e com algumas músicas já tocando bastante nas rádios. Há ótimos arranjos e letras muito acima da média quando se fala em rock. As faixas mostram o que Jakob Dylan sempre foi: um ótimo compositor que sabe muito bem como “construir” uma música.

Neste álbum — assim como em todos os anteriores — o músico funciona como um artesão minucioso e está sempre em busca da palavra correta, da frase exata e lapida sua criação até o ponto em que considera ideal. As canções chegam todas com mistério, sombras e camadas que percorrem a escuridão para chegar até a luz, buscando mudança e transformação. Têm desespero, um pouco de melancolia e esperança.

O primeiro single do disco, “Roots and Wings”, traz todo o esmero de Dylan e da banda com letra insinuante e cheia de metáforas, refrão assobiável (mas não bobo ou fácil) e guitarra com um certo grude. Na música, Dylan exibe um certo ressentimento por alguém mal-agradecido — talvez um ex-colega de banda? Ele diz: And I showed you how to swing / Yeah, I showed you how to strut / That's my mojo you're using / That's my wine getting you drunk (Eu te mostrei como bater / Te mostrei como aguentar / É a minha magia que você está usando / É o meu vinho que está te deixando bêbado).

A roqueira e energética “Move The River” é um outro grande destaque do disco e traz um certo otimismo, mesmo que à força: There's no way around it / However you feel about it / We're gonna move the river (Não tem como contornar isso / Como você se sente / Nós vamos mudar o rio de lugar).

A música que abre o disco, “Maybe Your Heart’s Not In It No More”, é uma baladona folk existencialista com letra quilométrica onde a banda fala sobre desilusão e a sensação de não estar mais ligado a algo ou alguém. Esta é uma das quatro canções que contam com o vocal de Shelby Lynne. A cantora abrilhanta o disco com sua voz country-rock, especialmente em “Darlin’ Hold On”, que tem uma levada igualmente country.

“Who’s That Man Walking ‘Round My Garden” é um rock divertido, irônico em que o Wallflowers consegue juntar Tom Petty e Rolling Stones. E assim o disco segue em alta com “Dive Bar In My Heart”, “I Hear The Ocean (When I Wanna Hear Trains)”, “The Daylight Between Us” e “Wrong End Of The Spear”.

Ao longo de todo o álbum se percebe uma constância, uma coesão. O Wallflowers não cede a nenhum tipo de modismo, não busca facilidades e atalhos para o sucesso. A banda sabe que os ventos não sopram mais para o lado do rock, mas isso não importa. Para remediar as dificuldades, Jakob foi em busca do som clássico de sua banda e ainda colocou surpresas e novidades pelo caminho. É um grande disco de rock para quem gosta de rock.

25 anos depois, Exit Wounds é o sucessor por direito de Bringing Down the Horse. Vai lá ouvir. Os dois.

Veja a banda tocando "Roots and Wings":

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