Preço do ovo de Páscoa segue alto apesar da queda no valor do cacau
Indústria e economistas explicam por que alívio da matéria-prima não chegou.
Vanity Brasil|Do R7
Os ovos de Páscoa mantêm valores elevados nas prateleiras em 2026, um cenário que intriga consumidores diante da queda recente no preço internacional do cacau. Dados da plataforma Trading Economics revelam que a tonelada da commodity, que atingiu cerca de US$ 12.600 em abril de 2024, recuou para aproximadamente US$ 3.100 em março deste ano, retornando a patamares mais próximos da média histórica. Este movimento representa uma forte disparada seguida por uma acentuada correção, mas que, inexplicavelmente para o público, não se refletiu nos custos finais do produto. Apesar da normalização do preço da matéria-prima, especialistas e representantes da indústria apontam uma série de fatores complexos que impedem a repercussão imediata nos preços dos produtos nas gôndolas. O paradoxo entre a redução do custo do cacau e a manutenção dos altos valores dos chocolates comemorativos reside em uma combinação de estratégias comerciais, processos de produção antecipados, recomposição de margens e outros custos operacionais que se somam ao longo da cadeia produtiva. Segundo o economista Alex Bristot, a elevação dos preços está ligada a uma estratégia comercial da indústria. Ele explica que, na Páscoa, o mercado não vende apenas chocolate, mas um “símbolo” ou uma “lembrança” atrelada a uma data comemorativa e religiosa. Esse apelo emocional permite que o preço por grama do ovo de chocolate seja significativamente maior do que o de outros produtos similares. Além disso, o especialista indica que a indústria pode estar recompondo margens após um período de custos elevados, enquanto o comportamento do consumidor, diante dos preços altos, tende a migrar para ovos menores ou alternativas como coelhinhos de chocolate. A Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) corrobora que a disparada inicial nos preços foi causada por problemas climáticos severos, como o El Niño, que impactaram grandes produtores africanos, responsáveis por cerca de 60% do cacau global. A quebra de safra fez o preço da matéria-prima saltar de US$ 2.500 para US$ 11 mil por tonelada – a maior alta em 50 anos, de 300%. Embora estoques reguladores de moageiras como Cargill e Barry Callebaut tenham limitado o reflexo inicial no chocolate a 10%, no ano seguinte, em 2026, o impacto chegou a 26%. O CEO da Fralía Cacau Brasil, Matheus Pedrosa, esclarece que a indústria de Páscoa opera com meses de antecedência (seis a dez meses), o que significa que os ovos de 2026 foram produzidos com cacau comprado no pico das incertezas e com contratos futuros travados. Desta forma, a queda atual na bolsa de Nova York só deve se refletir nos preços ao consumidor ao longo do ano e, de forma mais perceptível, na Páscoa de 2026. Além da matéria-prima, outros fatores contribuem para o custo final, como a variação cambial, os preços do açúcar e do leite, e a logística, que no Brasil exige refrigeração para produtos sensíveis. Diante desse cenário, a indústria tem buscado ampliar a oferta e diversificar seus produtos. Matheus Pedrosa sugere o conceito de “Cacau Tech”, que visa ao aproveitamento integral do fruto – incluindo polpa, casca e mel – para mercados de alto valor agregado, como nutracêuticos, suplementos e cosméticos de luxo. A estratégia é manter o consumo aquecido e evitar repasses elevados, não pela redução do uso de cacau no chocolate, mas pela diversificação da demanda e extração de valor de todas as partes do fruto.














