Do forno de casa à expansão nacional: ex-bancária faz do macaron um grande negócio
Na Serra Gaúcha, Valquíria de Marco enfrentou erros e custos altos, até criar e comandar rede com dezenas de lojas

Empreender, muitas vezes, começa longe de qualquer plano de negócios. Começa na cozinha de casa, em um hábito afetivo, em algo que dá prazer antes mesmo de dar dinheiro. Foi exatamente assim que a Le Petit Macarons entrou na vida de Valquíria de Marco, sócia-fundadora da marca e responsável pela produção e desenvolvimento do produto.
Seu prazer de preparar as sobremesas dos encontros de família mudou de ritmo e significado depois e uma viagem com o marido, Roger Righi Coelho, para a França. Roger é sócio-fundador e diretor de novos negócios da rede.
Depois dessa viagem, a escolha do negócio apontou exatamente para um dos doces mais difíceis da confeitaria mundial, o macaron. A produção começou no forno da cozinha do casal, em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, uma região onde as pessoas sequer sabiam o que aquilo era.
Formada em administração e atuando como bancária, ela jamais imaginou que faria da confeitaria um negócio. Hoje, são dezenas de lojas espalhadas pelo Brasil e planos concretos de internacionalização. Enquanto entrevistava Valquíria, Roger estava avaliando pontos comerciais nos Estados Unidos.
O olhar empreendedor veio de fora. Do marido, com experiência em franquias e gestão, que enxergou ali algo que ela ainda não via. Fazer doce todo mundo fazia. Mas macaron, quase ninguém conhecia.
A decisão de apostar no macaron não foi confortável. Além de caro, o doce exige precisão absoluta. Um pequeno erro, alguns segundos a mais de mistura ou uma variação de umidade, e toda a produção vai para o lixo. Não há correção possível.
O primeiro teste foi frustrante. O segundo também. E o terceiro. Foram meses de estudo, livros, cursos, tentativas e perdas. Quase um ano até que o macaron começasse, de fato, a dar certo. O famoso “pezinho” do doce virou símbolo de persistência.
Enquanto isso, a produção acontecia no apartamento, em um forno doméstico que assava só 14 unidades por vez. Os pedidos começaram pequenos, feitos para amigos, colegas de trabalho e conhecidos da academia. Dez aqui, quinze ali, cinquenta para um casamento.
O ponto de virada veio de um lugar inesperado. Um evento corporativo na Serra Gaúcha, que tradicionalmente distribuía produtos locais como brindes, como vinhos e geleias. Roger ofereceu os macarons.
Foram 400 macarons encomendados. Um desafio gigantesco para quem produzia em casa. Durante cinco dias, trabalhando manhã, tarde e noite, a encomenda foi entregue. E com ela veio algo mais importante que o pagamento: a reação do público.
As pessoas queriam saber onde comprar. Queriam levar para casa. Queriam repetir a experiência. Ali ficou claro que não era apenas um doce bonito. Era um produto com demanda reprimida. “Se eu tivesse desistido na primeira vez que deu errado, nada disso existiria”, diz ela.
A partir desse momento, a pergunta deixou de ser “dá para vender?” e passou a ser “dá para escalar?”. E a resposta só viria com método. Antes de pensar em franquias, vieram os testes. Congelamento, transporte, embalagem, durabilidade.
Com apoio técnico, descobriram que o macaron podia ser congelado sem perder textura, sabor ou aparência. Centralizaram a produção para manter o controle de qualidade e viabilizar a expansão nacional. “O macaron francês não funciona no clima brasileiro. O recheio precisou ser adaptado. Nosso macaron é brasileiro, mas com técnica francesa”, revela a empresária.
Hoje, toda a produção sai da Serra Gaúcha. São produzidas de 15.000 a 20.000 unidades por dia, atendendo dezenas de lojas. Parte do processo foi automatizada, como a modelagem do doce e a aplicação do recheio. Mas o acabamento final segue artesanal.
Cada macaron recebe um detalhe manual. Um traço, uma pintura, um ponto de chocolate. Isso não é capricho. É identidade. Em uma foto nas redes sociais, o consumidor reconhece o produto sem precisar ver o logotipo.
A obsessão por qualidade se estende à equipe. Quem produz vai às lojas, observa o macaron na vitrine, percebe o impacto de cada pequeno erro. Isso cria pertencimento e responsabilidade. Não é apenas produção em escala. É autoria coletiva.
Ao falar com outras mulheres que querem empreender, o discurso é direto. Persistência, dedicação e qualidade não são opcionais. “Persistência é mais importante do que talento.”
Reduzir insumos para baratear custos pode até aliviar no curto prazo, mas destrói a marca no longo. “Todo dia eu digo para a equipe: hoje vocês vão fazer o melhor macaron da vida de vocês.”
Outro alerta é não se deixar paralisar por opiniões externas. Medo existe. Na família, nos amigos e em quem observa de fora. Ouvir demais pode impedir qualquer movimento. A decisão precisa ser de quem está disposto a pagar o preço.
E o preço, especialmente no começo, é alto. Pouca vida social, jornadas longas e múltiplas funções acumuladas. Durante anos, marketing, compras, financeiro e produção passaram pelas mesmas mãos. “Foram anos fazendo tudo: produção, compra, marketing, financeiro. Resultado não vem rápido. As pessoas hoje são muito imediatistas”, acredita.
O próximo passo
Com quase 30 lojas no Brasil, o plano agora é internacionalizar. Os Estados Unidos são o próximo mercado. Ao mesmo tempo, a empresa estuda um desafio técnico ainda maior: levar o macaron para supermercados e empórios sem transformá-lo em um produto seco e descaracterizado. A ideia não é vender mais rápido. É vender igual. Com o mesmo sabor, textura e identidade da loja.
Essa não é uma história sobre sorte, viralização ou atalhos. É sobre escolher o caminho mais difícil e insistir nele tempo suficiente para dominá-lo. “Qualidade não é algo que você escolhe só quando dá certo. O sucesso vem quando você faz o seu melhor todos os dias”, afirma Valquíria.
Empreender, nesse caso, foi transformar afeto em técnica, técnica em sistema e sistema em marca. Sem perder, em nenhum momento, o prazer que tudo isso teve no começo: ver alguém provar e sorrir.
Le Petit Macarons
Rede brasileira especializada em macarons artesanais, com produção centralizada na Serra Gaúcha e atuação nacional por meio de lojas próprias e franquias. Desenvolve sabores autorais, edições sazonais e soluções para presentes, eventos e experiências gastronômicas premium. Instagram: @lepetitmacarons
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