Thaíssa Szapiro transforma pizza caseira em restaurante na Gávea
Da atuação à cozinha, a história da criadora da Puli Trattoria mostra que liderar também pode ser feito com afeto, presença e escuta.

Quando a comida é boa de verdade, ela puxa a gente para dentro do momento, exige presença, silencia o resto. Para Thaíssa Szapiro, esse estado nunca foi estranho.
No palco, atuando. Na cozinha, cozinhando. A diferença é que, desta vez, a presença não nasceu de um roteiro, mas de uma massa de pizza aberta em casa, durante a pandemia, enquanto amigos repetiam a mesma frase: “essa pizza é muito boa, vocês precisam abrir um restaurante”.
O que parecia improviso acabou se tornando a Puli Trattoria, um exemplo de empreendedorismo feminino que não começou com um plano de negócios, mas com sabor, afeto e insistência.
Empreender na gastronomia nem sempre começa com um plano de negócios. Às vezes, começa na cozinha da avó, como com Thaíssa antes de se transformar em uma das casas mais afetivas da Gávea.
Atriz de formação, Thaíssa cresceu cercada por comida de verdade. “Meu pai cozinhava muito bem. Minha avó era mineira, cozinhava pra caramba também. Eu sempre vivi enfiada em cozinha”, conta. Apesar disso, ela nunca se profissionalizou na área. O vínculo com a gastronomia veio da curiosidade, do prazer e da memória, não da técnica formal.
A virada aconteceu de forma orgânica, quase sem aviso. Durante a pandemia, cozinhar em casa virou rotina, depois ritual. A massa de pizza nasceu ali, entre testes e improvisos, até começar a receber elogios insistentes de amigos. “Todo mundo falava: ‘essa pizza é muito boa, a melhor pizza que eu já comi, vocês têm que abrir um restaurante’. E aí aconteceu.”
Da atuação à gestão: presença como ponto de contato
Ao contrário do que se imagina, Thaíssa não vê a gastronomia como um desvio de rota em relação à carreira artística. Para ela, as duas experiências se conectam num ponto essencial: a presença. “Quando você está no palco, atuando, você tem que estar muito presente, muito inteiro. E quando você coloca uma comida na boca que o sabor te arrebata, é a mesma coisa. Você não consegue pensar em outra coisa.”
Essa lógica orienta tudo na Puli. O cardápio, o ambiente, o ritmo da casa. Nada nasce para ser apenas bonito. “Não é só uma comida pros olhos verem. É uma comida que você come, cai ali dentro do prato e não consegue sair.”
Esse cuidado também explica o conceito que virou assinatura do restaurante: comida que abraça. Um termo que não foi criado em reunião de branding, mas reconhecido no dia a dia. “É uma comida que eu gostaria de comer, que me conforta, que traz esse acalento. Se não for isso, não entra no cardápio.”
Liderar sem confronto: um jeito feminino de empreender
Abrir um restaurante na Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro, trouxe desafios que não estavam no roteiro. O principal deles não foi o público exigente, mas a gestão de pessoas. “A equipe é muito difícil. É uma área onde a rotatividade é grande, não tem mão de obra no Brasil, isso é nacional. Todo dia é um desafio.”
Foi nesse processo que Thaíssa percebeu algo novo em si mesma. Apesar de ser atriz, sempre foi tímida fora do palco. “Enquanto personagem eu faço qualquer coisa. Eu, Thaíssa, tinha muita dificuldade de chegar e falar com gente que eu não conheço.” A rotina do restaurante a obrigou a atravessar essa barreira.
Ao mesmo tempo, algo inesperado aconteceu: a força feminina se impôs naturalmente. “Eu tenho uma gerente que é meu braço direito, uma chefe que é meu outro braço direito, uma caixa que é um dos meus pilares. Eu senti isso na pele. Uma força feminina muito grande fazendo acontecer.”
Essa vivência moldou o estilo de liderança da casa. Menos confronto, mais escuta. “Quanto mais a gente tenta confrontar, pior é. Tem que ter serenidade. Cada um lê a poesia de acordo com a poesia que tem em si.”
É um tipo de liderança que não aparece em manuais, mas sustenta o negócio no cotidiano.
Gastronomia como vínculo, não como produto
Na Puli, os pratos carregam nomes, histórias e datas. Macarronada do Nonno, Pudim Lisinho, menus de Dia das Mães, Dia dos Avós, Dia da Pizza. Para Thaíssa, isso não é estratégia de marketing, é construção de vínculo. “É uma forma de colocar a nossa cara no prato. O cliente se sente parte, como se estivesse entrando na nossa casa.”
O resultado é um público fiel, de bairro, que retorna. “Tem clientes muito assíduos. E isso era exatamente o que a gente queria.”
Mesmo quando pensa no futuro, Thaíssa demonstra cautela. A ideia de vender massas para preparo em casa existe, mas sempre com o cuidado de não romper a essência da experiência. “Enquanto restaurante, a ideia é cuidar dessa casa com toda a nossa atenção, como se fosse um neném.”
O conselho de quem viveu o processo
Ao falar com outras mulheres que sonham em empreender na gastronomia, Thaíssa não romantiza o caminho. O conselho vem direto, com humor herdado do pai: “Tem que ter coragem. Mas também calma e boa pontaria.”
É uma síntese perfeita do que sua trajetória revela. Empreender, no caso dela, não foi sobre crescer rápido ou ocupar todos os espaços, mas sobre sustentar um jeito próprio de fazer. Um jeito feminino, afetivo e presente. Um jeito que mostra que liderança também pode ser silenciosa, e ainda assim profundamente transformadora.
Puli Trattoria
Rua Marquês de São Vicente, 90 – Villa 90, Gávea, Rio de Janeiro(21) 3851-7373Instagram: @puli.trattoria
Horário de funcionamento: Domingo a quinta: das 12h às 23h; Sexta e sábado: das 12h à 0h
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