Odair Braz Jr Roberto regrava 'Outra Vez' e quase acaba com um de seus clássicos

Roberto regrava 'Outra Vez' e quase acaba com um de seus clássicos

Esta nova versão simplesmente não tinha a menor necessidade de existir; não se mexe em clássico

  • Odair Braz Jr | Do R7

Alguém deveria falar para Roberto não mexer em seus clássicos

Alguém deveria falar para Roberto não mexer em seus clássicos

Silvana Garzaro/Estadão Conteúdo - 24.06.2016

Foi embora há muito tempo a época em que Roberto Carlos lançava um disco com músicas inéditas sempre no fim de cada ano, como um presente de Natal para seus fãs. Esse esquema funcionou bem até o fim dos anos 90 e, de lá para cá, o cantor alterna álbuns inéditos com discos tapa-buraco. E agora em 2021 também não teremos um LP com canções novinhas, em vez disso, o nosso amigo soltou há alguns dias uma nova versão de Outra Vez, um de seus maiores clássicos. E, temos a obrigação de dizer, a coisa não fluiu nada bem.

Na boa, tem gente que deveria ser proibida de mexer em suas obras. O Roberto é uma delas. Fazer uma regravação de Outra Vez, escrita por Isolda e lançada pelo cantor em 1977, é algo como Da Vinci repintar a Monalisa ou os Beatles soltarem uma versão nova de The Long and Winding Road. Simplesmente não se faz uma coisa dessas. Clássico é clássico e vice-versa. Mas Roberto foi lá e fez. Infelizmente.

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Outra Vez modelo 2021 já nasce derrotada, porque não dá para competir com a original. Não que seja assim uma hecatombe nuclear de ruindade, mas é bem fraca. O arranjo saiu, digamos, açucarado demais. Tem muito violino, um piano sem graça, safado, e mesmo a voz do cantor perde quando comparada à de 1977. Alguns poderão dizer que é porque ele está mais velho, mas não é esse o caso. A voz simplesmente não consegue empolgar, está meio apagada.

Em Outra Vez de 1977, há uma predominância do violão no arranjo, o que dá um jeitão mais especial e simpático à canção. E a voz de Roberto está mais vívida, emocionante e carismática até. É até chato comparar uma canção à outra, lado a lado.

Bom, mas, até aí, você pode achar que tudo isso é implicância desta pessoa que aqui escreve. Por isso, fui procurar mais opiniões sobre Outra Vez 2021. Falei com o crítico musical Regis Tadeu, que tem programa de rádio, é jurado na TV, tem canal no Youtube e entende muito de rock, MPB etc. e tal. O que Regis disse: “Versão terrível e desnecessária! Roberto está com a voz cansada e a canção aparentemente foi gravada ao vivo no estúdio. Fora que o arranjo breguíssimo tirou toda a força da canção original”. E o crítico ainda arrematou: “Fiquei com a sensação de que a gravação foi feita por uma 'versão drag queen veterana da Simone' num karaokê no Renaissance Hotel". Não dá para discordar muito.

Também falei com Gonçalo Junior, escritor e diretor da editora Noir e um grande estudioso de diversos assuntos, MPB entre eles. Gonçalo não sentou a paulada do mesmo jeito que Regis, mas também considera que a regravação não foi das coisas mais felizes feitas por Roberto. Veja: “A emoção que Roberto consegue passar em suas interpretações está presente nesta regravação, sem dúvida. Mas perde em dois aspectos em relação à original. Primeiro, por um arranjo um tanto apressado, limitado, empobrecido e restrito a sintetizadores, apesar da presença de violinos ao fundo. O outro é a voz um tanto cansada, com pausas em excesso e certa dificuldade de respirar entre um verso e outro”.

Gonçalo continua sua análise falando sobre Outra Vez dos anos 70: “A primeira versão tem uma marca inconfundível do período em que ele fez seus grandes discos, entre 1967 e 1975. É um Roberto não só profundamente emocional como de imensa tristeza para interpretar canções que viraram clássicos, como Detalhes, Como Vai Você, A Namorada, Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, Se Eu Partir e De Tanto Amor. Por isso, tornaram-se tão representativas da melancolia que sufocava o país no momento mais crítico da repressão, apesar da euforia do milagre brasileiro. A primeira Outra Vez consegue, na minha opinião, tocar mais fundo no sentimento de quem ouve, faz um grande amor do passado parecer mais vivo e intenso”. Também não há como discordar.

E é por essas e outras (com trocadilho) que não havia a menor necessidade de Roberto regravar esse clássico. Esta versão 2021 será usada em breve na novela das 9 da Globo, mas não precisava ser regravada para isso. Por que não usar a original? Que dessem um trato na de 77, uma remasterizada digital ou coisa do tipo. Teria muito mais valor colocar um clássico absoluto para tocar novamente.

E uma última pergunta: como é que faz para “desouvir” Outra Vez 2021? Alguém sabe?

Aproveite e ouça a versão 2021:

E, agora, a original:

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