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A Vida e a Obra de Raul Torres

O Embaixador da Música Sertaneja

Viola no Pedaço|Daniel MartinsOpens in new window

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Raul Torres acervo: Daniel Martins Daniel Martins

Se você fechar os olhos e imaginar a essência da música raiz brasileira - aquela que tem cheiro de terra molhada, que conta histórias de tropeiros, amores trágicos e a vida simples do campo - é muito provável que a trilha sonora dessa imaginação tenha as digitais de Raul Torres.

Nascido em Botucatu, no interior de São Paulo, em 11 de julho de 1906, Raul Montes Torres não foi apenas um cantor ou compositor; ele foi um arquiteto da cultura caipira. Filho de imigrantes espanhóis, cresceu absorvendo as modas de viola que ecoavam pelas festas de roça do interior paulista, mas foi na cidade grande que ele transformou esse som regional em um fenômeno de massas.


Antes da fama, a vida de Torres não foi fácil. Ao mudar-se para a capital paulista, trabalhou como cocheiro, guiando cavalos pelas ruas de uma São Paulo que começava a se verticalizar. Diz a lenda que foi justamente o hábito de cantarolar para espantar a solidão e o silêncio das longas viagens na boleia que começou a chamar a atenção para a voz - um timbre macio, agradável e inconfundível, que mais tarde lhe renderia o apelido de “Bico Doce”.

Pioneirismo no Rádio e Inovações


Raul Torres foi um dos grandes pioneiros do rádio em São Paulo. Em 1927, quando o veículo ainda engatinhava no Brasil, ele já se apresentava na Rádio Educadora.

disco de Raul Torres e Florêncio gravado nos estúdios da Rádio Record Daniel Martins

A Record da “Era do Rádio” fez parte da história de Raul Torres, foi na emissora fundada em 1928 que o violeiro formou o primeiro conjunto caipira: o trio “Torres, Serrinha e Rieli”. Torres foi também um visionário estético.


Raul Torres acervo: Daniel Martins Daniel Martins

Numa época em que a música caipira era vista por muitos como algo estritamente folclórico e rústico, Raul Torres a refinou sem perder a autenticidade. Ele foi um dos responsáveis por introduzir o violão como acompanhamento nas duplas caipiras, instrumento que até então perdia espaço para a onipresença da viola. Essa mistura de sonoridades ajudou a criar a base do que conhecemos hoje como música sertaneja.

Além disso, Torres tinha ouvidos abertos para as fronteiras. Ele foi fundamental na popularização da guarânia e da música paraguaia no Brasil, incorporando ritmos latinos ao cancioneiro sertanejo, o que trouxe uma nova melodia e dramaticidade às canções do campo.


As Parcerias Lendárias

A carreira de Raul Torres é marcada por parcerias que definiram o gênero. A primeira de grande destaque foi com um sobrinho dele, Serrinha (Antenor Serra). Juntos, no final da década de 1930 e início de 1940, eles gravaram clássicos absolutos. Foi com Serrinha que o Brasil ouviu pela primeira vez a trágica e bela história de “Cabocla Tereza”, uma toada que é praticamente um roteiro de cinema em forma de música, narrando um crime passional com uma sensibilidade poética rara.

Raul Torres e Serrinha acervo: Daniel Martins Daniel Martins

Mas foi ao lado de Florêncio (João Baptista Pinto), a partir de 1942, que Raul Torres formou o que muitos consideram “o maior patrimônio da música sertaneja”. A voz potente e a viola de Florêncio casaram perfeitamente com o estilo de Torres. Juntos, imortalizaram canções como “A Moda da Mula Preta”, “Boiada Cuiabana” e a emocionante “Pingo d’Água”. A dupla permaneceu ativa e reverenciada até o falecimento de Torres, em 1970.

Raul Torres e Florêncio acervo: Daniel Martins Daniel Martins

É impossível falar de Raul Torres sem mencionar também João Pacífico. Esse outro gigante da música foi o poeta por trás de muitas das letras que Torres musicou. A união da melodia de Torres com os versos de Pacífico criou a “épica caipira”: músicas longas, declamadas, com começo, meio e fim, que transformavam o ouvinte em testemunha de dramas rurais. “Chico Mulato” e a já citada “Cabocla Tereza” são filhos diletos dessa união.

O Legado: A Ponte entre a Roça e o Asfalto

Raul Torres faleceu em 12 de julho de 1970, ironicamente um dia depois de completar 64 anos. Ele deixou um repertório de mais de 400 gravações e centenas de composições. Torres pegou a música que estava restrita às fazendas e rodas de viola e a vestiu com uma roupagem que a permitiu entrar nos salões, nas rádios e nas vitrolas da classe média urbana, sem que ela perdesse a alma. Provou que a cultura caipira não era “menor”; era, na verdade, a fundação da identidade paulista e brasileira.

Hoje, quando ouvimos uma grande estrela do sertanejo moderno, ou quando nos emocionamos com uma viola bem tocada, há um pouco de Raul Torres ali. Ele preparou o terreno, asfaltou a estrada (ou melhor, abriu a picada) por onde passariam Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Sérgio Reis e tantos outros. Raul Torres não apenas cantou o sertão; ele o eternizou.

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