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Alessandra Negrini lança garrafas ao mar – como bumerangues 

Dirigido por Nelson Baskerville, Uísque & Vergonha, texto de Juliana Frank, é literatura que não serve nem à comédia nem ao teatro underground

|Marco Antonio Araujo, do R7

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Engraçadinha: Alessandra interpreta a jovem Charlotiê com charme e leveza
Engraçadinha: Alessandra interpreta a jovem Charlotiê com charme e leveza

Escrever é a arte de cortar palavras. Ninguém sabe com certeza o autor da definição, mas é pouca a chance de o conselho ser seguido por um escritor brasileiro contemporâneo. Não se fazem mais gracilianos como antigamente. Já há algumas décadas, a verborragia impera em nossa literatura, herança maldita dos pós-modernos afetados pela falta do que dizer. Depois reclamam que ninguém lê.

Também reclamam que ninguém vai ao teatro. Faz sentido. Nossa dramaturgia, tudo indica, morreu – e as produções teatrais não andam se sentindo muito bem, ultimamente. Falta de assunto, convenhamos, não é. O roteirista que cuida deste país é bom pra caramba, emenda uma temporada na outra com requintes de suspense e crueldade. E olha que a produção é bem tosca.


E se juntar literatura e teatro brasileiros? Já vou logo avisando: não costuma dar muito certo. A não ser que voltemos ao antológico Macunaíma, de Antunes Filho, lá no longínquo 1987 – baseada no livro de Mario de Andrade escrito no lendário ano das artes de 1922.

O próprio Antunes voltaria a folhear nossos clássicos com A Hora e Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, interpretado por um Raul Cortez no auge da carreira. A peça nos deixou fotografias muito mais impactantes do que o visto no palco do Sesc Anchieta em 1986. Vale um Google.


Por fim, em 2010, o Centro de Pesquisas Teatrais do Sesc permitiu a Antunes enfrentar e ser derrotado por seu maior desafio: O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Valeu a pena, ao final, por nos apresentar o ator Lee Taylor, uma das muitas estrelas da constelação de talentos revelada pelo grande mestre do CPT.

Bia Lessa, ano passado, fez um espetáculo-instalação com o magnífico Grande Sertão: Veredas, colosso de Guimarães Rosa que deveria permanecer intocado, acima de tudo e de todos. Uma heresia só comparável à Netflix transformar em minissérie Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Por mim, haveria retaliações.


OSTRACISMO HISTÓRICO

Toda essa introdução talvez seja excesso de respeito para tratar da adaptação para o teatro de Uísque & Vergonha, baseada no livro de Juliana Frank escrito agorinha há pouco, em 2016. A autora paulistana tem público cativo e reconhecimento um pouco mais espesso que seus livros e textos jornalísticos considerados ágeis, leves e poéticos, quando, a rigor, são pesados, redundantes e grosseiros. Tempos líquidos e sombrios.


Verdade seja dita, a autora gosta de se mostrar, até em público, como despretensiosa, independente e muito, muito moderna. Há testemunhas e documentos que provam o desapego de Juliana e sua presumida inocência na forma como é vista por sua legião de fãs. Todo mundo tem de pagar boleto, e cada um se vira como pode. Nada mal fazer isso nascendo em São Paulo e morando no Rio, sendo roteirista de programas de TV, trabalhando com cinema e sendo querida por feministas militantes, intelectuais descolados e algumas pessoas normais.

Também é fato que há precedentes – ou agravantes, numa linguagem jurídica. Por isso Fui Embora, escrito por Juliana em 2012, subiu aos palcos cariocas quatro anos depois, com Joaquim Lopes e Priscila Fantin, só para vocês terem uma ideia. O universo desbocado, amoral e frenético da autora já estava lá, e quem poderia duvidar que essas características não ficariam bem em cena?

Pois não ficam. Do ponto de vista dramático, e isso não é monopólio de Juliana, a fragmentação narrativa, o desprezo por recursos aristotélicos, o autoengano em insistir no fluxo de consciência e a obsessão em emprestar um tom único e autoral são características universais que têm condenado à irrelevância e ao ostracismo histórico a recente produção de textos teatrais (adaptados ou não, é bom frisar).

Nelson Baskerville é um dos maiores encenadores brasileiros em atividade
Nelson Baskerville é um dos maiores encenadores brasileiros em atividade

BOLHAS

No caso de Uísque & Vergonha, a escrita de Juliana parece ter sido a motivação central da montagem dirigida por Nelson Baskerville. Presume-se que havia algo a dizer. No entanto, a “indecente”, mas respeitosa, adaptação de Michelle Ferreira, a preocupação cenográfica de Cássio Brasil (que também assina os figurinos) em destacar a “caótica” e “estilizada” geografia afetiva e geracional dos grafites e HQs, os personagens que se desdobram (e se anulam) em alter egos da protagonista, o incontornável aspecto biográfico e as “más memórias” da história, reforçam, ao final, uma incômoda impressão.

A peça é uma mensagem na garrafa jogada ao mar como um bumerangue, uma carta de suicídio que não será lida, pois soa como um falso pedido de socorro, feito em código. Uma piada interna de humor negro, a ser contada numa festa estranha com gente esquisita.

Não estamos na cidade de São Paulo, como insistem os personagens. Estamos numa bolha dessa metrópole, como numa analógica e depressiva rede social. Se o espectador não fizer parte desse mundo claustrofóbico e promíscuo, indulgente e masoquista, onde o fracasso é uma missão de vida (e morte), paciência.

À exceção da ótima trilha sonora (de Daniel Maia e elenco), que se expande para além do que o palco mostra, nenhum convite ou agrado é estendido à plateia que inadvertidamente precise entender o que está acontecendo com Charlotiê, a adolescente que foge da família aos 15 anos e, morando nas ruas, conduz as aventuras existenciais prometidas e jamais entregues em Uísque & Vergonha.

Que não se coloque esse estiramento nas costas dos atores – que, auxiliados por alguns bonecos, interpretam 22 pessoas e alegorias. Estão todos confortáveis e envolvidos em pinçar momentos de carga e humor – como a hilária mãe de Ester Laccava, o fleumático terapeuta de Gui Calzavara, o angustiante pai de Carcarah e a anárquica boneca de Erika Puga, principal coadjuvante dessa miserável epopeia urbana.

Alessandra Negrini se apresenta com frescor e talento vintages, incomuns, em perfeita sintonia com o espírito colorido e iconoclasta da encenação. Leve e ao mesmo tempo engajada, desfila com desenvoltura e em nenhum momento solta a mão de sua Charlotiê. Sim, beleza é fundamental.

DIREÇÃO

Nelson Baskerville, desde o corajoso e arrebatador Luís Antônio-Gabriela (2011), percorreu um caminho que hoje o coloca entre nossos maiores encenadores. É notável seu amadurecimento, tanto na direção de atores quanto no domínio de recursos cênicos. Consegue transitar com inteligência do clássico (sua concisa releitura de Tchecov, 1Gaivota – É Impossível Viver Sem Teatro, em 2015, é prova disso) ao mais desbragado underground – como mostrou possível no irreverente e lúdico Os Sete Gatinhos, de Nelson Rodrigues, em 2012.

Em Uísque & Vergonha, há uma inflexão nessa trajetória. O que deveria ser uma zona de conforto (o texto poluído, a temática suja, o elenco heterogêneo) impede que Baskerville consiga superar os desafios que ele mesmo tem se imposto e ao seu repertório. É uma peça que transpira, ao menos aparenta, aquela pobreza típica das produções brasileiras – e que, por força da necessidade, foi o ambiente em que o talento do diretor se revelou e onde sua criativade mais prospera. 

Deve-se concluir: a estética que oscila entre as penúrias do mambembe e do hip hop foi intencional. Um desperdício. Parafraseando o conselho literário do início deste texto (longo), encenar deveria ser a arte de cortar cenas. Uísque & Vergonha tem 37. Fica a dica: menos é mais. 

Uísque & Vergonha

Quando: de sexta a segunda; sexta e sábado, às 21h30; domingo às 19h: segunda às 21h

Onde: Teatro Novo, rua Domingos de Moraes, 348, Vila Mariana, São Paulo

Quanto: de R$ 50 a R$ 60

Classificação indicativa: 18 anos

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