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Aprendiz de cozinheira

Raisa Coppola faz o Medovik perfeito e transforma bolo russo em negócio no Rio

Entre literatura russa, psicologia e confeitaria, empreendedora constrói negócio onde cada bolo carrega memória e identidade

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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Raissa Coppola, dona do premiado Medovik, no Rio de Janeiro
Raissa Coppola, dona do premiado Medovik, no Rio de Janeiro Divulgação

Nem todo negócio nasce de um plano. Alguns nascem de uma inquietação. Outros, de uma memória. O Medovik, confeitaria especializada no clássico bolo russo de mel, nasceu de algo ainda mais difícil de explicar: a sensação de reconhecimento que a fundadora, Raisa Coppola, sentiu ao provar um doce do outro lado do mundo.

A história de Raisa não começa na cozinha. Começa nos livros. Mais especificamente, na literatura russa, que a acompanhou desde a adolescência, num período em que ela sentia que não cabia muito bem no mundo ao redor. Dostoiévski foi o primeiro a abrir essa porta. Depois vieram as óperas, os grupos de estudo, a curiosidade cultural. A Rússia virou território emocional antes de virar receita.


Formada em psicologia, com mestrado e atuação clínica, Raisa levava uma vida profissional estável até 2018. Mas tudo mudou quando, no fim da pós-graduação, fez uma viagem à Rússia e provou, pela primeira vez, o Medovik, um bolo tradicional feito em finíssimas camadas de massa de mel, intercaladas com smetana, um creme azedo típico da região.

A delicadeza daquele bolo ficou marcada. Não era um doce exuberante. Era preciso. Silencioso. Profundo. Como a literatura que ela lia.


Medovik, bolo russo feito com massa de mel Reprodução/Instagram @o.medovik

A busca pelo Medovik perfeito

De volta ao Brasil, Raisa tentou encontrar o bolo por aqui. Não encontrou. Então fez o que sempre fez quando algo lhe faltava: foi pesquisar. Traduziu receitas em russo, assistiu a vídeos, testou proporções. A primeira tentativa não funcionou. A segunda ficou melhor. Estruturada.

Ela decidiu levar o bolo para a professora de russo, uma nativa. No fim da aula, entregou a sobremesa quase como quem pede desculpas por ousar. A resposta veio direta: “Tem gosto da Rússia. E ainda melhor.”


Esse foi o primeiro sinal de que havia algo ali além de curiosidade gastronômica. Naquele momento, o Medovik ainda era hobby. Raisa seguia atendendo no consultório, dividida entre a clínica, os estudos e a cozinha. A confeitaria não era um plano. Era um refúgio.

Pandemia e a comunidade no Instagram

O ponto de virada veio em 2021, no segundo ano da pandemia. Com a redução dos atendimentos, especialmente por trabalhar com crianças, Raisa passou a ter mais tempo livre. Decidiu vender o bolo, sem grandes pretensões, “até tudo voltar ao normal”.


O normal não voltou. E o bolo ganhou vida própria. As primeiras fotos no Instagram despertaram curiosidade imediata. As perguntas se repetiam: “Que bolo é esse?”. “Ele parece com o quê?”. “Você é russa?”.

Raisa respondeu todas. Criou conteúdos semanais. Explicou ingredientes, história, textura, contexto cultural. Falou de literatura, de memória, de afeto. Sem perceber, construiu algo raro: uma comunidade interessada não apenas no sabor, mas na narrativa.

As encomendas cresceram. Vieram as fatias. Depois, os bolos inteiros. O Dia das Mães foi o alerta definitivo: a casa não comportava mais a produção. Caixas empilhadas, cozinha tomada, rotina virada do avesso.

Mesmo assim, Raisa resistiu a se assumir empreendedora. Tentou conciliar a psicologia com a confeitaria até entender que o Medovik não era um desvio de percurso. Era o percurso.

A receita de Medovik que virou negócio Reprodução/Instagram @o.medovik

Empreender sendo mulher

O primeiro espaço alugado trouxe o choque de realidade. Depois do contrato assinado, veio a descoberta de que o regulamento proibia atividade de cozinha. As multas começaram quase imediatamente. Foram oito meses pagando penalidades, lidando com hostilidade velada e boicotes cotidianos.

“Os porteiros não avisavam quando o creme de leite chegava. A caixa ficava lá embaixo, esquentando”, lembra. Não foi o único obstáculo. Fornecedores que não a levavam a sério. Depois, pessoas que chegavam à loja para explicar como ela deveria gerir o próprio negócio. Palpites não solicitados, tentativas de diminuição, uma escuta atravessada por gênero e idade. “Quando você é mulher, a escuta muda. Tentam te ensinar o que você já sabe.”

Nesse período, a psicologia voltou a ser ferramenta de sobrevivência. Respirar, não personalizar, seguir. Empreender, ela aprendeu, é um exercício constante de autocontrole emocional. E também de solidão.

O bolo que conta história Reprodução/Instagram @o.medovik

O Medovik como linguagem

O diferencial do Medovik é o que Raisa faz: transforma o bolo em linguagem. Cada criação vem acompanhada de pesquisa, contexto histórico e intenção sensorial.

Vieram outros clássicos do Leste Europeu, como o Kiev e o Leningrado, sempre com cuidado estético, narrativa cultural e coerência. O mestrado em psicologia, com foco em integração sensorial, atravessa o negócio: pratos, cores, apresentações e sabores são pensados como experiência.

O resultado é uma confeitaria que não vende apenas sobremesas, mas histórias comestíveis. E o público percebe. “Muita gente me diz que nunca comeu nada parecido. Saber que existe espaço para algo diferente é o que me mantém.”

A rotina invisível da empreendedora

Hoje, Raisa já não está todos os dias na produção, mas tudo passa por ela. Instagram, mensagens, vídeos, artes, organização da cozinha, planejamento de sabores, atendimento, lançamentos. A vitrine digital é feita à mão, como o bolo.

É o retrato comum a muitas mulheres empreendedoras: múltiplas funções, decisões solitárias e um negócio que carrega identidade demais para ser tratado como algo genérico.

Errar por si mesma

Quando perguntada se já pensou em desistir, Raisa não romantiza. Mas também não hesita. O que a segura é a convicção de estar fazendo algo que faz sentido para ela. “Eu prefiro errar por mim do que errar pela ideia de outra pessoa.”

Talvez essa seja a síntese do empreendedorismo feminino real. Não o discurso da força inabalável, mas a coragem de sustentar escolhas próprias, mesmo quando o caminho é mais difícil.

O Medovik nasceu assim. Camada por camada. Tentativa por tentativa. Até chegar ao ponto exato. E talvez seja por isso que cada fatia carregue algo além de sabor: a sensação de que ali existe uma história que não poderia ter sido feita por mais ninguém.

O Medovik

Endereço: Rua Visconde de Pirajá, 156, sobreloja 203 – Ipanema, Rio de Janeiro

Horário de funcionamento: segunda a sexta: 10h às 18h; Sábado: 10h às 17h

Instagram: @o.medovik

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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