'Bird Box' brilha como poucos com suspense e Sandra Bullock
A falta de visão dos personagens cria tensão no público ao contar uma história pessoal e transformar Sandra Bullock em mãe-heroína
Cinema|Caio Sandin, do R7

A visão é, para aqueles que a possuem, a grande muleta do ser humano. Enquanto cachorros e outros animais aprimoraram outros sentidos para se adaptarem ao espaço que ocupam, o homem se apoiou na visão e relegou os demais para papéis secundários, por vezes até esquecidos. Mas o que acontece quando não se pode apoiar na bengala que te escora desde o seu nascimento? Esta é a realidade retratada por Bird Box.
A premissa parece muito parecida com Um Lugar Silencioso, sucesso de público e crítica que lotou salas de cinema mundo afora no início do ano, mas que retratava um mundo em que monstros com audição ultrassensível não permitiam a emissão de qualquer ruído.
No caso do lançamento desta sexta (21), a personagem de Sandra Bullock, grávida, vê tudo à sua volta entrar em colapso graças a um “monstro” que ao ser visto gera alucinações e faz com que as pessoas cometam suicídio. Com isso, só há segurança em uma casa que a acolheu e fica vedada de qualquer imagem do exterior ou usando vendas.
O longa é contado em espaços temporais distintos, mesclados muito bem. O passado explica e ajuda o presente a se desenrolar, mostrando como aquelas crianças, que viajam junto da protagonista, foram criadas em um mundo sem infância como a conhecemos. Elas são forçadas a se desvencilhar da muleta que ainda está presente nos adultos e desenvolvem melhor a audição para serem uma espécie de guia em meio à escuridão.
Parte de uma excelente safra de suspenses/terrores que chegou às telonas nos últimos anos, o filme se difere apenas na forma como será visto pelas pessoas. Poucos vão ter a oportunidade de vê-lo projetado em uma grande tela, já que se trata de uma produção Netflix, nada mais justo do que chegue para todos os assinantes simultaneamente, em qualquer dispositivo que desejem assistir.

Uma pena, pois o longa sabe muito bem criar, do início às cenas finais, a tensão desejada nos expectadores, que ficam boquiabertos, na ponta da cadeira, enquanto testemunham a perigosa jornada de uma família contra tudo. O ‘monstro’ é uma ameaça constante, que tenta a todo o momento para que os personagens deem apenas uma olhadinha. Mas, como em toda boa história de apocalipse, os outros humanos costumam ser maior ameaça.
A trama é muito inteligente na maneira como mostra (ou não) todo este mundo e, principalmente ao focar na relação entre os protagonistas e nas divergências que ocorrem. A diretora Susanne Bier filma magistralmente toda a saga e consegue transportar a audiência para toda e qualquer situação passada em tela, criando a empatia necessária para todos os momentos ápice da projeção.
Bird Box é a segunda tentativa do que parece se tornar uma tradição da Netflix: os filmões de fim de ano com nomes renomados tanto na direção quanto como protagonistas. Mas ao contrário de seu antecessor, Bright, que falha miseravelmente em quase tudo o que tenta, o produto da união de duas vencedoras do Oscar é — de fato — brilhante.
















