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Você é foodie ou tem Síndrome de Gourmand?

Lesão cerebral cria condição neurológica rara que transforma qualquer pessoa num escravo da gastronomia de luxo

Aprendiz de Cozinheira|Aline SordiliOpens in new window

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Infográfico explica a Síndrome de Gourmand
Infográfico explica a Síndrome de Gourmand Notebook LM

Você já se pegou pensando em comida no meio de uma reunião importante? Já planejou suas férias em torno de restaurantes? Já gastou mais do que devia num jantar especial? Eu já fiz tudo isso. Mais que uma vez.

E se respondeu sim para alguma dessas perguntas, relaxe. Provavelmente você é apenas um entusiasta da boa mesa, o que os norte-americanos, e agora os brasileiros, chamam de foodie.


Mas existe uma linha tênue, fascinante e assustadora que separa a paixão saudável pela gastronomia de uma obsessão clínica com raízes diretamente no cérebro. Essa linha tem nome: Síndrome de Gourmand.

Imagine acordar um dia, talvez depois de um acidente de carro, de um AVC, ou de uma cirurgia cerebral, e descobrir que sua mente foi completamente tomada pela gastronomia.


Não o interesse normal de quem gosta de cozinhar ou explorar restaurantes novos. Mas uma fixação devastadora: você passa o dia inteiro planejando a próxima refeição perfeita, gasta o salário em ingredientes importados, cancela compromissos com família e amigos para não perder uma experiência culinária de luxo, e sente uma angústia profunda quando não consegue o prato mais sofisticado disponível.

O que pode soar como fantasia para alguns é um pesadelo para os pacientes com Síndrome de Gourmand. A condição foi descrita formalmente pela primeira vez em 1997 pelos pesquisadores suíços Marianne Regard e Theodor Landis, no estudo “Gourmand syndrome”: eating passion associated with right anterior lesions, publicado na respeitada revista médica Neurology.


Os dois cientistas observaram algo curioso em pacientes que sofreram lesões cerebrais: alguns deles desenvolviam, de forma súbita, uma obsessão incontrolável por gastronomia fina. Não eram pessoas que já tinham esse interesse antes. A paixão nasceu do trauma literalmente.

Entenda

Para entender a síndrome, é preciso fazer uma pequena viagem ao interior do crânio. O lobo anterior do cérebro, parte do lobo frontal, especialmente o lado direito, funciona como o maestro de uma orquestra complexa de impulsos e desejos.


É ele quem nos permite dizer “não” ao terceiro pedaço de bolo, quem nos lembra que temos contas a pagar antes de reservar aquela mesa de R$ 2.000 num restaurante estrelado, quem equilibra nossas vontades imediatas com objetivos de longo prazo.

Por razões que a ciência ainda não explica completamente, o impulso que “escapa” do controle é justamente o prazer gastronômico. A obsessão não é especificamente por gastronomia fina, ingredientes raros, preparações sofisticadas, experiências sensoriais de luxo.

Processo

Mas o dano estrutural é apenas metade da história. A outra metade é química. Dois neurotransmissores assumem papel central nesse processo: a dopamina e a serotonina.

A dopamina está ligada ao sistema de recompensa e antecipação. É a dopamina que nos faz sentir aquela excitação antes de uma boa refeição, aquele prazer ao primeiro gosto de algo extraordinário.

Em condições normais, o córtex pré-frontal regula esse sistema, funcionando como um moderador. Na Síndrome de Gourmand, essa regulação “de cima para baixo” colapsa, e o sistema dopaminérgico fica sem freios, gerando uma busca incessante pelo êxtase proporcionado por sabores e aromas complexos.

A serotonina, por sua vez, regula o humor e a sensação de saciedade. Quando esse sistema é desequilibrado, o indivíduo simplesmente não consegue sentir satisfação com alimentos comuns.

O cérebro exige estímulos cada vez mais sofisticados, mais raros, mais caros para atingir qualquer sensação de bem-estar. O resultado é um ciclo vicioso: busca obsessiva, prazer momentâneo, insatisfação rápida, nova busca ainda mais intensa.

Como saber

Mas como distinguir um foodie de um doente? Aqui mora uma das armadilhas diagnósticas mais delicadas da medicina contemporânea. Afinal, numa era em que festivais gastronômicos lotam, chefs viraram celebridades e Instagram de comida tem milhões de seguidores, como separar o entusiasta do doente?

A resposta está menos no quanto a pessoa ama comida e mais em como esse amor se manifesta. O foodie clássico experimenta variedades com equilíbrio, faz disso um hobby entre outros interesses da vida, planeja seus gastos gastronômicos de forma compatível com sua realidade financeira, e mantém relações sociais normais. Para ele, a comida é prazer e o prazer tem limites conscientes.

Para o paciente com Síndrome de Gourmand, o cenário é radicalmente diferente. Os pensamentos sobre gastronomia são constantes e intrusivos, interferindo no trabalho, nos relacionamentos, em qualquer outra atividade.

A busca pela “refeição perfeita” é compulsiva, ignorando limites financeiros, horários, compromissos previamente estabelecidos. Os gastos tornam-se desproporcionais.

O isolamento social é frequente: o indivíduo passa a preferir a companhia solitária de um prato excepcional a qualquer interação humana que não gire em torno da gastronomia de alto padrão.

Ao contrário de outros transtornos alimentares como anorexia ou bulimia, a Síndrome de Gourmand não envolve medo de ganhar peso ou distorção da imagem corporal. O paciente não está preocupado com calorias. Está obcecado com qualidade sensorial, como textura, aroma, procedência, sofisticação técnica do preparo.

Uma ideia equivocada que circula sobre essa síndrome é que, por focar em qualidade em vez de quantidade, ela seria inofensiva para a saúde física. Engano.

Embora a motivação inicial seja estética e não calórica, a perda do controle de impulsos pode sim levar ao consumo excessivo, resultando em obesidade e suas consequências metabólicas, como diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares.

Por outro lado, a seletividade extrema pode paradoxalmente levar à desnutrição por desequilíbrio nutricional. Problemas gastrointestinais também podem surgir como consequência de uma dieta excessivamente rica em gorduras e proteínas de luxo. O perigo mora na priorização absoluta do paladar em detrimento de qualquer critério de saúde.

Desafio

Diagnosticar a Síndrome de Gourmand é um desafio considerável, principalmente porque a condição é rara e muitos médicos simplesmente não a conhecem. A avaliação é conduzida por profissionais de saúde mental em conjunto com neurologistas e envolve exame físico abrangente, testes psicológicos detalhados, análise do histórico de hábitos alimentares e, crucialmente, a investigação de possíveis lesões cerebrais subjacentes.

A neuroimagem, como a ressonância magnética funcional, pode identificar danos no lobo anterior direito e quantificar déficits no controle inibitório. Testes de funções executivas ajudam a mapear até que ponto a capacidade de tomada de decisão e regulação emocional foi comprometida.

É fundamental compreender que, por ser vinculada a danos cerebrais específicos, a síndrome não tem cura padrão estabelecida. Não existe uma pílula que resolva. O que existe é manejo.

O tratamento é multidisciplinar e personalizado, estruturado em torno de algumas frentes principais, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a intervenção medicamentosa, a terapia nutricional e o suporte psicossocial.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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