Andrea Kaufmann: a chef que reinventa a própria carreira e transforma cozinha em autonomia
Com mais de 20 anos na gastronomia, chef e proprietária do AK Deli reflete sobre escolhas difíceis, liderança baseada na escuta e a importância de fazer bem feito

A história de Andrea Kaufmann, chef e proprietária do AK Deli, não segue uma linha reta. Ela avança, recua, muda de forma, mas nunca perde o centro. “Eu queria muito alguma coisa que dependesse de mim”, diz a chef ao relembrar os primeiros movimentos da carreira. A cozinha, que já fazia parte da sua vida, acabou se tornando mais do que um ofício. Virou ferramenta de autonomia, sobrevivência e reinvenção.
Andrea sempre cozinhou. Mas o caminho profissional não foi imediato nem simples. Em determinado momento, a vida pediu pausa. Uma gravidez de risco a afastou da cozinha profissional, e o fogão voltou a ser doméstico. Foi ali, entre receitas feitas em casa, aulas de culinária e pequenos eventos para amigos, que ela começou a enxergar novas possibilidades. “Eu comecei a dar aula de culinária, fazer eventos, cozinhar para pessoas que eu conhecia”, conta.
A virada veio quase como provocação. Um amigo, advogado, lançou a pergunta: por que não abrir um restaurante? Andrea quis, mas do jeito dela. Planejou. Estudou. Colocou a faculdade dentro do plano de negócios. O resultado foi rápido e contundente. Vieram prêmios importantes, como o de Chef Revelação da Veja São Paulo, o título de Melhor Restaurante Novo da Folha de S.Paulo e reconhecimentos do Paladar, com pratos que marcavam identidade e técnica.
O sucesso, no entanto, veio acompanhado de desgaste. O restaurante cresceu, a equipe chegou a 26 funcionários, a rotina ficou pesada. “Era uma loucura”, resume. Quando engravidou da filha Isadora, Andrea tentou se organizar, montar esquemas de tempo, ajustar a operação. Mas percebeu que algo não estava funcionando. “Não tava bom”, diz, sem rodeios. A decisão de vender o restaurante não foi fuga, foi estratégia.
Foram oito anos sem restaurante. Um período que poderia parecer afastamento, mas que foi, na prática, um mergulho em outras formas de viver da cozinha. Em 2015, Andrea percebeu o potencial dos cursos de gastronomia online, muito antes de eles se tornarem comuns. Passou um ano inteiro estudando metodologia, participando de grupos, testando formatos. Em 2017 lançou o primeiro curso.
Depois vieram outros quatro. “Eu fiz cinco cursos”, conta. Mais tarde, levou esse conhecimento para uma agência de publicidade, desenvolvendo conteúdos para nomes reconhecidos da gastronomia.
A mudança para Portugal, em 2019, trouxe outra camada à trajetória. A pandemia interrompeu planos de abrir um restaurante, mas abriu espaço para algo inesperado: o trabalho como personal chef. Foi um período marcante. “Eu chegava no cliente com a minha faca, meu cardápio, passava no supermercado ou na feira e fazia o menu”, relembra. Sozinha, sem equipe, sem hierarquia pesada, Andrea reencontrou uma relação mais direta e autoral com a cozinha.
Esse formato foi decisivo para a família. Quando o marido enfrentou dificuldades profissionais, a cozinha sustentou a casa. “Quando o bicho pegou, eu consegui ter essa saída, esse nicho de mercado de personal chef que segurou a gente lá”, afirma. Ali, ficou claro que cozinhar era mais do que vocação. Era estrutura.
Ao falar de empreendedorismo feminino na gastronomia, Andrea não romantiza. Ela aponta o que é difícil, o que cansa e o que quase nunca aparece nas histórias de sucesso. Fala da maternidade, da sobrecarga, das expectativas silenciosas impostas às mulheres. E, principalmente, da liderança. “O papel de líder é esse: escutar de verdade”, diz. Para ela, liderar não é mandar, é entender como o outro se sente, o que enxerga para o futuro, como pode crescer.
Hoje, com mais de duas décadas de carreira, Andrea diz que ainda aprende todos os dias. “Essa nossa área tem um pouco de sacerdócio”, reflete. Por isso, defende ambientes de trabalho mais humanos, onde o respeito venha de cima para baixo. Uma cultura que se constrói no exemplo, não no discurso.
Ao olhar para frente, a chef fala menos em expansão desenfreada e mais em coerência. O foco está em produtos autorais, pequenos produtores, ingredientes orgânicos e praticidade sem perder identidade. “Trabalhar em cima do que a gente já é”, resume. Crescer, sim. Mas com sentido.
Quando questionada sobre conselhos para mulheres que sonham em empreender na cozinha, Andrea é direta: “Trabalhe em lugares que se comprometam a te ensinar a profissão da forma mais ética e humana possível”. Para ela, o segredo não está em fazer tudo, mas em fazer bem. Pouca coisa, com verdade. Construir a carreira a partir da própria autenticidade.
A trajetória de Andrea Kaufmann mostra que cozinhar pode ser um ato político, econômico e profundamente pessoal. Entre pausas, retornos e escolhas difíceis, ela construiu uma carreira que não cabe em rótulos fáceis. Uma história que inspira não por ser perfeita, mas por ser real. E, sobretudo, por provar que a cozinha pode ser um caminho legítimo de liberdade para mulheres que escolhem empreender do próprio jeito.
AK Deli
Endereço: Rua dos Macunis, 440
Instagram: @akdelii
Horários de funcionamento: Segunda: fechado; terça a sábado: 08h às 18h; domingo: 08h às 16h
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