Logo R7.com
RecordPlus
R7 Entretenimento – Música, famosos, TV, cinema, séries e mais

Após incêndio, Memorial da América Latina faz 25 anos com foco no povo

Projetado por Oscar Niemeyer, espaço quer atrair população e turistas

|Miguel Arcanjo Prado, editor de Cultura do R7

  • Google News
25 anos de história do Memorial da América Latina: à dir., auditório Simón Bolívar pega fogo em novembro de 2013; à esq., imigrantes bolivianos fazem festa na praça do Memorial, com a escultura símbolo do lugar, de Niemeyer, ao fundo
25 anos de história do Memorial da América Latina: à dir., auditório Simón Bolívar pega fogo em novembro de 2013; à esq., imigrantes bolivianos fazem festa na praça do Memorial, com a escultura símbolo do lugar, de Niemeyer, ao fundo

Muitos dos 400 mil transeuntes que passam diariamente pela estação da Barra Funda, que reúne metrô, trem e rodoviária, ainda não sabem direito que podem descer a rampa e entrar sem pedir licença no imponente espaço de mais de 84 mil metros quadrados bem ao lado. Trata-se do Memorial da América Latina, vizinho no centro nevrálgico desta histórica região paulistana.

Mas, não há o que temer. As portas do lugar estão abertas. Porque o Memorial da América Latina é do povo. Neste ano, a instituição sonha em deixar para trás as cinzas do incêndio de novembro de 2013 que consumiu seu auditório Simón Bolívar para converter-se em um dos principais polos culturais latino-americanos, como sonhou seus idealizadores.


Shows grátis de Elba e Jeneci

Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) e idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), o espaço foi inaugurado em 18 de março de 1989, há exatos 25 anos. Para comemorar a data, quer lotar sua área livre, onde está a famosa escultura em formato de mão, de Niemeyer, um dos cartões postais paulistas.


A direção do espaço, que é administrado pelo governo estadual, programou três grandes shows gratuitos. Sempre às 18h, a partir deste domingo (16), quando a paraibana Elba Ramalho sobe ao palco. Na segunda (17), o gaúcho Felipe Catto se apresenta. Já na terça (18), dia do aniversário, caberá ao músico paulistano Marcelo Jeneci cantar os parabéns.

1 milhão de visitantes


Em conversa com o R7, o presidente da Fundação Memorial da América Latina, o cineasta João Batista de Andrade , afirma que o maior desafio do Memorial é "se firmar como grande centro cultural com diversidade, além de ser mais procurado pela população". Andrade diz que a ideia de que o Memorial vive vazio é "equivocada" e afirma que o local é visitado por "cerca de 1 milhão de pessoas todos os anos". 

— É um número grande. Como o Memorial tem espaços gigantes com vários prédios, parece que é pouca gente, mas não é verdade.


Em termos de comparação, o Memorial tem menos de um terço da visitação do Museu da Língua Portuguesa, localizado na região da Luz, em São Paulo, que recebe uma média de 3,5 milhões de visitantes por ano. Mas, por outro lado, tem o dobro de visitantes da Pinacoteca do Estado, que recebeu em 2013 cerca de 500 mil pessoas.

Leia o blog de Miguel Arcanjo Prado

Novos vizinhos

Andrade conta que, desde que assumiu o espaço, em dezembro de 2012, resolveu investir em atividades ao ar livre como chamariz de gente. Mandou construir um playground, um jardim e até uma praça de esportes, para atrair famílias que moram na região.

— A Barra Funda vive uma explosão de

mográfica. Queremos que estes novos moradores e pessoas que trabalham na região frequentem o Memorial.

Para isso, a direção investe em programação gratuita, com shows, espetáculos infantis, circenses e recreação para os pequenos, além das apresentações culturais latino-americanas. 

Festas bolivianas

Uma das comunidades que abraçaram o Memorial é a de imigrantes bolivianos em São Paulo, cujo valor estimado já bate na casa de 200 mil pessoas. Eles já realizam duas festas anuais que lotam o Memorial, com cerca de 40 mil pessoas cada uma.

Imigrantes celebram Independência da Bolívia no Memorial
Imigrantes celebram Independência da Bolívia no Memorial

São elas: a Alasitas, a festa da abundância boliviana, realizada em janeiro; e a Festa da Independência da Bolívia, em agosto, quando grupos folclóricos desfilam, como revela Andrade.

— Temos de acabar com esta imagem de o Memorial ser um lugar fechado.

Para atrair o povo, o diretor do Memorial acaba de fechar uma parceria com o Metrô de São Paulo, para que o local seja anunciado nos autofalantes da estação Barra Funda. Em breve, as passarelas da estação ganharão publicidade chamando para a programação do Memorial.

— Queremos do erudito ao palhaço de rua.

Sol e vapor

O excesso de concreto da arquitetura de Niemeyer muitas vezes afugenta o público do Memorial, sobretudo nos dias mais quentes, quando o piso de asfalto aumenta a sensação de calor. Para melhorar isso, o Memorial instalou máquinas de vapor de água que saem do chão, como forma de amenizar a sensação térmica multiplicada pelo cimento em dias quentes.

Além dos grandes shows, no próximo dia 21, o Memorial abrirá uma exposição gratuita contando sua história, que ocupará a galeria Marta Traba. Também será reaberto após reforma o Pavilhão da Criatividade, que tem 4.000 peças de arte popular dos países latino-americanos. Para Andrade, a mudança de percepção do público em relação ao Memorial virá. E diz que "é preciso ter paciência".

Incêndio e reforma

O incêndio que destruiu o auditório Simón Bolívar no dia 29 de novembro de 2013 teve pelo menos um lado positivo: despertou na cidade o amor pelo Memorial, que andava esquecido do noticiário e das mentes havia muito tempo. Por conta da solidariedade de outros órgãos públicos, que emprestaram espaços, nenhum evento precisou ser cancelado.

Neste ano, está confirmado o Festival Latino-Americano de Cinema de São Paulo, que deverá exibir filmes em tendas, e o Festival Ibero-Americano de Teatro, que deverá investir em espetáculos que possam ser apresentados na praça do Memorial. No momento, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) termina um minucioso laudo sobre o espaço atingido pelo fogo. Apesar da expectativa de que dure até dezembro, é bem possível que a reforma, que será assumida pela CPOS (Companhia Paulista de Obras e Serviços), avance o ano de 2015. Andrade explica.

— Em maio já deve ter licitação. Reforma é sempre algo complicado, porque surgem muitas possibilidades, sobretudo de melhoras tecnológicas. É o laudo que dirá o tamanho das intervenções. Vamos fazer tudo em sintonia com a Fundação Niemeyer. Eu gostaria que tudo ficasse pronto até o fim do ano, mas obra sempre é imprevisível.

O diretor do Memorial afirma que até hoje não ficou clara a causa exata do início do fogo. Diz que uma das possibilidades levantadas pelo laudo pericial é de que o aumento da tensão de energia tenha queimado o fusível do gerador do espaço. Mas é "apenas uma hipótese".

Diálogo latino

O Memorial da América Latina também se dedica a pensar a região. O espaço produz a revista Nossa América e também sedia o CBeal (Centro Brasileiro de Estudos da América Latina). A diretora do espaço, Marilia Franco, lembra que "a certidão de nascimento do Memorial é intelectual".

— Um dos objetivos pensados pelo Darcy Ribeiro foi a construção de um pensamento sobre a América Latina que fosse fundamentado na própria América Latina. Porque sempre tivemos um olhar da Europa sobre nós.

Ela reitera a "riqueza de culturas" que sempre existiu na região. O CBeal propõe cursos e palestras que têm a América Latina como foco, coisa ainda rara no cotidiano do brasileiro.

— Enquanto os outros países latino-americanos olham para a gente, o Brasil insiste em virar as costas para a América Latina.

Grito de alerta

Ela recorda que a ausência de diálogo é perceptível, por exemplo, na TV paga brasileira, onde é possível ver canais do EUA, do Japão e da Europa, mas não há disponibilidade de canais latino-americanos. Ela lembra que a TAL (Televisión América Latina), que é gratuita na internet, não é sequer conhecida no Brasil.

— Por que o Brasil não exibe canais latinos? Por que ninguém reclama? Porque somos completamente colonizados: na cultura erudita pela Europa e na cultura popular pelos Estados Unidos. E ser um país colonizado é um problema muito sério. O Memorial tem justamente a missão de tentar mudar um pouco deste cenário e aproximar o Brasil da América Latina.

Para ela, o fogo do ano passado serviu como um grito de alerta.

— Quando teve o incêndio, as pessoas começaram a descobrir o valor que elas davam ao Memorial. Ele foi abraçado pela cidade. Espero que estes 25 anos sejam o momento da grande virada, e que o Memorial ganhe a projeção que merece.

Leia o blog de Miguel Arcanjo Prado

Últimas


    Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.