Comida japonesa não é só sushi: culinária tem origens de todo o mundo
Ao transformar influências do mundo em rotina, o Japão construiu um dos costumes mais identitários da história

Existe uma ideia confortável, quase romântica, de que cozinhas nacionais nascem prontas, puras e imutáveis. Como se cada país tivesse recebido seus pratos mais emblemáticos diretamente da história, embalados a vácuo, sem interferência externa. A realidade é bem menos estática e muito mais interessante.
A culinária japonesa é um dos melhores exemplos disso. Tem quem ache que comida japonesa é só sushi. Não é. Muito pelo contrário. Os quentes são os mais interessantes e deliciosos.
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E boa parte dos pratos que hoje definem o que chamamos de “comida japonesa” nasceu de encontros com o mundo.
Técnicas estrangeiras, ingredientes importados, hábitos observados e que foram, depois, profundamente transformados pelo excesso de identidade japonesa. O Japão nunca copiou receitas. Ele traduziu culturas.
Cozinha não funciona como documento de origem. Funciona como linguagem viva. Um prato não se torna tradicional porque nasceu em determinado território, mas porque passou a fazer parte da rotina, da memória e da vida das pessoas. A pergunta relevante não é “de onde veio?”, mas “o que ele se tornou?”.
Quando se olha por esse ângulo, a culinária japonesa mostra com clareza rara como influências externas podem ser absorvidas sem apagar identidade e ainda reforçá-la.
Tempurá: a fritura que veio de Portugal
A técnica de fritar alimentos chegou ao Japão no século XVI, trazida por missionários portugueses. A fritura europeia da época era pesada, marcada por massas espessas e tempos longos de cocção. No Japão, ela mudou de natureza.
A massa ficou mínima. O tempo, preciso. A temperatura, quase obsessiva. O silêncio da execução passou a importar tanto quanto o resultado final. O tempurá japonês não tenta esconder o ingrediente. Ele o revela. O que era técnica estrangeira virou estética japonesa.
Kasutera: o bolo Castella português
A castella, conhecida no Japão como kasutera, também tem origem portuguesa, inspirada em versões do pão de ló europeu. Ao chegar a Nagasaki, sofreu ajustes importantes. Menos doce. Mais úmida. Mais simples na aparência e mais delicada na textura.
Com o tempo, deixou de ser apenas um doce importado e passou a carregar significado local. Tornou-se presente de viagem, lembrança de cidade, símbolo de uma região específica do Japão. Não é mais um bolo estrangeiro servido em solo japonês. É um doce japonês com história internacional. É aquele bolo fofinho, fofíssimo, que encontramos nos cafés e padarias japonesas.
Curry rice: da Índia para o Reino Unido
Poucos pratos explicam tão bem o conceito de origem mundial quanto o curry japonês. O tempero nasceu no subcontinente indiano. Foi reinterpretado pelo Reino Unido durante o período colonial.
Chegou ao Japão no fim do século XIX, durante a modernização do país. O curry japonês ficou mais espesso, mais adocicado, menos picante. Tornou-se comida de escola, de refeitório, de casa. Um prato prático, barato, nutritivo e profundamente afetivo. Para muitos japoneses, curry rice tem gosto de infância.
Ramen: a influência que veio da China
O ramen tem origem chinesa. No Japão, o ramen deixou de ser apenas uma sopa de macarrão e virou linguagem cultural. Caldos complexos, estilos regionais, técnicas específicas. Tonkotsu, shoyu, miso. Cada região fala seu próprio dialeto.
Chamar o ramen japonês de “prato chinês” é tecnicamente raso. Ele carrega outra estrutura, outra lógica e outro papel social. Aqui, a influência não apagou fronteiras. Criou um novo território.
Gyoza: primo chinês
A gyoza deriva do jiaozi chinês, mas a comparação para aí. A versão japonesa é menor e mais crocante se feito na chapa ou frigideira. A gyoza japonesa reflete paladar, ritmo e hábitos específicos. É um exemplo claro de como adaptação não significa reprodução. Ele é menor, mais crocante e leva mais alho.
Tonkatsu: o empanado da Europa
Inspirado nas costeletas empanadas europeias do século XIX, o tonkatsu nasceu durante o período de ocidentalização do Japão. Mas rapidamente ganhou características próprias. O corte da carne, o tipo de empanamento, o molho espesso, o repolho finamente fatiado, o arroz servido ao lado.
O prato deixou de ser apenas carne empanada e tornou-se refeição completa, com ordem, repolho fininho de acompanhamento e molho. E foi para dentro do sanduíche também. Hoje, a farinha panko é sinônimo de empanamento japonês.
Korokke: o croquete que vem da França
O korokke vem do croquete francês. No Japão, virou outra coisa, passou a ter recheio de batata, custo baixo, presença constante em padarias, mercados e ruas. Virou comida de infância, de lanche, de pressa.
O que era associado ao refinamento europeu virou alimento popular e democrático. Um exemplo claro de como a cultura japonesa não apenas absorve influências, mas as redistribui socialmente.
Tofu: ingrediente chinês
O tofu chegou ao Japão vindo da China. Mas foi no Japão que ele ganhou centralidade alimentar. De ingrediente, virou fundamento. Aparece em pratos simples e sofisticados. Em preparações quentes e frias. Em contextos domésticos e gastronômicos. A origem importa. A permanência importa mais.
Japão fez filtro cultural
Nenhum desses pratos é menos japonês por ter origem externa. Pelo contrário. Eles mostram que a identidade culinária do Japão está na capacidade de transformação. Tudo que entra passa por filtro cultural, técnico e sensível. A tradição é a capacidade de dar forma própria ao que chega.
Talvez a maior lição da culinária japonesa seja receber influências sem medo. Ajustar, testar, refinar. Transformar o que vem de fora em algo que faça sentido dentro de casa. No fim, toda cozinha é feita de viagens. O que define uma tradição não é o ponto de partida. É o quanto ela consegue permanecer.
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