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Obesidade e Alzheimer: como o excesso de peso pode afetar a memória e o futuro do cérebro

Neurologista explica a relação entre inflamação, gordura abdominal e risco de demência — e por que tratar a obesidade é também um ato de prevenção

Obesidade sem Tabu|Mariana VerdelhoOpens in new window

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A obesidade pode acelerar o envelhecimento cerebral Inteligência artificial/ChatGPT

A doença de Alzheimer é hoje um dos maiores desafios globais de saúde pública. Estima-se que mais de 55 milhões de pessoas vivam com algum tipo de demência no mundo, sendo o Alzheimer responsável pela maioria dos casos.

As projeções são ainda mais alarmantes: esse número pode ultrapassar 130 milhões de pessoas até 2050, impulsionado principalmente pelo envelhecimento da população.


No Brasil, cerca de 1,2 milhão de pessoas convivem com a doença. Diante desse cenário, cresce o interesse da ciência em compreender fatores modificáveis que influenciam o risco da doença — e a obesidade desponta como um dos mais relevantes.

Minha avó paterna teve Alzheimer, e pude acompanhar, do, como essa doença ainda é uma doença cercada de medo, silêncio e muitas perdas invisíveis. Ele rouba memórias, mas também leva histórias, vínculos e pedaços da identidade de quem adoece e de quem cuida.


Minha avó não era obesa, mas o impacto da doença foi profundo e marcante. Desde então, sempre busquei ler e entender mais sobre o tema, até que me deparei com estudos apontando uma possível relação entre obesidade e Alzheimer.

Essa descoberta trouxe um novo olhar sobre o cuidado com o peso e reforçou, para mim, que tratar a obesidade com empenho é também uma forma de prevenção e responsabilidade com o futuro.


Cássio Lacerda, neurologista clínico do Hospital Moriah, explica a relação entre obesidade e Alzheimer ARQUIVO PESSOAL

O neurologista Dr. Cássio Lacerda, do Hospital Moriah, explica que a obesidade não deve ser vista apenas como uma condição metabólica ou cardiovascular, mas como um fator que afeta diretamente o cérebro ao longo do tempo.

O excesso de peso está associado a um conjunto de alterações metabólicas e vasculares, como inflamação crônica, resistência à insulina e comprometimento dos vasos sanguíneos, que prejudicam o funcionamento dos neurônios e aumentam a vulnerabilidade a processos neurodegenerativos característicos da doença de Alzheimer.


Do ponto de vista neurológico, a obesidade pode acelerar o envelhecimento cerebral. Estudos demonstram redução do volume do cérebro, especialmente em regiões fundamentais para a memória e para as funções executivas, como o hipocampo e o córtex frontal.

Além disso, há prejuízo da integridade da substância branca, responsável pela comunicação entre diferentes áreas cerebrais. Esses achados refletem um cenário de inflamação persistente, alterações na circulação cerebral e disfunção no metabolismo energético dos neurônios, resultando em um envelhecimento do cérebro mais precoce.

Outro aspecto importante destacado pelo especialista é o papel da gordura abdominal. A chamada gordura visceral é metabolicamente mais ativa do que a gordura subcutânea e libera maiores quantidades de substâncias inflamatórias e hormônios que interferem diretamente no metabolismo cerebral. Evidências científicas mostram que maior circunferência abdominal está associada a pior desempenho em memória, atenção e velocidade de processamento, além de maior risco futuro de demência.

A inflamação, aliás, é um dos principais mecanismos que conectam obesidade e Alzheimer. A obesidade gera um estado de inflamação crônica de baixo grau, com aumento de citocinas inflamatórias na circulação. Essas substâncias conseguem atravessar a barreira hematoencefálica, ativar células inflamatórias no cérebro e comprometer a função dos neurônios. Esse processo de neuro inflamação contribui para perda de conexões sinápticas, piora cognitiva e maior risco de doenças neurodegenerativas.

A boa notícia é que perder peso pode reduzir esse risco. A perda ponderal melhora a inflamação sistêmica, a resistência à insulina e a saúde vascular, fatores diretamente relacionados à proteção cerebral. Intervenções que promovem emagrecimento, especialmente quando iniciadas precocemente, parecem reduzir o risco de declínio cognitivo. Cuidar do peso, portanto, vai muito além da estética: é também uma estratégia concreta de preservação da saúde do cérebro ao longo da vida.

O momento da vida em que a obesidade ocorre também faz diferença. A juventude e a meia-idade são fases particularmente críticas, já que a doença de Alzheimer possui um longo período silencioso. Alterações biológicas no cérebro podem começar décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas, e o excesso de peso nessas fases atua como um fator acelerador desses processos subclínicos.

Os hábitos alimentares exercem influência direta e indireta sobre a saúde cerebral. Dietas ricas em alimentos naturais, fibras, antioxidantes e gorduras saudáveis ajudam a reduzir a inflamação e proteger os vasos cerebrais. Por outro lado, o consumo frequente de ultra processados, açúcares e gorduras saturadas favorece a obesidade, a inflamação e a disfunção metabólica, aumentando o risco de declínio cognitivo ao longo do tempo.

Além disso, a obesidade altera diversas substâncias presentes no sangue associadas ao risco de Alzheimer. Entre elas estão proteínas inflamatórias como a proteína C-reativa, a interleucina-6 e o TNF-alfa, alterações hormonais como resistência à leptina e redução da adiponectina, além de marcadores metabólicos ligados à resistência à insulina. Esses fatores estão relacionados à maior inflamação cerebral, ao prejuízo na eliminação de proteínas tóxicas do cérebro e ao aumento do risco de demência.

Do ponto de vista clínico, os primeiros sinais de que a obesidade pode estar afetando o cérebro incluem esquecimentos mais frequentes, dificuldade de concentração, raciocínio mais lento e maior fadiga mental. No entanto, em muitos casos, o impacto inicial é silencioso, sem sintomas evidentes, o que reforça a importância do controle do peso e dos fatores metabólicos mesmo em pessoas que se sentem bem.

Para o Dr. Cássio Lacerda, a prevenção mais eficaz é multifatorial. Alimentação saudável e prática regular de atividade física são as estratégias com melhor evidência científica para a proteção do cérebro. Medicamentos podem ser necessários para controlar condições associadas, como diabetes, hipertensão e dislipidemia, mas não substituem mudanças sustentadas no estilo de vida.

Entender que a obesidade pode estar entre os fatores que aumentam esse risco nos convida a uma reflexão urgente: o cuidado com o corpo também é um cuidado com a mente e com o futuro.

Tratar a obesidade com seriedade, informação e acolhimento não é apenas sobre viver mais, mas sobre viver com autonomia, lucidez e presença. Talvez a pergunta que fique seja simples e profunda ao mesmo tempo: o que estamos fazendo hoje para proteger as memórias que ainda queremos construir amanhã?

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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